por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Os kinematógrafos de Feres Khoury

 

            Imagine pinturas e desenhos em movimento. É isso que você vai ver na exposição Kinematógrafos, de Feres Khoury, na Fundação Stickel, em São Paulo, SP, de 12 de agosto a 6 de setembro de 2006. São rolos de papel de 10 metros de comprimento que você pode ir movendo com uma manivela.

Surge então um mundo fascinante de cores e formas. Sugestões de corações e órgãos dissecados à Leonardo da Vinci entremeados por universos de planetas e diversos textos bíblicos, de poetas e ensaístas. O título remete ao cinematógrafo inventado pelos irmãos Lumiére, em 1895, ao kinemacolor, processo inglês de cinema em cores, criado em 1907, e ao kinetograma, partitura onde se constrói uma anotação coreográfica.

O que se tem na mostra é justamente uma dança de cores e figuras, uma narrativa lírica e poética em que cada imagem maravilha por ser absoluta em seu poder de causar impacto pela cor e cativar pela habilidade do desenho. Cria-se então um ludismo ilimitado de situações visuais e de encantamento plástico.

Um dos universos mais ricos de Khoury é o de seus planetas, principalmente em vermelho e amarelo. Aparecem num processo de diluição sobre o papel e de mescla de cores que permite o encaminhamento conceitual de questões sobre se o universo está ou não em expansão.

Acima de tudo, coloca a questão imperiosa do significado da arte na sociedade contemporânea. Nesse aspecto, há também mesclas de figuras circulares com outras mais verticais. A presença de textos não só enriquece a visualidade das obras, mas, principalmente, permite ver os signos gráficos, independentemente do seu significado, como elementos da composição de cada rolo de papel.

Esses fragmentos de textos ligam uma imagem a outra e criam uma poética em que o ver e o ler se articulam, com rara felicidade, como duas facetas de uma mesma abordagem lírica, em que o ser no mundo ganha uma nova dimensão por ser colocado em xeque.

A figura humana, quando surge, está estilhaçada, manchada, destruída, mas presente em sua única grandiosidade: a da resistência. Khoury se vale dos materiais para criar efeitos que dizem respeito às nossas entranhas existenciais. Cria painéis que falam ao coração pela multiplicidade cromática, mas atingem o fígado em sua virulência expressiva.

Os rolos são produtos de um mundo interior intenso que se cristaliza com magnificência e nos alerta para a pequenez humana. São um alerta contra qualquer vaidade e um apelo visual à esperança de que o homem, em sua infinitude e fraqueza física perante as forças do universo e da natureza, possa, pela arte, gritar contra os dilemas da existência.

Para isso, é necessário conhecimento de materiais e a seriedade de saber que é no jogo plástico que o artista celebra a aventura de viver. Feres Khoury reúne as duas características, com mais um adendo: é ainda um gravador nato, cuja produção na área é uma referência obrigatória.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP e integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).

 
 



 

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