Paulo Velloso
O viajante do interior
Percorrer as veredas do
interior do Estado de São Paulo pode ser uma odisséia. Tal qual
Ulisses, que valorizou mais o reino de Ítaca após os anos que
ficou longe do poder e da amada Penélope, quem é do interior não
perde suas raízes e, cedo ou tarde, quanto maior o afastamento,
mais tende a retornar.
O grande mistério do
ser humano está na busca desses elos perdidos. Afinal, quanto
mais a morte se aproxima, mais o ser humano, como bem ilustra o
filme Paris, Texas (1984), do diretor alemão Wim Wenders, tende a
buscar o útero materno, o local da concepção, o início de tudo
aquilo que entendemos como nossa história individual e coletiva.
Esse tipo de reflexão
sobre o significado da vida e da arte, como forma de recuperação
de um trajeto existencial, é um dos caminhos para penetrar nas
fotografias de Paulo Velloso, mais especificamente na série,
realizada entre setembro de 1996 e junho de 1997, que enfoca o
interior, visto como um local amplo, vazio, repleto de solidão.
Suas imagens mostram aquilo que muitos não vêem. São, em sua
maioria, caminhos que convidam o fruidor a preenchê-los.
Entre as imagens, há
uma que se repete em diversas dimensões. Trata-se do trinômio céu-estrada-terra.
Uma estrada, vazia ou com um objeto em movimento, seja um caminhão
ou um trator, ou uma ponte, que parte e chega ao vazio
existencial, constitui o fulcro da arte fotográfica de Velloso. A
força do solo avermelhado se contrapõe a um céu azul Magritte.
Entre os dois, está a mediação do ser humano, construtor e
destruidor de espaços, criador de caminhos onde havia florestas,
remetendo aos céus a fumaça das queimadas que esgotam a terra.
No entanto, algumas
imagens, que poderiam ser apenas um apelo ecológico, ganham,
pelas lentes de Velloso, características hiper-realistas em cores
que retomam, numa dimensão quase fantástica, os cenários
inesquecíveis do filme Edward Mãos de Tesoura (1990), de Tim
Burton. As cores remetem a um mundo que existe apenas para quem
consegue enxergá-lo e que deixou de existir para quem foi
decididamente engolido pela velocidade contemporânea.
O tempo interior é
outro. Velloso o capta quando a locomotiva, com a luz acesa ainda
sob a luz do dia, puxa o comboio que passa por uma ponte quase em
ruínas ou na imagem em que um rio, repleto de produtos químicos,
realiza um par ecologicamente incorreto com as placas enferrujadas
carcomidas pelo tempo e pelo descaso.
O céu azul Magritte não
é a única referência pictórica das fotografias. Postos de
gasolina semi-desertos, pneus no chão e um fogo que se assemelha
a uma figura humana evocam também Edward Hopper, pintor
norte-americano celebrizado por captar a solidão contemporânea.
Nessa mescla imagética, diversas imagens de Velloso levam a
indagações sobre qual é o interior que preenche o Estado e cada
um dos indivíduos que o habita
Perante os espaços
vazios das fotografias, a mente é levada a criar, internamente, o
que a imagem não explicita. Isso significa refletir sobre como
flores artificiais podem compor o ambiente do acampamento de um
circo mambembe ou como um arco-íris e um caminhão combinam suas
cores com maestria numa estrada do Norte-Nordeste paulista.
Se as estradas têm o
citado azul Magritte como cor de toque, nas cenas urbanas, o
marrom, cor da terra e da apatia que atinge cidades sem futuro,
predomina. Muros, terra e tijolos se confundem perante amanheceres
e entardeceres amarelados e plúmbeos. O fim e o começo das
imagens oferece assim vácuos de horizontes infinitos, grávidos
de evocações.
Nesse universo de
cores, imagens e evocações pictóricas, não falta até um diálogo
literário. Comprovando o caráter universal das fotografias, um
dos referenciais de Velloso no universo sem fronteiras da palavra
provém de Sam Shepard, um artista americano profundamente ligado
à terra, à imensidão do espaço e a busca de um passado perdido
que pode levar ao nada.
Dramaturgo premiado e
ator ocasional, em textos como Buried Child (Criança enterrada),
Shepard comprova que a força do indivíduo provém de sua história,
da terra que o gerou e que o esconde e revela suas raízes.
Nascido em Ribeirão Preto, SP, em 1953, Velloso comprova, assim
como o escritor norte-americano, que a arte não se restringe a
espaços ou fronteiras.
As imagens do interior
de Paulo Velloso poderiam perfeitamente estar ambientadas em
outras latitudes e geográficas. Talvez isso ocorra porque o que
fala mais alto em suas fotografias é o existencialismo. Não se
trata, porém, de um filosofismo à Sartre, mas sim de indagações
imagéticas sobre o sentido da vida num mundo em que as forças do
céu, da terra e o potencial humano de criação se integram para
gerar perguntas e oferecer vazios como resposta.
Se, observando cada uma
das fotos, o germe da pergunta se multiplica, os clics de Velloso
pelo interior se justificam. As respostas podem esperar e talvez não
sejam jamais encontradas, pois uma das premissas existencialistas,
retomadas com viés artístico pelo fotográfico, são justamente
as indagações socráticas sobre de onde vem , o que é e para
onde vai o interior e, portanto, o ser humano.
O alerta do escritor
Marcus Accioly "Ver bem não é ver tudo, mas ver o que os
outros não vêem" poderia ser a epígrafe das imagens
captadas por Velloso. Não há em suas fotos a pieguice da lágrima
fácil ou a sedução da denúncia social , mas um trabalho estético
que leva a buscar as raízes que nos tornam humanos.
Se
o telencéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor,
segundo o cineasta Jorge Furtado, no premiado curta metragem
nacional Ilha das flores (1986), nos caracterizam enquanto seres
distintos dos outros animais, as fotos de Paulo Velloso desvelam
um terceiro item a nos colocar num estágio privilegiado dentro da
natureza: a densa e constante odisséia da busca do interior, seja
este geográfico, pessoal ou universal, tarefa acessível apenas
ao que concebem, como diz Hilda Hilst, que a arte provém do
"conflito entre a ordem que você quer e a desordem que você
tem".
Oscar D’Ambrosio é
jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).