por Oscar D'Ambrosio


 

 


O vazio cheio de G. Fogaça

 

            O ano de 2008 ficará conhecido no Brasil como o do “vazio”. A Bienal Internacional de São Paulo, uma das principais do mundo, deixou um andar sem obras como forma de reflexão sobre os caminhos do próprio evento e da arte de modo geral, e o Salão de Arte Contemporânea de São Paulo teve em sua maioria selecionados que enfocavam o tema.

            O pintor G. Fogaça, ao expressar sua linguagem em cenas urbanas, de certa maneira, aborda a mesma questão. O seu vazio não é o da não existência das obras ou de uma discussão conceitual filosófica, mas a do vazio de comunicabilidade dos seres nas cidades.

            Com predominância da cor azul e de gamas de lilás, sobre a qual são aplicadas áreas manchadas de amarelo, verde ou laranja, constrói um universo muito peculiar. O citadino é o assunto, mas a discussão que se estabelece é a das pinceladas nervosas que retratam a atmosfera de um universo sem descanso.

            Ônibus, caminhões, pedestres, ciclistas e motos são as estrelas de uma constelação de prédios e ruas que se multiplicam em labirintos nos quais minotauros devoradores podem aparecer a qualquer esquina. O caos já se faz presente, mas isso não significa o fim dos tempos, mas sim a vivência de uma realidade complexa.

            Os edifícios e os cartazes criam barreiras visuais que impedem ver o horizonte. A cidade está limitada e cheia, mas essa plenitude de elementos e cores impede que as pessoas vejam umas às outras e estabeleçam um mínimo de contato. Cada um segue em paralelo o seu caminho.

            E o vazio se instaura justamente no momento em que não reconheço o outro como o meu semelhante, mas sim como um estranho. As personagens que Fogaça traz à tona em seus quadros são exatamente assim: seguem sua trajetória de maneira autônoma e, mesmo que estejam próximas fisicamente a alguém, sua essência é permanecer sós.

            Nesta nova série, várias imagens são aproximadas. Motociclistas e outros seres da selva da cidade são trazidos ao primeiro plano. Configura-se assim uma interpretação visual em que o fato de a tela estar plena de elementos não significa que ela esteja cheia, pois um de seus temas é exatamente o vazio de todos nós.

            Além da ausência de diálogo entre as pessoas que mal se olham, conjuntos de ciclistas, por exemplo, não formam uma comunidade, pois também não interagem. Estão apenas lado a lado, conquistando a selva urbana, marcada pelos congestionamentos.

            Paredes de prédios de concreto e vidro fecham possibilidades de ver o horizonte. Nesse mesmo ritmo de composição, os óculos dos pedestres se assemelham a monitores de televisão num processo que acentua o bizarro no mundo e a solidão de cada indivíduo, incapaz de ver melhor ao seu redor.

            Cartazes gigantescos, motoboys ampliados e pedestres buscando seu espaço acentuam um certo drama num universo em que o contraste entre claro e escuro ganha tensão, algo próprio de uma realidade visual repleta de contradições e insegurança, em meio ao trânsito caótico e ao desejo de todos de chegar cada vez mais rápido ao destino.

            Assim, G. Fogaça preenche o vazio das pessoas que habitam as cidades. Numa era em que a carência interior perante o excesso de informações exterior cria uma oposição constante, suas imagens, plenas de elementos, alertam que o maior vazio é o de não pensar criticamente  sobre a realidade que nos cerca.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

 



 

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