Paisagens
e objetos: o cotidiano do olhar
Evandro
Angerami e Mauricio Parra têm em comum o refinado domínio da
pintura a óleo em bolo armênio sobre madeira e o fato de terem
como um de seus mestres o artista plástico Rubens Matuck. Há neles,
como mostra a exposição Paisagens
e objetos: o cotidiano do olhar, na Casa Caiada 35, em São Paulo,
SP, de 11 a 25 de novembro de 2006, a prática do exercício constante
que os leva a buscar um aperfeiçoamento gradual de uma obra para a
seguinte, num processo contínuo em que o grande beneficiado é o
observador.
Angerami
consegue passar para o seu trabalho, paisagens de várias dimensões, um
sentimento de silêncio reflexivo e respeitoso. Constrói, por meio de
recursos plásticos, uma criação que transmite um sentimento de vazio
existencial, que se preenche no momento em que o quadro é fruído,
revelando um amadurecimento visual e um domínio na conjugação de
diversas imagens.
As suas
telas atingem esse silêncio graças à habilidade de trabalhar com espaços
amplos, em que a terra e o céu se articulam de modo a combinar-se em
diferentes paisagens que estimulam o pensamento e propiciam a passagem
para uma nova dimensão.
O criador
paulista estabelece um reino de imagens de praias vazias de pessoas, nas
quais a areia dialoga com alguma vegetação e com o céu, muitas vezes
pontuado por estrelas que, em branco ou revelando o próprio fundo da
tela, criam atmosferas de observação e harmônico equilíbrio.
Sua busca
pela poética do silêncio recupera, em cada tela, o prazer de criar e
de estimular o espectador a se debruçar sobre os próprios valores,
questionando o que significam a arte e a vida. Há ali não só
qualidade, mas o lirismo daquilo que o artista consegue fazer com a sua
sensibilidade, aprimorada com o aprendizado de recursos técnicos.
Os
objetos de Mauricio Parra (plantas, conchas e um tríptico de martelos)
têm em comum a característica primordial de dar a elementos e formas
aparentemente desprovidos de valor artístico interpretações imagéticas
insuspeitadas, estabelecendo um mundo próprio e visceral em sua consistência
plástica.
Apaixonado
pelas técnicas de pintura, seus processos e suportes, ele tem hoje a
plena consciência de que o enfoque ético e artístico que se tem sobre
o ato de pintar é mais importante do que a temática. A conseqüência
desse processo é justamente a pintura de objetos do cotidiano, como os
que vemos nesta exposição.
Cada quadro
de Parra é um ícone, no sentido bizantino do termo, ou seja, um portal
para algo que está além daquilo que se vê. Isso ocorre com os objetos
que ele pinta, densas representações que nos alertam para a
precariedade das coisas e do mundo perante a passagem do tempo e a
certeza de que apenas a grande arte, realizada com sólidos princípios
éticos e técnicos, permanece.
Angerami e
Parra, com seus trabalhos, estimulam, no ato de contemplação, a
certeza de que a grande arte não precisa ser um grande espetáculo
visual de imagens em conflito, mas pode ser, como ocorre em ambos,
resultado de uma sincera busca da harmonia prazerosa do fazer e do
pensar no antes, durante e após o processo criativo.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes da Unesp, campus de São Paulo, integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).