por Oscar D'Ambrosio


 

 
 


OS DOZE TEMAS CLÁSSICOS

 

Oscar D’Ambrosio[1]

 

O poder, a morte, as transformações do homem, a busca do conhecimento, a guerra, o fazer artístico, a justiça, a mulher, o lar, o casamento, a relação pais/filhos e o amor. Estes são os doze temas básicos que preocupam o homem desde as primeiras manifestações artísticas.

 

Basta verificar que os assuntos mencionados estão presentes em uma das mais antigas expressões organizadas dos fenômenos arquetípicos humanos: a mitologia grega. O panteão original clássico comporta exatamente doze divindades: seis homens e seis mulheres. Posteriormente, outros personagens míticos alcançaram o status divino (Hermes, Dioniso e Hércules, por exemplo).

 

É nessa perspectiva que surgem mestres da literatura ocidental, relacionados com uma das mais tradicionais representações da cultura ocidental, a mitologia grega, com seus 12 deuses primordiais, que serão vinculados a igual número de temas e de artistas da palavra de reconhecido talento. Para completar, associaremos a cada escritor uma obra de sua autoria, exemplificando-se sempre com a abertura da mesma, tomada como paradigma da visão do autor sobre determinado tema.

 

O PODER

 

Comecemos por Zeus (Júpiter, para os romanos). Deus supremo da mitologia grega, ele representa o poder. Divindade da terra e do céu, reina no Monte Olimpo, ameaçando os mortais com seus terríveis raios. Sua autoridade é indiscutível e manipula aos outros deuses e aos seres humanos como se fossem peças de um tabuleiro de xadrez.

 

O romancista, contista e jornalista norte-americano, Ernest Hemingway (1898-1961) ilustra bem esse tema. Sua experiência jornalística na Primeira Guerra Mundial auxiliou-o a desenvolver um estilo direto, sem floreios. Seus heróis são indivíduos viris, em geral, vivendo as asperezas da guerra ou em conflito com a natureza e seus semelhantes. Revela ainda fascinação pela vida ao ar livre e por atividades vigorosas e permeadas de capacidade de destruição, como o boxe, as touradas e caçadas de animais selvagens.

 

Tomemos como exemplo O sol também se levanta (1926), que nasceu de um acontecimento que o próprio escritor viveu na Espanha, quando viajou a Pamplona para participar das tradicionais festas locais, que incluem procissões, danças, missas e touradas. Na tradicional corrida de touros pelas ruas, saiu ferido. A partir desse fato, escreveu o romance, que tem como personagens alguns americanos exilados em Paris e que se dirigem a Pamplona em busca de emoções fortes. No seguinte trecho, a manifestação do poder é evidente na descrição do personagem Robert Cohn:

 

“Robert Cohn fora campeão de boxe na categoria dos pesos médios em Princeton. Não pensem que esse título me impressione. Mas significava muito para Cohn. Ele dava pouca importância ao boxe, que, de fato, desagradava-lhe, mas aprendera-o com esforço, apenas para contrabalançar o complexo de inferioridade e a timidez que sentira, porque o tratavam como judeu em Princeton. Sentia uma satisfação íntima em saber que poderia derrubar a quem quer que o provocasse. Mas, sendo muito tímido e ótimo rapaz, nunca travava luta fora do ginásio. Robert era um astro entre os discípulos de Spider Kelly. Este ensinava seus jovens alunos a lutarem como pesos leves, quer pesassem 48 ou 93 kg. No caso de Robert Cohn, o sistema pareceu dar resultado. O rapaz era realmente ligeiro, e tão bom que Spider não tardou em fazê-lo medir-se com gente mais forte do que ele. Seu nariz ficou irremediavelmente achatado, o que contribuiu para a aversão de Cohn pelo boxe, mas produziu-lhe uma satisfação estranha, e isso, sem dúvida, melhorou o seu nariz. Durante o último ano em Princeton, Robert lera demais e passou a usar óculos. Nunca encontrei um só de seus colegas que se lembrasse dele, ou de que tivesse sido campeão de boxe.”

