por Oscar D'Ambrosio


 

 


O sonho da arte

 

            Existe uma grande diferença entre o tempo no Oriente e no Ocidente. Na visão do taoísmo, na China, há uma compreensão da transitoriedade, do mutável e do lúdico que se faz presente na escrita e nos ideogramas. Valoriza-se o movimento, não o estático, pois o tempo é visto como algo que sempre existiu. Essa idéia não pressupõe um deus criador, como no Egito ou na Mesopotâmia – e, por conseqüência, de uma destruição anunciada –, mas um fluxo vivente, em que o conceito de mutação eterna predomina.

            Neste texto, serão destacadas, numa escolha assumidamente arbitrária e baseada na percepção pessoal, 25 obras de arte do século XVI ao XX que estariam destinadas a resistir ao poder derrisório e corrosivo do tempo. Para cada uma delas, será selecionada uma palavra-chave, compondo um mosaico de qualidades intrínsecas que podem levá-las a nunca serem esquecidas por artistas, críticos, curadores e público.

 

            SIMBOLOGIA

            A primeira delas é Santana, a Virgem e o menino, de Leonardo da Vinci, pintada entre 1508 e 1510. De fato, Leonardo é o homem que melhor representa o Renascimento italiano. Foi pintor, matemático, escultor, arquiteto, físico, engenheiro, botânico e músico, sendo que o “da Vinci” não é como muitos pensam um sobrenome mas uma relação ao lugar de origem de sua família, significando “vindo de Vinci”, na região da Toscana.

Leonardo era filho ilegítimo de um notário e provavelmente de uma camponesa. Um dos maiores gênios da história, pelo seu talento e criatividade, tinha uma invejável capacidade de projetar inovações, sendo, acima de tudo, um inventor. Em Santana, a Virgem e o menino aparecem quatro personagens: Ana está próxima a sua filha Maria, que fica perto do Menino Jesus, que brinca com um cordeiro.

É interessante observar como os olhares estabelecem uma diagonal do canto superior esquerdo para o inferior direito. Também merece destaque a simbologia deste painel feito sobre madeira, porque o menino Jesus está junto a um cordeiro, que, na liturgia católica, simboliza o próprio Jesus pela sua aceitação de ser sacrificado pelo bem da humanidade.

 

DRAMA

A mesma onipresença da religiosidade ocorre em O enterro do Conde Orgaz, de  El Greco, de 1588. Esta obra, uma das mais importantes da humanidade, ilustra uma lenda da cidade espanhola de Toledo. A estória conta que Santo Estevão, cujo martírio é representado na borda de sua própria capa, e Santo Agostinho desceram à Terra para levar o corpo do Conde Orgaz para o túmulo. Vestidos com sumptuosos hábitos eclesiásticos, eles não foram reconhecidos.

O céu se abriu então para receber a alma do Conde. O pintor coloca Cristo acima do nobre. Abaixo estão a Virgem e São João Baptista, que intercedem em favor da alma de Orgaz, delicadamente carregada por um anjo. Há um alongamento das figuras celestes, que surgem esguias e iluminadas.

Pintor, escultor e arquiteto grego que desenvolveu a maior parte da sua carreira na Espanha, El Greco assinava suas obras com o esse nome para ressaltar a sua origem. Seu estilo dramático foi considerado estranho por seus contemporâneos, mas encontrou grande apreciação no século XX.

Hoje é considerado um precursor do expressionismo e do cubismo, ao mesmo tempo em que sua personalidade e pinturas tornaram-se fonte de inspiração a poetas e escritores. Seu trabalho é tão individual que não é encaixado em nenhuma das escolas convencionais, já que une tradições bizantinas com a pintura ocidental.

 

INTENSIDADE

Igualmente único em sua arte é Caravaggio. Viveu em Roma, Nápoles, Malta e na Sicília. Geralmente identificado como um artista Barroco, estilo marcado pelo contraste entre claro e escuro e pelas sombras, era considerado enigmático e fascinante, mas também perigoso.

