por Oscar D'Ambrosio


 

 

 

 
 

 

Moacir Soares de Faria

 

            O vislumbre que deslumbra

           

            A magia da arte está em ela sempre desafiar explicações fáceis. Isso se torna ainda mais agudo quando o criador é uma pessoa como Moacir Soares de Faria, pintor e desenhista que vive na Vila de São Jorge, no cerrado do Estado de Goiás, próximo da Chapada dos Veadeiros.

Nascido em 1954, filho de Seu Domingos Farias, antigo garimpeiro , e Dona Maria Apolinário, Moacir, com dificuldades de fala , certamente por ter problemas de audição , desenvolve um trabalho plástico visceral que é a melhor forma que encontrou para se posicionar no mundo .

Em papéis, paredes internas da casa e muros externos , ele constrói um universo de imagens imaginárias que traz uma mescla do isolamento do mundo de um Ranchinho de Assis e da fértil imaginação de um Waldomiro de Deus , dois artistas de quem se aproxima (o primeiro , pela personalidade ; o segundo , pela arte propriamente dita ).

            Autodidata , trabalhou no garimpo , nunca freqüentou a escola . Desenvolveu a sua arte inicialmente no chão do cerrado , em pedras e troncos . Passou depois para o papel com giz de cera e começou a chamar a atenção de turistas que visitam a região , de alguns críticos de arte e do fotógrafo e cineasta Walter Carvalho , que fez o documentário Moacir: arte bruta , em 2008.

O que mais impressiona é a dualidade do artista entre o sagrado e o profano . Suas obras lidam com a sexualidade de uma maneira especial . Não se trata apenas de  trabalhar o nu ou as relações sexuais . Existe um certo pansexualismo no sentido de se verem, por exemplo , pessoas mantendo relações sexuais com animais .

Mas não existe lascívia . Há sim um caminhar pela vida permeado por ampla riqueza de imagens . Se há mulheres nuas, existem também as figuras sagradas, como Jesus ou santas, com coroas sobre a cabeça separadas por espaços em branco , algo bem presente na chamada arte primitivista ou naïf.

A forma de desenhar animais como sapos ou outros seres do cerrado é diferenciada. Eles aparecem mesclados com atributos humanos ou em conjuntos que se justapõem. A fantasia fala muito alto , nas mais variadas composições .

Algumas das imagens mais impressionantes são os demônios. Seja pela cor ou pela presença de cauda, chifre ou orelhas tradicionalmente ligadas ao diabo, constituem um patrimônio estético bem próprio. Muito mais do que dar medo, divertem e encantam por ser uma manifestação genuína.

            A genitália à mostra também é característica , seja em pênis ou vulvas , tudo dentro de, pelo menos , uma lógica bem evidenciada: a do prazer de criar , de desenhar e de se expressar .

            Tratar Moacir Soares de Faria apenas como Moacir ou rotulá-lo como arte bruta é uma forma de, talvez sem perceber , diminuir a obra que ele realiza. Merece ser identificado pelo nome completo como artista plástico que é – e a sua obra , independentemente de qualificações de personalidade ou comportamento , tem valor autônomo .

            O artista goiano apresenta um lirismo peculiar . Se há nele elementos próprios dos artistas qualificados como portadores de necessidades especiais , isso se dilui perante uma riqueza imaginativa prolífica e um uso de cores que muitos não obtêm mesmo após anos de estudo .

            Moacir Soares de Faria é um artista raro. Como os cristais da região onde ele mora, encanta pelo simples fato de existir. Seu talento está ali, pronto. A prática constante e livre é a melhor forma de preservá-lo sem escravizá-lo a mercado ou galerias. Sendo ele mesmo, vislumbra novos seres e mundos – e deslumbra.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

 

 

 

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