por Oscar D'Ambrosio


 

 


Os seres imaginários de Sergio Lucena

 

            Apoiado pela pesquisa de Margarita Guerrero, o escritor argentino Jorge Luis Borges publicou, em 1968, O livro dos seres imaginários. Ali descreve 116 assombrosos entes criados pela imaginação humana ao longo dos séculos, como dragão, fênix, centauro e sereias, entre outros, criando um universo em que o fascinante, o estranho, o admirável e o mágico se cruzam.

            Todos esses efeitos gerados pelo Bruxo da literatura encontram um correspondente pictórico na obra de Sergio Lucena. Dos seus pincéis e tintas, sai um trabalho em que seres imaginários, geralmente em fundos de tonalidade escura, ocupam a tela.

            Essas imagens brotam de, pelo menos, duas fontes. De um lado, das origens nordestinas do artista paraibano, com um contato profundo com o imaginário popular. De outro, das suas leituras e do seu conhecimento das mais variadas religiões e mitos, que incluem as mais diversas fontes.

            O grande risco da pintura de Lucena, no entanto, é que o observador se iluda com as imagens em si mesmas, avaliando aquilo que vê como escuro, assustador ou até mesmo mórbido. Quem assim pensa viu os monstros criados pelo artista, mas não o exercício de pintura existente em cada um deles.

            As figuras rebuscadas, por exemplo, evocam – até curiosamente – trabalhos realizados dentro da tradição moura, onde o adorno e o enfeite eram essenciais numa cultura religiosa em que retratar a imagem de Deus era proibido. Assim, ecos do rebuscamento estético de tapetes e outros objetos estão nos seres imaginários de Lucena.

            Assim, mitologias, religiões e metafísica se mesclam no artista paraibano. Ele soube criar suas próprias revelações a partir de sonhos de místicos e de poetas. Seus seres estabelecem uma fauna fantástica, em que os animais ganham personalidade. Com expressões humanas, evocam sábios que muito têm a ensinar.

A mitologia pessoal de Lucena cria uma viagem sem tempo e sem espaço. Introduz o observador na dimensão da imaginação, mas não na vertente pretensamente espontânea do surrealismo. O mundo do artista provém de suas entranhas enquanto criador atento ao entorno, principalmente em relação aos seres humanos, com suas vaidades e hipocrisias, mas também com sua sabedoria e infinito poder de criar.    

            Se as pinturas de Lucena evocam os célebres bestiários imaginários, parecem, porém, mais vinculados a releituras pessoais, plenas de uma simbologia ancestral e fruto do inconsciente coletivo, a seres como o Minotauro, o Centauro, a Esfinge, a ave Fênix e dragões.

            No prólogo de O livro dos seres imaginários, Borges e Margarita afirmam: "Um livro desta índole é necessariamente incompleto; cada nova edição é o núcleo de edições futuras, que podem multiplicar-se ao infinito". A analogia vale para a obra de Sergio Lucena, cujas figuras lidam com a ilimitada capacidade humana de transformar a realidade por intermédio da imagem. Assim sua obra desperta reações, de admiração, espanto, questionamento ou paixão. O importante, porém é que, acima de tudo, impede uma postura indiferente.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (Aica - Seção Brasil). É Mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Claudio Tozzi (Novhaa América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 
 

 

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