por Oscar D'Ambrosio


 

 


Os tridimensionais de CACosta

 

            Ao longo da história da arte, houve um gradual processo dos criadores não se conformarem com suportes. Assim, o universo bidimensional da tela, por exemplo, começou a ser visto como limitador e passaram a surgir pesquisas para colar elementos nela, em construções próximas a relevos. Houve ainda os que furaram a tela, desvendando as “raízes” do suporte.

            O artista plástico CACosta passa hoje por um processo semelhante em sua criação artística. As estruturas tridimensionais que realiza como estudos para suas pinturas bidimensionais são muito mais do que uma mera secção de planos de imagens. Indicam uma pesquisa que lhes dá uma nova conotação visual, peso e valor estético.

            A chave desse raciocínio está no ludismo conquistado pelo uso das transparências. A capacidade de sugerir e de gerar climas de mistério pelo potencial das imagens de revelar apenas parte de si mesmas, deixando ao observador o papel e o poder de completar aquilo que lhe é apresentado. Criador (artista), criatura (obra) e público (fruidor) interagem como pede o mundo interativo da arte contemporânea. 

            Ao contrário da arte fascista ou ligada ao socialismo russo, marcada por visões unilaterais, em que pouco resta ao público a não ser a passiva contemplação e aceitação de uma percepção de mundo, os tridimensionais de CACosta não se prestam ao totalitarismo. São uma visão das divindades do mundo afro marcada pelo talento de estar sempre se renovando, num contínuo processo de quebra de paradigmas interiores.

            Ao trabalhar com as nuances entre luz e sombra, CACosta se obriga a questionar saberes institucionalizados. Fragmentos de tecido interagem com tramas de varetas e bambu para gerar novos sentidos na construção de uma realidade plástica sustentada pela desconstrução de imagens consagradas e pela construção de interrogações visuais.

            Os atributos de figuras do candomblé, como espelho e machado, tornam-se importantes como formas de identificação dos seres mitológicos, mas, acima de tudo, são referenciais concretos para o desmanche das figuras e a progressiva imersão num universo em que o mais importante está na lírica instauração de climas poéticos.

            O grande exercício de CACosta está na conquista do espaço. Ao realizar sua pesquisa e não se ater ao bidimensional, reúne elementos para voltar para a tela com mais força. O conhecimento mais denso das possibilidades das secções o levará a retomar sua produção sobre superfícies lisas com vigor renovado. Enquanto isso, seus projetos tridimensionais constituem um conjunto digno de ser mostrado e discutido.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 



 

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