por Oscar D'Ambrosio


 

 


Paisagens que fazem pensar

 

            Oscar D’Ambrosio

 

            Quando se pensa em paisagem, automaticamente se evoca uma pintura, gravura ou desenho cujo tema principal é a representação de um sítio natural, rural ou urbano. Muito mais do que isso, nas artes plásticas, as paisagens funcionam como um amplo caminho para experimentações técnicas.

            É exatamente isso que diferencia as paisagens do pintor Sergio Lucena. Paraibano radicado em São Paulo, suas pinturas são exercícios técnicos sem pedantismo. Algumas vezes, o fundo branco, em gesso, cria uma atmosfera quase mística e espiritual. Em outras ocasiões, o próprio fundo da tela de linho, aparente, é que faz o papel do fundo.

            Os dois recursos têm em comum o domínio de uma linguagem expressiva que coloca a paisagem no seu devido lugar. Assim como a natureza-morta, trata-se de um gênero de pintura em que o objeto pintado propriamente dito fica em segundo plano perante o processo de criação que permitiu que aquela imagem viesse à luz.

            Historicamente, a paisagem teve um papel importante na pintura decorativa das casas romanas. Esquecida por algum tempo, ela reaparece no século XVI, com paisagens de fundos de miniaturas (os Limbourg) e de painéis religiosos (Itália e Flandres). Patinir e Brueghel, o Velho, por exemplo, a trataram como gênero.

            No século seguinte, a paisagem histórica, com destaque para Claude Lorrain, e a realista, principalmente na Holanda, com Van Goyen, os Ruisdael, Hobbema e os Van de Velde, ganham relevância e, no século XVIII, surgem diversos mestres, como as vedute (“vistas”) de Canaletto e de Guardi, na Itália; Gainsborough, Cotman e Girtin, na Inglaterra.

            Constable e Turner, no século XIX, dão as cartas no Reino Unido e, na França, a Escola de Barbizon e os impressionistas realizam obras significativas, assim como o chamado paisagismo abstrato que, no pós-II Guerra, com Bissière, Bazaine, Manessier, Jean le Moal, Gustave Singier, Debré e Messagier, apresentava um lirismo de base abstrata, mas que tinha a natureza como ponto de partida.

            Essa pequena viagem pelo tempo auxilia a mergulhar nas paisagens de S´rrgio Lucena. Elas surgiram como uma resposta técnica ao desafio de que o trabalho com cores e formas fosse muito mais do que uma representação do real e se tornasse uma autêntica linguagem de pesquisa formal.

            As camadas de tinta e o trabalho cuidadoso, seja na pintura ou no acabamento, indicam um processo criativo que se torna tão ou mais importante que o resultado final. Se as paisagens podem ser vistas como portais para uma outra esfera da consciência são,  acima de tudo, uma motivação para pensar.

            Enquanto a civilização  pós-moderna nos convida para uma perigosa passividade, como no ato de assistir televisão ou o espetáculo dos reality shows, a pintura de Sérgio Lucena é um desafio ao pensamento não sobre o que é pintura, mas também sobre o próprio significado da vida.

            As telas do artista, assim como os espirais de Turner, apontam para um constante turbilhão de idéias sobre o significado de pintar paisagens no século XXI. Indicam, acima de tudo, que, para um artista comprometido com o seu tempo, independendo de qual ele seja, pintar uma paisagem pode ser uma forma prazerosa e complexa de questionar o mundo que nos cerca e que, talvez ingenuamente, chamamos de realidade.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov e Contando a arte de Cláudio Tozzi, da Editora Noovha América, e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

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