por Oscar D'Ambrosio


 

 


osgemeos

 

            O desafio é o futuro    

 

            Para onde caminha a arte contemporânea? A pergunta ambiciosa e sem resposta precisa permite ver com maior liberdade o trabalho realizado pelos gêmeos Gustavo e Otávio Pandolfo na Galeria Fortes Villaça, em São Paulo, de 27 de julho a 16 de setembro de 2006. A sua originalidade não está apenas no fato de terem sua origem na arte de rua, como grafiteiros.

            Há outros elementos que não podem ser deixados de lado. É na apropriação de materiais que eles se diferenciam. O uso de lantejoulas, resina acrílica e flores de plástico demonstra sua preocupação permanente em aproveitar tudo quilo que está ao redor, seja do mundo da chamada arte erudita ou não.

Quando pintam seus rostos amarelos, sua marca registrada, em uma caixa de som ou violão, apontam para um dos dilemas do artista que deseja se expressar. Onde está o mais importante: no uso da técnica e na escolha do material ou no pensamento que fundamenta a obra?

A dupla que assina seu trabalho como osgemeos – assim mesmo, tudo junto e sem letra maiúscula – conseguem reunir esses elementos. Valem-se do spray, da tinta látex, de bolinhas de gude e de terra com a mesma desenvoltura, formando conjuntos dos mais diversos, que funcionam mais no universo da instalação do que nos trabalhos sobre painéis de madeira, que apresentam, porém, um interessante potencial a ser desenvolvido, se os irmãos mantiverem a ousadia.

Isso significa manter fidelidade com as origens. Não me refiro à cultura hip hop ou de rua, mas à própria história. Com um avô imigrante lituano adepto de guardar estruturas eletrônicas e mecânicas e um pai diretor de qualidade de  uma fábrica de brinquedos, que levava para casa os mais diversos tipos de objetos, que eram desmontados e remontados, com criatividade a toda prova, o desafio é não estagnar.

Valorizar osgemeos apenas pelo sucesso internacional na Alemanha, França e EUA perde de vista que o seu trabalho ultrapassa o grafite ou as imagens já consagradas de homens e mulheres de pele amarela, troncos largos e pernas e braços delgados, ignora que esse pode – e deve – ser apenas o ponto de partida para um domínio de espaços cada vez maiores.

A instalação “O peixe que comia estrelas cadentes” vale, acima de tudo, pelo potencial lúdico. Com a participação do irmão Arnaldo, técnico em eletromecânica na feitura, ela se basta por dois elementos essenciais: a cuidadosa construção do objeto, principalmente do personagem central, e a capacidade de idealizar uma peça com movimento, que poderia ser um frio robô, com uma poética dimensão humana.

Esses elementos apontam para o futuro da dupla paulistana do bairro do Cambuci. Eles precisam continuar a se divertir para que seu trabalho funcione. Isso inclui muita pesquisa de materiais – e um percurso que, especificamente na técnica da pintura, talvez seja mais árido e longe do escopo dos jovens criadores.

Após trabalharem em funilaria, restaurante, locadora, fábrica de picles e banco, o mundo da arte surge como o da libertação, regido por um fazer livre. No entanto, pode estar ali uma nova prisão: aquela que impõe aos artistas formas fixas que não podem ser alteradas e marcas registradas para consumo.

Gustavo e Otavio têm talento e poder para escapar dessa armadilha se mantiverem a capacidade de surpreender. Isso significa aperfeiçoar as competências que tem, adquiridas na rua, e buscar novas. Também quer dizer não se deixar engolir por um dos símbolos que mais utilizam em suas criações, penas e desenhos que aludem ao pavão, símbolo, desde a Antigüidade grega da vaidade.

Se escaparem dela nestes anos iniciais de sucesso, osgemeos podem não só conquistar um lugar no cenário mundial da arte – o que pode não ser tão difícil –, mas reúnem as condições para permanecer nele, tarefa bem mais complexa e que exige a humildade de se manter sempre como aprendiz do mundo, da arte e de si mesmo – o que, para estes artistas, significa um harmonioso esforço duplo.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP e integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).

 

 

 

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spray, tinta latex, lentejoula, transfer e pólvora queimada sobre madeira 200 x 160 x 11 cm 2006

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