por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Os quatro pilares da Bienal

 

            O ensaísta mineiro Abgar Renault (1901-1995) disse que “Só existe uma arte irrecusavelmente importante: viver. Tudo mais é sucedâneo”. A frase ganha novas –  e mesmo inesperadas – conotações quando nos aproximamos dos quatro pilares conceituais da 27ª Bienal de São Paulo, que se realiza no Parque do Ibirapuera, de 7 de outubro a 17 de dezembro deste ano. Este texto busca fornecer elementos para conhecer melhor os paradigmas que nortearam a seleção dos participantes do evento. Assim, será mais prazeroso o mergulho nos corredores que abrigam os trabalhos dos 118 artistas representados.

            A curadora Lisette Lagnado, os quatro co-curadores, Adriano Pedrosa, Cristina Freire, José Roca e Rosa Martinez, e o curador convidado Jochen Volz tomaram como tema central o conceito “Como viver junto” e, para desenvolvê-lo, se apoiaram nos pensamentos paradigmáticos de Roland Barthes, Hélio Oiticica, Marcel Broodthaers e Gordon Matta-Clark.

            O tema central se estrutura em torno de uma das vertentes dos seminários do francês Roland Barthes (1915-1980) no Collège de France, realizados em 1976 e 1977, que deram origem ao tema da mostra. Em sua análise do tema, que inclui o estudo da convivência em sanatórios e claustros, o filósofo estudou sistemas para um viver-junto e um viver-só.

Estendendo o olhar para a sociedade, Barthes reflete sobre ritmos de vida diferentes, assim como o funcionamento da vida coletiva, com maior ou menor harmonia dependendo do caso, em espaços partilhados, com mais ou menos participação democrática.

Outra base conceitual é o “Programa Ambiental”, de Hélio Oiticica (1937-1980), que discute a passagem do museu para o mundo e a transformação do espectador da arte em participante. Ela chega à noção de “totalidade-obra”, em que lugares com trânsito público são destacados como campos de ação mais propícios ao artista do que o museu.

Surgem assim “apropriações ambientais” de locais como uma sala de bilhar ou um estádio de futebol, considerados próprios para discutir questões como ética, liberdade, moral, experiência social (revoluções), revolta individual (marginalidade) e crítica ao conformismo perante a arte, a sociedade e o mundo.

            O terceiro pilar, Marcel Broodthaers (1924-1976), cujo trabalho esteve na Bienal paulista de 1994, mas, naquele momento, sem despertar grande repercussão, gera numerosas perguntas sobre o significado da arte, o papel do artista e a função social dos museus. Em 1968, ele fundou o Museu de Arte Moderna, Departamento de Águias, recolhendo imagens desse animal nos mais diferentes cantos do planeta e questionando os limites entre arte e realidade, além do próprio conceito sobre o que mereceria estar num museu e por quê.

            Entre suas discussões estão o valor do pictórico, do simbólico e das iconografias e representações de caráter realista. O fato de o artista belga colocar nas peças de seu museu a etiqueta “Isto não é uma obra de arte”, posta junto aos trabalhos, é um eco do pensamento de René Magritte em seu célebre quadro: “Isto não é um cachimbo”.

            O quarto pilar é o arquiteto norte-americano Gordon Matta-Clark (1943-1978), que foi bastante influenciado por Oiticica na decisão de liderar o boicote à Bienal de São Paulo de 1971 devido ao regime militar instaurado por aqui. Filho de Roberto Matta, pintor surrealista chileno, Gordon viveu no bairro do Soho, em Nova York, numa atmosfera marcada pela Guerra do Vietnam, impopular entre os jovens, que viviam justamente um momento marcado pela busca da liberdade, expresso, por exemplo, pelo uso do anticoncepcional, na esfera sexual, e pelas drogas, na comportamental.

            Foi na região do Soho, repleta de depósitos vazios em função do abandono pela saída das empresas para fugir dos altos impostos, que alguns jovens criadores, como Mattaclark, começaram a tentar provar a si mesmos e ao mundo que eram artistas. Formaram autênticas coletivas, em que um participava da obra do outro livremente. A segunda região a ser ocupada artisticamente foi o Bronx, onde prédios abandonados começaram a sofrer intervenções num exercício de arqueologia urbana.

            Os quatro pilares têm como referenciais obrigatórios Marcel Duchamp (1887-1968) e René Magritte (1898-1967). O primeiro problematiza a questão daquilo que pode ou não ser chama de objeto artístico, enquanto o segundo se debruça sobre os limites da linguagem para expressar o mundo e os sentimentos perante ele.

            O questionamento está não só na forma de fazer, mas também na maneira de pensar, guardar e conceber aquilo que se chama de objeto artístico. Percorrendo a Bienal, pensando só na representação brasileira, artistas como Jarbas Lopes, Laura Lima, Marepe e Lucia Koch, dialogam, respectivamente, com Barthes, Oiticica, Broodthaers e Matta-Clark.

            De fato, os pilares da Bienal, na esteira do que dizia Renault, mostram que a grande arte está em viver, mas essa jornada se torna ainda mais interessante quando acrescida da reflexão sobre o que significa escrever, pintar ou esculpir – e qual o sentido de falar dessas criações e de discutir até que ponto elas merecem estar num evento da importância institucional que é a Bienal de São Paulo.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (AICA-Seção Brasil).

 

 



 

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