O
silêncio
que comunica
O
livro
Elogio ao
silêncio e
alguns
escritos
sobre
pintura (Bei
Comunicação, 2007), do
artista
plástico Sergio Fingermann, auxilia a
pensar
como a
prática e a
reflexão
sobre o
significado da
arte caminham
cada
vez
mais próximas.
Para
ele, “O
tema é
um
artifício”,
portanto, a
matriz do
fazer estaria na
discussão de
um
problema:
qual é o
lugar do
silêncio na
arte?
O
importante
não está
tanto naquilo
que se
pinta,
mas no
como
isso é
feito. Nesse
aspecto, Claudia de Toledo, Dani Noronha e Paula Ordonhes
se valem,
inicialmente, da
capacidade de
saber
observar
aquilo
que
para a
maioria pode
passar
despercebido. O
olhar
treinado
vê numa
parede
antiga, num
conjunto de
azulejos
ou numa
fonte
em uma
praça
ou
jardim
todo
um
universo
visual
que é ignorado
por
quem
não amadureceu a
arte de
ver.
Nessa
perspectiva,
não existe
acaso,
pois
saber
incorporar
acidentes
ou
imagens prontas na
natureza exige a
capacidade de
estar
apto a
observar
cada
acontecimento ao
redor. A
Mata
Atlântica,
para Claudia, o
interior da
casa,
para Dani, e
construções arquitetônicas e
elementos do
cotidiano,
para Paula,
pontos de
partida
tão
bons
como quaisquer
outros.
A
grande
questão do
grupo é a do
exercício do
ver. E,
como lembra Fingermann, o
verdadeiro
artista
fala
sempre do
ato de
criar
em
si
mesmo, no
seu
sentido
mais
profundo e, nesse
aspecto, a
imagem
visível, a
mais
abstrata
ou a
mais figurativa,
não é o
essencial.
Como ensinava o
arquiteto e historiador
francês André Félibien (1619-1695),
em O
sonho de Philomathe, a
arte do
desenho foi ensinada
pelo
Amor a uma
jovem,
que,
em
busca da “nobreza e
excelência”, foi estimulada a
observar as
sombras e as
luzes. Inicia-se
assim
um
processo de “enganar os
olhos”, “produzir falsas
aparências” e “jogar
com
ilusões e
enganar os
sentidos”.
A
grande
arte está
em
educar
olhos e
mãos
para
dominar o
uso da
cor e as
nuances dos
brancos e
negros,
além da
compreensão
profunda de
que
pintar
não é
reproduzir,
mas
reinventar.
Afinal,
qualquer verbalização
sobre a
obra
não pode
tirar a
atenção do
espectador das
imagens.
Ali estão os
traços,
texturas e
cores à
espera do
olhar do
observador.
Acima de
tudo, o
trabalho
plástico pode – e deve –
nos
obrigar a
refletir
sobre o
que
nós somos
capazes de
ver e
sentir
em
nós
mesmos. O
silêncio torna-se,
assim, uma
metáfora da
própria
arte.
O
poeta Arnaldo Antunes, ao
escrever “O
silêncio
que
ninguém ouviu foi a
primeira
coisa
que se viu”,
já alertava
que é
nos
grandes
vazios
que as
artes
visuais se realizam
em
sua
força
expressiva. Desse
modo, o
saber
fazer e o
pensar
sobre
aquilo
que se produz caminham
juntos.
O
sentido de
pintar
talvez esteja num
gradual procedimento de esvaziamento da
mente e de mergulho
em
si
mesmo, reduzindo o
ego,
que consome
muitos
artistas,
em
nome da
ampliação da
humildade e do
próprio
senso de
pequenez no
mundo.
Quando
isso ocorre, o
silêncio se
torna
sadiamente
ensurdecedor e a
arte ocupa
olhos e
mentes.
As
reflexões
que acompanham Claudia de Toledo,
com
suas nuanças de
lápis de
cor e
detalhes
em
nanquim; Dani Noronha,
em
suas
explorações do
espaço; e Paula Ordonhes,
com
sua
estética
limpa,
em recortes de
fachadas arquitetônicas
ou
imagens de
objetos
cotidianos,
como
calça
jeans,
são a de
um
raciocínio
sobre
por
que se sente
prazer
estético ao
produzir e ao
contemplar uma
obra de
arte.
Talvez a
melhor
resposta seja
verificar
como o
vazio
que preenche
nosso
espaço
interno e
externo constitui
um
silêncio
que propicia uma
intensa comunicabilidade.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP,
integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil). É autor de Contando a arte de Adélio Sarro (Editora Noovha
América).