Em 1606, matou um jovem durante uma luta e fugiu de Roma com a cabeça a prêmio. Em Malta, em 1608, ele envolveu-se em outra luta e mais outra em Nápoles em 1609, possivelmente um atentado premeditado contra a sua vida por inimigos. Caravaggio tomava emprestada a imagem de pescadores, lavradores e prostitutas das ruas de Roma para retratar Maria e os apóstolos.

Em Davi com a cabeça de Golias, de 1605, Caravaggio mostra a imagem de Davi, no corpo de um adolescente, segurando a cabeça de Golias. As feições do gigante são consideradas um auto-retrato de Caravaggio. Há uma intensa dramaticidade, intensificada pela luz. Logo se destaca a forma como Davi olha para o inimigo, morto com uma pedra que atingiu Golias bem no meio da testa.

 

ATMOSFERA

            A agressividade existencial de Caravaggio encontra um correspondente plástico em William Turner. Chuva, vapor e velocidade: o grande caminho-de-ferro, de 1844, surgiu a partir de uma imagem de um trem atravessando uma  ponte. Pintor romântico, precursor do impressionismo, ele adorava criar atmosferas e estudava muito os efeitos da luz.

Chegou a fazer mais de 20 mil trabalhos, principalmente paisagens. O que gostava mesmo era de mostrar os fenômenos da natureza. Para passar para as telas a sensação de um trem em movimento, por exemplo, contam que ele se sentou de olhos fechados por 15 minutos embaixo de uma forte chuva. Conseguia entender assim os efeitos visuais e físicos que a água causava.

O que encanta na imagem de Turner é a mistura entre o vapor da fumaça da locomotiva e a atmosfera marrom. Seus quadros retratam um pouco o clima que o pintor inglês viveu: o da Revolução Industrial, na qual a máquina começava a ocupar o lugar do homem.  

 

CORAGEM

            Mas a visão do ser humano como centro das emoções ainda persistia. O tocador de pífaro, de Édouard Manet, de 1866, tem uma história especial. Em 1867, ela foi recusada no Salão Oficial de Paris. Isso levou o romancista Émile Zola a escrever um artigo defendendo o quadro.

A obra mostra um jovem tocando um pífaro. Esse instrumento é uma pequena flauta transversal que emite um som agudo. Originário da Europa medieval, é freqüentemente utilizado em bandas militares. Manet tem uma grande diferença dos pintores que lhe eram contemporâneos. Não gostava de temas impessoais ou alegóricos, preferindo traduzir a vida da época.

Tecnicamente, fugia das  convenções acadêmicas e influenciou o inicio do impressionismo. Pela soltura de sua pintura, é considerado um dos fundadores da arte moderna. O tocador de pífaro surge numa tela em que não há imagens desenhadas ao fundo. Trata-se de um trabalho corajoso e muito criticado, mas que apontou direções importantes para as gerações seguintes.

 

DELICADEZA

            Um contemporâneo também tinha a mesma fascinação pela figura humana. Edgar Degas nasceu e morreu em Paris. Foi gravurista, pintor e escultor. Embora seja muito conhecido pelas suas pinturas consideradas impressionistas, Degas não adotava as cores desse movimento. Misturava os estilos, somando elementos do seu momento histórico com a Renascença italiana e o Realismo francês. Adorava o cotidiano e pintou suas célebres bailarinas.

Em Mulher no banho, de 1886, ao ver a protagonista, é possível captar toda a atmosfera do interior de uma casa. Há uma enorme delicadeza e sutileza na obra. Ao ver o quadro, a sensação que temos é a que estamos ao lado da mulher, vivenciando a sua existência. Feita com a técnica do pastel, de grande dificuldade e beleza, o resultado encanta por mostrar como a cena mais simples pode gerar uma consecução de grande qualidade.

 

COR

            Uma tela bem mais forte é O Cristo amarelo, de Paul Gauguin, de 1889. Mostra um lado muito interessante de um pintor que não era cristão, mas simpático ao budismo. Além da Jesus pintado em amarelo, merece destaque a ambientação peculiar da cena.         