 

A MORTE

 

Passemos a Hades (Plutão), deus das profundezas subterrâneas que reina sobre os mortos. Finda a vida, as almas eram julgadas de acordo com o que haviam feito, sendo lançadas ao Tártaro, enviados aos Campos Elíseos ou à Ilha dos Bem-Aventurados. Assustadora para alguns, libertadora para outros, a morte tem muitas facetas.

 

É o que mostra a obra do dramaturgo e romancista irlandês Samuel Beckett (1905-1989), que escreveu a maior parte de sua obra em francês, tendo por temas a rotina, o tédio e o sofrimento. Profundamente niilista, criou um universo de personagens aleijados, paralíticos, moribundos, representando a humanidade no limite máximo da carência e da penúria, numa atmosfera de desespero metafísico, marcado por seres mergulhados na solidão e na incomunicabilidade. Frases simples, curtas, banais, aparentemente não elaboradas retratam o vazio da existência.

 

Um texto modelar é Malone morre (1952), que integra uma trilogia com Molloy e O inominável. O protagonista é um velho nonagenário, morrendo num quarto de hospital ou asilo. Parece uma larva que apenas pode pensar. Espera o dia da partida final, ruminando sobre o passado, o presente e o futuro: 

 

“Logo enfim vou estar bem morto apesar de tudo. Talvez mês que vem. Vai ser abril ou maio. O ano ainda é uma criança, mil sinaizinhos me dizem. Quem sabe esteja errado, quem sabe consigo chegar até o dia da festa de São João Batista ou até mesmo o 14 de julho, festa da liberdade. Qual o quê, sou bem capaz de durar até a Transfiguração, me conheço bem, ou até a Assunção. Mas não acredito, não acho que estou errado em dizer que estas festas vão ter que passar sem mim, este ano. Tive essa sensação, faz dias que venho tendo, e acredito nela. Mas em que difere daquelas que fazem de mim gato e sapato desde que me conheço por gente? Não, esse é o tipo de armadilha em que não caio mais, meu desejo pitoresco passou. Podia morrer hoje, se quisesse, apenas fazendo um pequeno esforço, se eu pudesse querer, se eu pudesse fazer um esforço. Mas não me custa nada me deixar morrer, quietinho, sem precipitar as coisas. Alguma coisa deve ter mudado. Não vou forçar nenhum dos pratos da balança, nem para cá, nem para lá. Vou ser neutro e inerte.”

 

 

AS TRANSFORMAÇÕES DO SER HUMANO

 

Na Grécia, Posídon (Netuno) domina os mares e tem o poder de provocar terremotos e controlar as águas, fazendo-as brotar das profundezas do solo do mar. Ao reger o fluir das marés, torna-se o deus regulador das constantes transformações da natureza, do ser humano e da eterna mutabilidade do existir.

 

Escritor tcheco de língua alemã, Franz Kafka (1883-1924) criou personagens que, repentinamente, transformam-se e passam a viver situações de pesadelo, das quais não conseguem se livrar. Expressam, portanto, a angústia do homem diante do nada, da morte e do absurdo da existência. Seus pontos centrais são a denúncia da desumanização do homem pela burocracia, o peso das convenções e a realidade cotidiana transformada num pesadelo.

 

Em A metamorfose (1916), o protagonista Gregor Samsa passa justamente a viver um pesadelo do qual não consegue acordar. Para piorar, aqueles que o rodeiam não conseguem compreender as mudanças e as necessidades de um ser que se transformou num inseto, mas que continua com uma riquíssima vida interior.

