por Oscar D'Ambrosio


 

 


Panorama da integração Brasil - Japão

 

O grande desafio da imigração está no desenvolvimento da percepção de que o recém-chegado e o habitante local, embora vivenciem diferenças, apresentam aspectos comuns a serem descobertos. Apenas o exercício constante da sensibilidade, da inteligência e da ética permite atingir essa visão.

A arte é um bom caminho, como comprova esta mostra, que conta com sete artistas homenageados, quatro convidados e cinco participantes selecionados pela coordenação na busca de distintas formas de combinar pensamentos que ligam brasileiros e japoneses. 

Dessa forma, Japão (em japonês, Nippon ou Nihon, que significa “origem do sol” ou “terra do sol nascente”) e Brasil dialogam poeticamente. Cristaliza-se na exposição coletiva uma relação que começou oficialmente com a chegada ao Brasil, em 18 de junho de 1908, no Porto de Santos, do Kasato Maru,  primeiro navio a desembarcar no país com imigrantes japoneses. Eram 165 famílias que foram trabalhar nos cafezais do oeste paulista.

Com essa motivação, Annemie Wilcke apresenta as fotografias nada óbvias a partir de carpas, peixes associados no Oriente à persistência, à coragem e ao sucesso. São imagens ligadas justamente à força de vontade e à capacidade de vencer desafios, essenciais para os imigrantes de qualquer nacionalidade

Fernando Araujo utiliza em suas abstrações conceito análogo de liberdade, concebendo a sua poética como uma ampla expressão de um sentimento de estar no mundo no qual a paixão visceral pela vida desempenha um papel essencial como forças que funcionam como matrizes a gerar interpretações sensíveis do mundo.

Janice Ito oferece a possibilidade de revisitar o modelo de construção visual da mente oriental, sempre em busca de uma elegância refinada e uma simplicidade que levem em conta a idéia de que tudo é transitório e que a tranqüilidade pode ser prazerosa. Depende do modo como é vivenciada e entendida por cada um.

Satie Kawaguchi trabalha com sua técnica as questões fundamentais que acompanham a imigração, ou seja, a procura por novos horizontes, a adaptação e a integração. Isso está presente inclusive na forma como resolve a sua relação plástica com o espaço e como se vale das cores para gerar atmosferas.

            Wânia Rodrigues traz para a exposição, em nanquim, o universo das gueixas, mulheres japonesas que estudam a tradição milenar da arte da sedução, dança e canto, e se caracterizam distintamente pelos trajes e maquiagem tradicionais. Também apresenta, em acrílico sobre lona, um trabalho sobre carpas, fechando o simbólico ciclo desse valente peixe iniciado por Annemie Wilcke.

            A síntese da exposição está justamente na busca pela configuração de um mundo de harmonia e serenidade. Mas não é apenas esse aspecto que se encontra nas obras reunidas. A mostra articula as dimensões do todo, do indivíduo e da transcendência que aproximam japoneses e brasileiros.

A arte, realizada com dedicação e talento pelos artistas homenageados, participantes e convidados, derruba distâncias e instaura um reino onde a plasticidade presente nos elementos constitutivos de cada trabalho prevalece sem cores de bandeiras, mas com a sinceridade da aliança entre o pensar, o sentir e o fazer contemporâneo.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 



 

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