O ambiente é francês e as três mulheres próximas à cruz estão vestidas como camponesas do final do século XIX. Há muita ousadia e intensidade nas cores quentes, com predominância do amarelo e do vermelho. Vinculado ao pós-impressionismo, Gauguin viveu os primeiros sete anos de sua vida em Lima, no Peru.

Voltou para Paris, ingressou na marinha mercante e correu o mundo. Trabalhou em seguida numa corretora de valores, casou e teve cinco filhos. Aos 35 anos, após a quebra da Bolsa de Paris, tomou a decisão mais importante de sua vida: dedicar-se totalmente à pintura. Iniciou um percurso de viagens e boemia. Buscou captar a simplicidade da vida no campo com a aplicação arbitrária das cores e sem compromissos com a reprodução fiel do real.

É o que ocorre neste Cristo Amarelo. Em busca de novos temas, parte para o Taiti. Retorna à França e vai para as Ilhas Marquesas, onde faleceu de sífilis, deixando uma obra marcada pela representação simbólica da natureza, formas simplificadas e grandes campos de cores vivas e chapadas.

 

IMPACTO

            O mesmo encantamento pela cor se dá em O beijo, de Gustav Klimt. Pintado entre 1907 e 1908, é um dos mais famosos do artista, criador simbolista que recusava a tradição acadêmica. Buscava novas respostas visuais para as suas inquietações. A imagem mostra justamente um casal se beijando, a cor predominante é o dourado.

O quadro é considerado um auto-retrato do pintor com a sua amante. Porém, a sensualidade fica em segundo plano perante a forma como o pintor usa as cores. Klimt era um apaixonado por padronagens de tecidos e sabia muito bem como causar um grande impacto no espectador. Destaca-se a multiplicidade de cor e a maneira de instaurar um clima sensual em que a delicadeza do beijo se faz presente a cada instante pela repetição da cores e suas alternâncias.

           

            MOVIMENTO          

Vamos mergulhar agora em cinco obras de um divisor de águas da arte do começo do século XX que ainda hoje, mais de 40 anos após a sua morte, continuam a ser uma referência. Se, por um lado, abriu trilhas importantes; por outro, tornou-se desculpa para boa parte das bobagens que são feitas em nome da chamada arte conceitual.

            A pintura Nu descendo a escada número 2, feita em 1912, considerada uma fusão do Cubismo Analítico com o Futurismo é um marco de discussão. Somos levados, pelo título, a acreditar que a figura representa um corpo nu descendo uma escada. De fato, o artista elege um tema, ou seja, faz um recorte de vida, algo comum na tradição da pintura.

A novidade é que ele desenvolve esse movimento de uma forma inovadora para a época. Analisa a ação que esse corpo faz ao “descer a escada”. Revela esse fluxo. Pinta, portanto, todos os movimentos de quem desce uma escada, em seqüência, como a ação acontece, como se fosse um vídeo. Eterniza, assim, o efêmero.

           

            DESCONSTRUÇÃO

            Uma experiência mais radical é a obra Roda de bicicleta, de 1913, uma das mais representativas do dadaísmo na França. Trata-se de uma roda de bicicleta parafusada a um banco que desafiou as idéias tradicionalmente pré-concebidas sobre a definição de arte.

Apresentada com a intenção de desconstruir a idéia de obra de arte como algo precioso e intocável, este conjunto tira um objeto comum de seu cenário habitual para colocá-lo num contexto novo e incomum, inaugurando o conceito de ready-made, que influenciou inúmeros artistas. Desde então, objetos da vida cotidiana, aparentemente sem valor artístico, passaram a integrar o universo das galerias e museus.

