por Oscar D'Ambrosio


 

 


Os rostos de Gerchman

 

            A representação de rostos é um assunto clássico na história da pintura. Dos mais próximos ao real, na linha dos retratos naturalistas a algumas deformações mais contemporâneas, trata-se de uma das múltiplas maneiras do artista plástico exercitar seu fazer poético e estético.

            A exposição de Rubens Gerchman, na Renot Antiques, de 3 a 18 de agosto de 2006, em São Paulo, SP, ajuda a ver como o artista desenvolve essa temática. Um dos caminhos que utiliza é o de integrar, em diversos graus, os traços dos homens e mulheres retratados ao fundo quadro.

            Esse procedimento faz com que os seres que ali aparecem ganhem uma nova dimensão. Eles não estão inseridos no espaço. São o próprio espaço. Essa diferença não é uma sutil questão de retórica. Trata-se de uma postura que leva a imensas distâncias do realismo fotográfico e, principalmente, de uma nova figuração feita com técnica e sem emoção.

            Quando as figuras, geralmente um homem e uma mulher, se beijam, há, ali, muito mais do que um enlace romântico. Existe um abraço entre o pintor e a sua pintura, entre o artista e a sua técnica, entre o ser humano e o mundo. Os quadros que aparecem nesse processo não retratam apenas um momento de afeto, mas um instante épico em sua capacidade de transmitir um sopro de vida.

            Não me refiro ao beijo em si mesmo, mas a comunhão que o artista alcança no conjunto de seu trabalho. Mesmo quando há uma diferença de cor entre o rosto e o fundo, a pincelada – e não poderia ser diferente – uniformiza um sentimento de estar no mundo, que a cor cristaliza em diversas tonalidades.

            Assim, os personagens de Gerchman, falecido em 29 de janeiro de 2008, resistem à morte pelo ato de estarem juntos se beijando. Vê-se em seu trabalho a resposta de um criador a uma sociedade cada vez mais esfacelada. Se existe uma possibilidade de crítica explícita, na imagem e nas cores, há ainda um outro caminho: o da paixão.

            O sentimento atinge o nível do tangível em variações infinitas de um mesmo tema. É fácil ver os beijos e contemplar os rostos. O salto do observador está em encontrar neles novas dimensões, como a vitória contra o tempo. São seres a exigir nossa capacidade de desvendar mistérios.

            A expressividade dos beijos de Gerchman não está na posição dos rostos, na abertura da boca ou num franzir de sobrancelha. O que ele coloca é a nossa capacidade de resistir a um mundo tecnológico em que as pessoas são cada vez mais descartáveis e solitárias.

            O beijo em lilás, amarelo ou vermelho comporta distintas camadas de memórias afetivas de cada um. O mesmo acontece nas suas cenas de multidões. Os rostos agoniados, quando presentes, dizem mais pela cor do que pelo traço, mais pela forma como estão dispostos do que pelo conteúdo de um título, uma simbologia ou analogia simplista.

            Mesmo um trabalho em preto e branco com o tema do beijo, confirma a idéia de um pensamento mágico, quase mítico, no processo de cada tela. A obra que parece não ter cor é, de fato, a somatória de todas as cores. Esse paradoxo se explica porque a liberdade de trabalhar é o que mobiliza os rostos de Rubens Gerchman. Nesse movimento, eles encontram um ao outro. E celebram a vida.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pela UNESP e integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).

 

 

 



 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio