Paula
Dip
Colagens da alma
“Ó China, sonho secreto/ que entre muralhas
guardamos”. Os versos do poeta Lêdo Ivo parecem ter sido
apreendidos em sua mais ampla concepção pela artista plástica
Paula Dip na exposição “Jiu”, exibida nos meses de junho e
julho de 2004, na Art Lofts, em São Paulo.
O nome provém do mandarim e significa “nove”, número
de grande importância simbólica, já que se trata da tríplice
multiplicação de uma tríade. Contempla assim, a imagem completa
de três mundos (subterrâneo, terreno e celestial) em suas três
dimensões (intelecto, matéria e espírito).
A poética instaurada no trabalho de Dip leva em conta
essas camadas conscientes e inconscientes por meio de uma técnica
mista que utiliza colagens e tinta acrílica dispostas sobre a
tela de forma a oferecer ao observador a sua visão da China. Isso
se dá não só pelas cores, muito influenciadas pela estética
oriental, principalmente nos amarelos e vermelhos, mas também
pela seleção das imagens dispostas nas telas.
O uso de figuras que aludem a elementos do taoísmo e
fotografias de flores e borboletas, além de cédulas bancárias,
instauram um universo mágico e estético regido pela interpretação
constante daquilo que a China é em sua essência: um caleidoscópio
de signos unidos por uma sabedoria milenar.
O nove, por ser o último número antes do retorno ao zero,
completa uma série e anuncia o início de uma nova. Quando
multiplicado, gera números que, ao terem seus elementos
individuais somados o repetem (18, 27, 36, 45...), o que lhe
valeu, na tradição hebréia, a caracterização do número da
verdade, pois nele estão caminhos que levam ao umbigo do ser, num
processo de auto-reflexão próprio dos xamãs e iniciados.
Número ligado à cura, o nove presente na obra de Dip
oferece a oportunidade do fruidor de cada trabalho exercitar, no mínimo,
três movimentos: sobre o trabalho plástico
da artista, sobre a China, enquanto uma das nações
culturalmente mais ricas do mundo e sobre a própria alma.
Ao
observar as três dimensões mencionadas nas esferas do corpo, da
mente e do espírito,o fruidor de cada trabalho terá a
oportunidade de realizar uma revisão da sua relação com as
artes plásticas, com a milenar sabedoria chinesa e com as mais
diferentes instâncias do ser.
Nesse
processo, as telas de Paula Dip acalmam ao mesmo tempo que geram
indagações e abrem fendas em nosso intelecto para que sejam
preenchidas pela nossa sensibilidade. Há, portanto, em sua
pintura, elementos taoístas, pois, assim como essa religião e
filosofia de vida chinesa, cada tela assinala caminhos rumo ao
absoluto.
A
solidariedade entre o homem e a natureza – princípio taoísta
por excelência – pode ser visto no amor que Dip revela pelas
plantas, presentes em diversos de seus trabalhos. Há neles uma
força que provém da concepção existencial e pictórica que
cria imagens de beleza delicada, que nos convidam à interação
visual e mental.
Paula
Dip dialoga com sutil sobriedade e densa profundidade com o poema
citado de Lêdo Ivo. Ela penetra no sonho que cada um tem da China
e de si mesmo. Desvenda assim segredos e derruba as muralhas da
consciência, oferecendo o encantamento de um trabalho de sóbrio
impacto visual e cuidadoso vislumbre espiritual.
A
artista estabelece uma poética de encantadora fruição estética,
feito com a naturalidade daquela arte que torna aparentemente fácil
aquilo a que se chega após anos de esforço. Suas colagens não são
das revistas chinesas que coleciona ou resultado da paixão pelo
país oriental e da sua filosofia, mas constituem pedaços da própria
alma, que aglutina com tinta acrílica, oferecendo-as para nosso
deleite e cuidadosa apreciação e reflexão.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de
Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando
a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de
Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora
Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).