 

DESCONTEXTUALIZAÇÃO

            O passo seguinte nesse processo questionador daquilo que vem a ser a arte é A Fonte, de 1917. Essa obra fez o nome de Duchamp repercutir por todo o mundo. Ao enviar o trabalho para ser julgado num concurso de arte promovido nos EUA, Duchamp, para esconder a sua identidade, colocou a assinatura R. Mutt. A escultura foi rejeitada pelo júri. Trata-se de um urinol comum, branco e esmaltado, comprado numa loja de construção.

É um gesto rebelde e questionador, mas, para muitos, existem nas formas do urinol uma semelhança com as curvas femininas, que receberiam a urina masculina, numa espécie de irônico cálice sagrado da vida. De qualquer modo, paralisa o tempo e, simultaneamente o coloca em corrida acelerada rumo a novos paradigmas, talvez nem sempre devidamente assimilados.

 

            INTERFERÊNCIA

A ironia prossegue em L.H.O.O.Q., de 1919. O trabalho é uma reprodução do célebre quadro da Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, acrescido de bigodes e cavanhaque. A interferência sobre essa obra critica um ideal de beleza do mundo ocidental.

A escolha não foi arbitrária. Havia um motivo pessoal. Antes de realizar este trabalho, o poeta Apollinaire, amigo de Duchamp, foi injustamente preso por se acreditar que estivesse envolvido no roubo da Mona Lisa e de algumas pequenas esculturas do Museu do Louvre. O nome do quadro significa, em português, “ela tem fogo no rabo”. Trata-se de uma forma agressiva e bem-humorada de levar a um questionamento de tudo aquilo que a Mona Lisa representa como modelo daquilo que pode e deve ser considerado exemplar.

 

            INCORPORAÇÃO

Para encerrar, esta indicação de caminhos percorridos pelo artista francês, está a sua obra prima: O grande vidro, também chamada de A noiva despida por seus celibatários. Realizada entre 1915 e 1923, é uma das mais importantes de Marcel Duchamp.

Trata-se de um vidro duplo de dois metros e setenta de altura por um metro e setenta de largura, dividido em duas partes. Na metade superior, a noiva flutua próxima a uma nuvem cinza, e, na inferior, concentra-se um grupo de celibatários próximos a um moinho de chocolate.

O grande vidro pertence ao Museu da Filadélfia e encontra-se coberto de rachaduras, devido a um acidente durante uma exposição. Na época, Duchamp observou o estrago calmamente, entendendo-o como uma incorporação à obra e declarou: “Gosto mais dele agora”. Anos mais tarde, fez uma restauração. Depois dessa obra, ele se dedicou principalmente a uma de suas paixões: o jogo de xadrez.

 

LIBERDADE

            Se a experimentação de Duchamp foi, como vimos, conceitual em relação ao que deve ou não ser mostrado num museu ou galeria de arte, visual e tecnicamente, o paradigma da mutação na arte do século XX foi Pablo Picasso, que criou milhares de trabalhos em pintura, escultura e cerâmica, usando todos os tipos de materiais. Nascido em Málaga, declarou que levou toda a sua vida para conquistar a liberdade de pintar como uma criança – e praticou isso intensamente.

Em Paul como arlequim, de 1924, Picasso mostra seu filho com três anos de idade. Ele pintou três quadros do filho e conservou todos com ele até a morte, em 1973. A obra foi deixada inacabada e isso lheum ar familiar, que apenas a cabeça e as mãos foram pintadas até o fim. As roupas, sem contorno, dão à imagem maior leveza.

O tema do arlequim, por sua vez, é uma constante na carreira do artista. O retrato é em tamanho natural, numa tela de 1,30 m de altura e transmite uma certa intimidade do público com o menino. Trata-se de um trabalho que mostra bem o período mais intimista do artista espanhol e a sua complexa relação com os familiares, marcada pelo amor e ódio dependendo a situação.

 

DENÚNCIA

            Paradigmático no Brasil, assim como Picasso é na Espanha, Cândido Portinari pintou Retirantes em 1944. A obra mostra uma família de imigrantes nordestinos que deixa a sua terra em busca de trabalho. Quando se olha o quadro, o marrom do solo e o azul do céu chamam a nossa atenção.