 

“Quando certa manhã Gregor Samsa despertou, depois de um sono intranqüilo, achou-se em sua cama convertido em um monstruoso inseto. Estava deitado sobre a dura carapaça de suas costas, e ao erguer um pouco a cabeça viu a figura convexa de seu ventre escuro, sulcado por pronunciadas ondulações, em cuja proeminência a colcha mal podia agüentar, pois estava visivelmente a ponto de escorregar até o solo, Inúmeras patas, lamentavelmente esquálidas em comparação com a grossura comum de suas pernas, ofereciam a seus olhos o espetáculo de uma agitação sem consistência.

--  Que me aconteceu?”

 

 

A BUSCA DO CONHECIMENTO

 

O divino Apolo (Febo) representa o sol, fonte de luz e de vida, a beleza masculina e o poder de purificar os que cometeram algum crime. É ainda o deus da música, da poesia e o padroeiro das artes. Carrega consigo a luz divina que permite desvendar os mais complexos mistérios da existência.

 

É a jornada da busca desses caminhos que caracteriza a obra do escritor J. M. Coetzee (1940). Nascido na Cidade do Cabo, África do Sul, estudou em seu país e nos EUA e penetra na alma humana ao construir alegorias entre opressores e oprimidos. Sua maior preocupação está em mergulhar na capacidade humana de oferecer respostas para algumas das principais indagações que atingem o seu país, principalmente no que diz respeito aos preconceitos, sejam eles de raça, econômicos ou culturais.

 

À espera dos bárbaros (1980) se passa num posto avançado de um fictício império. Um velho magistrado defronta-se com uma nova situação: a chegada de especialistas em interrogatório que passam a submeter homens, mulheres e crianças a impiedosas torturas. O personagem vive então o dilema entre a lealdade ao governo que representa e a compaixão pelas vítimas. Mergulha num drama entre a obediência ao cruel regime autoritário e a dignidade humana. Os óculos dos interrogadores são exatamente a metáfora desse jogo entre aquilo que realmente se vê e o que muitos consideram que deve ser visto:

 

“Nunca vi nada assim: dois pequeninos discos de vidro, com aros de arame, suspensos diante dos olhos. Será que é cego? Poderia compreender se estivesse querendo esconder os olhos cegos. Mas não é o caso. Os discos são escuros, parecem opacos do lado de fora, contudo consegue enxergar através deles. Diz que se trata de uma nova invenção.”

 

 

A GUERRA

 

Ares (Marte) é o deus da guerra. Não só representa o conflito violento entre os seres humanos, mas é considerado um dos principais paradigmas do amante masculino. Ao ter um relacionamento amoroso com Afrodite (Vênus), esposa de Hefesto (Vulcano), é descoberto e, com uma rede, preso no leito da deusa do amor. A humilhação é enorme e o castigo consiste em deixar o Monte Olimpo e viver, por algum tempo, como pastor na Trácia.

 

O escritor francês Alexandre Dumas (1802-1870), auxiliado por numerosos colaboradores, deixou cerca de 300 obras, nas quais muitos personagens passam por situações de conflito, às vezes portando capa e espada. Um dos mais populares escritores de sua época, com um texto repleto de verve e de vida, morreu arruinado, após dilapidar a sua fortuna.

 

Os três mosqueteiros (1844) é um ótimo exemplo do poder narrativo de Dumas. Tem como protagonistas os mencionados Athos, Porthos e Aramis, que se juntam ao cadete da Gasconha, d’Artagnan, aliando-se a favor da rainha Ana da Áustria contra o poderoso cardeal Richelieau. Cada protagonista tem características próprias: d’Artagnan, a ousadia; Athos, a coragem; Aramis, a sedução; e Porthos, a alegria. Elas são colocadas em xeque perante um mundo em ebulição, onde qualquer desavença é motivo para um duelo e o menor conflito pode gerar uma guerra:

 

“Na primeira segunda-feira de abril de 1625, a cidade de Meung, onde nasceu o autor do Romance da Rosa, parecia viver uma revolução. Era como se os huguenotes a tivessem transformado numa segunda La Rochelle. Muitos homens, vendo que as mulheres fugiam para a rua principal, e ouvindo gritar as crianças na soleira das portas, apressavam-se em vestir a armadura de peito e, reforçando a falta de coragem com um mosquete ou um companheiro, dirigiam-se para a hospedaria de Franc Meunier, diante da qual uma multidão barulhenta e curiosa aumentava a cada instante.

