por Oscar D'Ambrosio


 

 

 

 
 

O tocador de pífaro, de Edouard Manet

 

1)      O universo da cor

Pintada em 1866 por Edouard Manet (1832-1883), esta tela tem uma história especial. Em 1867, ela foi recusada no Salão Oficial de Paris. Isso levou o romancista Émile Zola a escrever um artigo no periódico L’Événement defendendo a obra. No ano seguinte, o pintor  promoveu com seu próprio dinheiro uma exposição de seus trabalhos que fracassou. Com formas aparentemente simples, ausência de tons mais elevados e textura, o quadro desafiava a estética da época, na qual o impressionismo despontava.

 

2)      Aventuras existenciais

            Originário de uma família de posses, Manet tentou entrar na Escola Naval, mas foi reprovado nos exames de admissão. Em dezembro de 1848, embarcou no barco-escola Havre et Guadeloupe para o Brasil como simples marinheiro. Da viagem, ao que se sabe, restaram a repulsa ao escravismo e lembranças do exótico, das mulheres negras e da luminosidade da baia de Guanabara.

 

3)      A prática da cópia

Durante cerca de seis anos, Manet fez sistematicamente cópias de obras expostas no Louvre de Velazquez, Tintoretto e Delacroix. Viajou por museus de Itália, Holanda, Alemanha e Áustria, apaixonando-se pela Vênus de Urbino, de Ticiano. Baseado nela, fez a Olímpia. Pintada em 1863, mas apresentada ao público em 1865, causou fortes reações contrárias. A imagem da prostituta nua encarando o público contava ainda com um gato negro e quebrava as tradicionais noções de perspectiva.

 

4)      Recusa nos Salões

Manet tem uma longa história de recusas em salões de arte. A partir de 1863, com o nascimento do Salão dos Recusados para abrigar os que não entravam no Salão Oficial, ele expôs, na primeira edição, três obras. Entre elas, Almoço na relva, que causou escândalo pelo contraste entre os dois homens vestidos e uma mulher nua. No Salão Oficial de 1875, mostrou  Monet em seu barco estúdio, no ano seguinte, fez nova exposição particular, então com sucesso. Em 1881, Manet ganhou o direito de participar permanentemente do Salão Oficial sem julgamento prévio.

 

            5) Construção dos fundos

O tocador de pífaro mostra um jovem tocando esse instrumento, uma pequena flauta transversal que emite um som agudo. Originário da Europa medieval, é freqüentemente utilizado em bandas militares. Ao contrário dos pintores de sua época, Manet não gostava de temas impessoais ou alegóricos, preferindo traduzir a vida da época. Tecnicamente, fugia das convenções acadêmicas. Pela soltura de sua pintura, é considerado um dos fundadores da arte moderna. Nesta tela, por exemplo, não há imagens desenhadas ao fundo. Trata-se de um trabalho corajoso e muito criticado, mas que apontou direções importantes para as gerações seguintes.

 

6)      O gosto pelo cotidiano

Manet não aprovava os tons fortes utilizados na estética impressionista. Preferia os jogos de luz e de sombra. Seus nus não são idealizados, mas plenos de verdade. Os temas traduzem a vida da época, próximos do realismo e do naturalismo de escritores como Zola e Maupassant. Não se perdia em simbolismos, mas retratava com intensidade aquilo que via.

 

7)      A presença da música

A técnica de Manet escapava das convenções acadêmicas e também da forma de pintar dos impressionistas em ascensão. Amava os espanhóis do Século de Ouro, porém abria mão de segundas intenções. A música, por exemplo, surgia em si mesma. O menino músico integrante da banda valia por si mesmo, sem nenhuma complexidade de associações com a literatura. Por isso, muitos críticos o consideram um dos pais da arte moderna.

 

8) A pretensão construtiva

Em seus principais quadros, Almoço na relva ou Almoço no campo, Olímpia, A sacada, O tocador de pífaro e A execução de Maximiliano, Manet deixa claro que não está preocupado em seguir mesmices ou em gerar revoluções. Pinta aquilo que acredita e, nesse sentido, foi construindo uma carreira sólida e coerente sem se filiar às principais correntes da época: os acadêmicos e os impressionistas. Fez assim uma trajetória diferenciada, à parte dos modismos.

 

9)      A coragem do nu

A figura que gerou tanto escândalo de Almoço na relva era uma mescla de duas

mulheres que foram fundamentais: Suzanne Leenhoff, com quem se casou apenas após a morte do pai, que era contra essa relação, e Victorine Meurent, sua modelo preferida. O corpo da primeira e o rosto da segunda geraram uma combinação forte e misteriosa. Victorine foi a base de Olímpia e Suzanne, com quem Manet teve um filho que nunca reconheceu,  ficou eternizada em A ninfa surpresa (1861), A leitura (1865) e Suzanne Manet em seu piano (1867). Os nus, quando aparecem, não são idealizados, mas plenos de veracidade, ao gosto naturalista.

 

10)  A força da política

O quadro mais político de Manet é A execução de Maximiliano. Feito em 1867, traz toda uma indignação contra a brutal morte do Imperador Maximiliano de Habsburgo abandonado por Napoleão III no México e covardemente fuzilado com dois de seus seguidores. A tela demorou dois anos para ser feita e toma como base a célebre obra  Três de maio, de Goya, mas com um resultado bem diferente. O artista espanhol explora a luz e as proporções numa perspectiva simbólica, enquanto o mestre francês retrata o episódio com frieza, quase como uma documentação, bem ao gosto da estética realista.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

 

 

 

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