Esse tom é muito especial. é possível entender essas cores quando se visita o lugar onde ele nasceu, Brodósqui, perto de Ribeirão Preto. Olhando para a terra da região, você percebe que ele pintava justamente aquilo que via. Desenvolveu assim o talento de levar as cores de sua cidade natal para as telas. O quadro mostra pessoas mal vestidas, tristes e sofridas. Condena assim a migração, um mal que ainda persiste na sociedade brasileira.

 

DESMITIFICAÇÃO

            Críticas à sociedade e à arte não faltaram nos anos 1950. Monograma, feito entre 1955 e 1959, por Robert Rauschenberg, por exemplo, combina um bode empalhado com numerosos objetos. Pioneiro em associar arte e tecnologia de ponta, o artista era ligado ao expressionismo abstrato e a pop art.

Considerado um dos criadores de vanguarda da década de 50, realizou trabalhos com jornal amassado, garrafas de Coca-Cola, embalagens de produtos industrializados e pássaros empalhados para a criação de uma pintura em que o pigmento se mescla a esses objetos. O artista une a pintura à comunicação, retirando da arte qualquer aura sagrada. Ele dizia não confiar em idéias por preferir os materiais, que o colocariam, de fato, em contato com o desconhecido.

 

COERÊNCIA

            A vitória sobre o tempo também pode ocorrer por meio da coerência na sua utilização. Sem título, de 1959, de Yves Klein, ilustra uma pesquisa monocromática com o azul que levou o artista a patentear, no ano seguinte, o Azul Klein Internacional, cor jamais produzida comercialmente.

Esse azul intenso, porém, foi utilizado de diversas maneiras. Em paralelo às pinturas convencionais, ele usou modelos nuas cobertas com tinta azul que se moviam e imprimiam seu corpo sobre telas para formar imagens, tornando-se “pincéis vivos”. Klein denominou esse tipo de trabalho de Antropometria.

Em 1960, por exemplo, numa performance, uma platéia vestida a rigor observava as modelos usando o corpo como pincel enquanto um grupo de músicos executava A Sinfonia Monotônica, do próprio Klein, composta em 1949, que consistia de uma única nota.

 

QUESTIONAMENTO

            Se a densidade de uma idéia faz resistir ao tempo, Três estudos para uma crucificação, de 1962, de Francis Bacon, é exemplar. Suas imagens, grotescas e densas para alguns, são verdadeiras aulas de pintura. Seu trabalho é muitas vezes caracterizado como audaz, austero, e associado a pesadelos.

Irlandês, Bacon tratou com desenvoltura temas complexos, como o desmembramento do corpo, a dissecação forense e críticas à religião. Sua visão de mundo inclui estudos da representação pictórica de sangue, bílis, urina e esperma, marcada pela agonia  e pelo questionamento da existência.

 

IRONIA

No pólo oposto, está o bom humor e a ironia ao mundo contemporâneo de Andy Warhol. Ele coloca em xeque a reprodutibilidade das imagens e os ícones mundiais do universo pop. Cineasta, além de pintor, começou, nos anos 1960, a pintar produtos americanos famosos, como latas da sopa Campbell e Coca-Cola, ou ícones de popularidade, como Marilyn Monroe.

É também de sua autoria a célebre expressãoum dia, todos terão direito a 15 minutos de fama”, pronunciada ao comentar obras próprias baseadas em acidentes automobilísticos, em especial o de uma ambulância. Em Marilyn matizada de azul, de 1964, a imagem da atriz americana torna-se um ícone da arte pop a partir de uma figura da indústria cinematográfica criada por um astro da pop art, o próprio Andy.

 

DIÁLOGO

            Ser uma referência é também uma maneira também de se perpetuar. É o que ocorre com Pal-Ket, realizada entre 1973/74, por Victor Vasarely. Trata-se de uma obra de  referência obrigatória da chamada Arte ÓpticaPintor e escultor húngaro radicado na França, trabalhou como designer gráfico em várias empresas de publicidade. Certamente vem daí a importância que dá ao diálogo com o público.

