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Moacir
Soares de Faria
O
vislumbre
que
deslumbra
A magia da arte está em
ela sempre desafiar explicações fáceis. Isso se torna ainda mais
agudo quando o criador é uma pessoa como Moacir Soares de Faria,
pintor e desenhista que vive na Vila de São Jorge, no cerrado do
Estado de Goiás, próximo da Chapada dos Veadeiros.
Nascido
em
1954,
filho
de
Seu
Domingos
Farias,
antigo
garimpeiro
, e
Dona
Maria Apolinário, Moacir,
com
dificuldades
de
fala
,
certamente
por
ter
problemas
de
audição
, desenvolve
um
trabalho
plástico
visceral que é a
melhor
forma
que
encontrou
para
se
posicionar
no
mundo
.
Em
papéis,
paredes
internas da
casa
e
muros
externos
,
ele
constrói
um
universo
de
imagens
imaginárias
que
traz uma
mescla
do
isolamento
do
mundo
de
um
Ranchinho de Assis e da
fértil
imaginação
de
um
Waldomiro de
Deus
,
dois
artistas
de
quem
se aproxima (o
primeiro
,
pela
personalidade
; o
segundo
,
pela
arte
propriamente
dita
).
Autodidata
, trabalhou no
garimpo
,
nunca
freqüentou a
escola
. Desenvolveu a
sua
arte
inicialmente
no
chão
do
cerrado
,
em
pedras
e
troncos
. Passou
depois
para
o
papel
com
giz
de
cera
e começou a
chamar
a
atenção
de turistas
que
visitam a
região
, de
alguns
críticos
de
arte
e do
fotógrafo
e
cineasta
Walter
Carvalho
,
que
fez o
documentário
Moacir:
arte
bruta
,
em
2008.
O
que
mais
impressiona é a dualidade do
artista
entre
o
sagrado
e o
profano
.
Suas
obras
lidam
com
a
sexualidade
de uma
maneira
especial
.
Não
se
trata
apenas
de
trabalhar
o
nu
ou
as
relações
sexuais
. Existe
um
certo
pansexualismo no
sentido
de se verem,
por
exemplo
,
pessoas
mantendo
relações
sexuais
com
animais
.
Mas
não
existe
lascívia
. Há
sim
um
caminhar
pela
vida
permeado
por
ampla
riqueza
de
imagens
. Se há
mulheres
nuas, existem
também
as
figuras
sagradas,
como
Jesus
ou
santas,
com
coroas
sobre
a
cabeça
separadas
por
espaços
em
branco
,
algo
bem
presente
na
chamada
arte
primitivista
ou
naïf.
A
forma
de
desenhar
animais
como
sapos
ou
outros
seres
do
cerrado
é diferenciada.
Eles
aparecem mesclados
com
atributos
humanos
ou
em
conjuntos
que
se justapõem. A
fantasia
fala
muito
alto
, nas
mais
variadas
composições
.
Algumas
das imagens mais impressionantes são os demônios. Seja pela cor ou
pela presença de cauda, chifre ou orelhas tradicionalmente ligadas ao
diabo, constituem um patrimônio estético bem próprio. Muito mais do
que dar medo, divertem e encantam por ser uma manifestação genuína.
A
genitália
à
mostra
também
é
característica
, seja
em
pênis
ou
vulvas
,
tudo
dentro
de,
pelo
menos
, uma
lógica
bem
evidenciada: a do
prazer
de
criar
, de
desenhar
e de se
expressar
.
Tratar
Moacir
Soares
de Faria
apenas
como
Moacir
ou
rotulá-lo
como
arte
bruta
é uma
forma
de,
talvez
sem
perceber
,
diminuir
a
obra
que
ele
realiza. Merece
ser
identificado
pelo
nome
completo
como
artista
plástico
que
é – e a
sua
obra
,
independentemente
de qualificações de
personalidade
ou
comportamento
, tem
valor
autônomo
.
O
artista
goiano
apresenta
um
lirismo
peculiar
. Se há nele
elementos
próprios
dos
artistas
qualificados
como
portadores
de
necessidades
especiais
,
isso
se dilui
perante
uma
riqueza
imaginativa
prolífica
e
um
uso
de
cores
que
muitos
não
obtêm
mesmo
após
anos
de
estudo
.
Moacir
Soares de Faria é um artista raro. Como os cristais da região onde
ele mora, encanta pelo simples fato de existir. Seu talento está ali,
pronto. A prática constante e livre é a melhor forma de preservá-lo
sem escravizá-lo a mercado ou galerias. Sendo ele mesmo, vislumbra
novos seres e mundos – e deslumbra.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista e mestre
em Artes Visuais
pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional
de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).
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