Seus quadros combinam variações de círculos, quadrados e triângulos, por vezes com gradações de cores puras, para criar imagens abstratas e ondulantes. Para ele, o movimento não depende nem da obra de arte em si mesma, nem do tema específico que se pretende retratar, mas da apreensão do ato de olhar, considerado como o grande e único momento da criação. Entre seus objetivos, estava o de retratar, com suas imagens, o universo inatingível das galáxias, a pulsação dos astros e a mutação biológica das células.

 

AMBIENTALISMO

            A ousadia é outra maneira de não ser esquecido, vencendo a ditadura do tempo. A Casa Hundertwasser, transformada em Viena, Áustria, entre 1983/86, por Fritz Hundertwasser, Trata-se de um bloco de  apartamentos com pisos ondulados e árvores crescendo nos quartos.

Pintor, arquiteto e escultor austríaco, o artista é profundamente ligado ao ambientalismo. Isso é visível no desenho de fachadas, selos fictícios, bandeiras e roupas. Ele se caracteriza pelas cores brilhantes, formas orgânicas e a reconciliação das pessoas com a natureza.

O artista adorava espirais e chamava a linha reta de “ferramenta do demônio”. Seus projetos arquitetônicos incluem pisos ondulados, considerados “melodias para os pés”, tetos cobertos com terra e grama, e grandes árvores que nascem nos quartos, com galhos saindo pelas janelas.

 

SIMULTANEIDADE

            O inusitado e o tecnológico surgem ainda mais forte em Good Morning, Mr. Orwell, exibido em 1º/01/1984 por Nam June Paik. Ícone da videoarte, esse artista coreano ligou, por meio de satélite, ao vivo, Nova York, Paris e Seul, numa iniciativa inédita, realizada no ano presente no título do famosos romance que apresenta uma distopia em que todos seriam vigiados por um Grande Irmão onipresente e onisciente.

Participaram do programa, entre outros, o pintor Salvador Dalí, os músicos Peter Gabriel e Philip Glass, o poeta Allen Ginsberg e o compositor John Cage. Sua proposta era unir Oriente e Ocidente, tornando o mundo uma extensão da sua casa. Juntava assim todas as diferenças possíveis e imagináveis, num contraponto ao livro de Orwell.

 

            POLARIDADE

            Se a criatividade e o pensamento são elementos essenciais, a performance Eu Amo a América e a América me Ama, de 1974, de  Joseph Beuys, artista alemão considerado um dos mais influentes da segunda metade do século XX, é um motivo constante de reflexão.

Costuma-se dizer que a predominância de feltro e graxa na sua obra ocorre porque o avião que pilotava na Segunda Guerra foi alvejado e caiu durante uma missão na Criméia. Resgatado pelos tártaros, foi salvo ao ter sido recoberto por feltro e gordura. Não se sabe se essa história é verdadeira, mas agora ela faz parte do mito que cerca a figura de Beuys.

Na performance Eu Amo a América e a América me Ama, ele ficou por três dias sob um feltro em uma sala com um coiote, animal que é  considerado como um símbolo mágico por alguns povos indígenas norte-americanos. O contato que o artista estabeleceu com o animal leva a pensar sobre a invasão das terras indígenas e o extermínio dessas populações, assim como o célebre conceito de que a América é a “terra das oportunidades”. Para Beuys, “Libertar as pessoas é o objetivo da arte” e “a arte é a ciência da liberdade”.

 

ALERTA

            O último lema é uma constante em Lilith, realizada entre 1987 e 1989 pelo pintor e escultor alemão Anselm Kiefer. Trata-se de uma densa visão do mundo urbano inspirada pela visita do artista a São Paulo. Pintor e escultor alemão, ele utiliza materiais como palha, cinza, argila e chumbo pra lançar seu alerta contra a violência do mundo.

Seus trabalhos, muitas vezes feitos em grandes formatos, são caracterizados por um estilo que muitos julgam depressivo e destrutivo. Os suportes utilizados são a fotografia e a terra, mas outros materiais da natureza são incorporados. Ele também trabalha com escritos, personagens lendários ou lugares históricos.

Na obra Lilith, temos a visão terrível do caos urbano. Ela parece viver o apocalipse, pois o artista espalhou poeira e terra sobre a pintura. Há também fios de cobre e parte da superfície da tela foi queimada. É preciso lembrar que, para a mitologia hebraica, Lilith foi a primeira esposa de Adão e tinha um espírito sedutor e demoníaco. Na pintura, ela parece trazer a destruição pelo ar.

 

TÉCNICA

            E o poder da pintura, sob uma ótica mais tradicional, no sentido do uso de recursos e suportes mais conhecidos, pode ser visto em Supervisora de Benefícios dormindo, de 1995, de Lucien Freud. É uma das pinturas mais caras vendidas de artista vivo e revela amplo conhecimento técnico.

As imagens do neto de Sigmund Freud transmitem força, a intensidade e a singularidade humana. O pintor nascido na Alemanha, mas cidadão britânico, apresenta uma requintada ironia em relação ao modernismo, porque retorna à pintura figurativa, mas incorpora a transgressão do início do século XX.

Isso pode ser verificado pelo interesse formal e experimental em termos de proporção e perspectiva. Considerado um dos máximos contemporâneos da pintura figurativa, tem nos retratos a sua especialidade, freqüentemente pintando pessoas de suas relações.

Para ele, “o material subjetivo é autobiográfico e está totalmente ligado à esperança, lembranças, sensualidade e envolvimento”. Para completar, diz: “Pinto uma pessoa não pela sua aparência, mas por aquilo que ela é”. Eterniza dessa maneira um instante de sua percepção por meio da técnica.

           

            CONSIDERAÇÕES FINAIS

            As 25 características apresentadas não garantem, seja de maneira isolada, combinadas ou todas juntas, a perenidade de um trabalho. São apenas indicativos de características importantes quando se pensa em observar crítica e atentamente alguma obra ou quando se tem um conjunto de trabalhos a serem avaliados comparativamente.

            Acima de tudo, as obras escolhidas guardam em comum uma particularidade. São produtos do sonho de criadores que compartilham a mesma busca pela expressão de algo autêntico. É como se eles tivessem nascido, como todos nós, com um projeto estético na cabeça – muitas vezes adiado por motivos familiares, de educação formal ou pelas mais diversas atividades profissionais – e, em algum momento – ao contrário da maioria de nós – houvessem conseguido cristalizar esse impulso primordial por meio de expressões plásticas.

            O conjunto de trabalhos aqui selecionado é uma amostra desses sonhos. Sua concretização faz vencer o tempo. Cada um deles traz justamente um lado renovador ao olhar do observador. São demonstrações de que sempre estão se apresentando de maneira mais ou menos implícita de acordo com a ocasião. Não vencem o tempo, pois não se trata de uma luta contra ele, mas mergulham nele e ficam imersos, esperando o melhor momento de se manifestarem – o que ocorre quando um olhar atento os capta e os faz emergir com toda força.

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

ARNHEIM, R. Arte e percepção visual. São Paulo: Pioneira, 1998.

D’AMBROSIO, O. Os pincéis de Deus: vida e obra de do pintor naïf Waldomiro de

            Deus. São Paulo: Editora Unesp e Imprensa Oficial do  Estado de São Paulo,

1999.

HAUSER, A. A arte e a sociedade. Lisboa, Presença, 1984.

PEDROSA, M. Arte/forma e personalidade: 3 estudos. São Paulo: Kairós Livraria e

Editora, 1979.

RIBEIRO, C. Arte e resistência: Vincent Willem Van Gogh. Livre docência apresentada no Instituto de Artes da Unesp, câmpus de São Paulo. São Paulo, 2000.

 

 



 

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