Naquele tempo os sustos eram freqüentes, e poucos dias se passavam sem que alguma cidade registrasse um evento do gênero. Os nobres guerreavam uns com os outros; o rei fazia guerra ao cardeal; o espanhol fazia guerra ao rei. Além dessas guerras, disfarçadas ou públicas, havia também os ladrões, os mendigos , os huguenotes, os lobos e os lacaios, que faziam guerra a todo mundo. Os burgueses armavam-se contra os ladrões, os lobos, os lacaios; muitas vezes contra os nobres e os huguenotes; às vezes contra o cardeal e o espanhol.”

 

 

O FAZER ARTÍSTICO

 

Deus do fogo, ferreiro celeste e protetor dos artesãos, Hefesto era feio e coxo. Mesmo assim, casou-se com Afrodite. O simbolismo é claro: a mais bela das deusas não resistiu ao grande poder de Hefesto: ligar, religar e desligar metais, objetos, sentimentos e desejos. Trabalhador, ele maneja seus instrumentos com habilidade, sofrendo e suando para fabricar espadas e escudos para diversos heróis.

 

A analogia entre Hefesto e os artistas é fascinante. Ambos têm o poder demiúrgico, construindo, por meio do próprio esforço, armas que auxiliam os humanos a enfrentar e realizar tarefas aparentemente impossíveis. É o caso do carioca Machado de Assis (1839-1908), mestre da metalinguagem –  a reflexão sobre o ato de narrar – e um dos maiores nomes da literatura em língua portuguesa. Finda uma primeira fase de poemas e romances românticos, aos 40 anos, iniciou um segundo momento, marcado pelo pessimismo, desencanto, amargura, sarcasmo e ceticismo.

 

Assim ocorre com Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), um marco na carreira de Machado. O narrador fictício Brás Cubas evoca e repensa, do além túmulo, sem ilusões nem respeitos, a existência oca de um celibatário rico, contando a sua vida, os seus amores e ambições. Obra-prima do realismo psicológico, é uma autêntica aula sobre o próprio ato de escrever:

 

“Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que não sou propriamente um ator defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.”

 

 

 

 

 

 

 

 

A JUSTIÇA

 

Inteligência, paz, arte e justiça encontram a sua expressão em Atená (Minerva), divindade ligada à razão. Nascida da cabeça de Zeus, concedia o espírito profético, podia prolongar a vida dos mortais e protegia os sábios, além de ter inventado a escrita, a pintura e o bordado.

 

A busca de justiça social foi justamente um dos motivos da vida e da obra do  escritor inglês Henry Fielding (1707-1754). Autor de comédias, farsas e paródias de costumes de seu tempo, foi obrigado pelo governo a abandonar o teatro  e se dedicar ao jornalismo. Satírico em boa parte de sua obra, tem em Tom Jones (1749), um romance realista, a sua obra mais célebre.

 

O livro é precisamente um dos maiores expoentes da tradição picaresca e também o primeiro romance moderno da literatura inglesa. Alegremente licencioso e crítico em relação às desigualdades sociais do século XVIII, conta as peripécias de um rejeitado em torno de quem é tecida uma comédia em busca da paternidade desconhecida. No trecho inicial, há uma interessante reflexão sobre a quem deve escrever o artista e como é justo que isso se faça para atender a demanda, ou seja, o leitor:

 

“Um autor deve considerar-se não como um cavalheiro que oferece um banquete particular ou uma caridade, senão como quem dirige uma casa pública de refeições, na qual são bem-vindas todas as pessoas em troca do seu dinheiro. No primeiro caso, é sabido que o anfitrião proporciona as iguarias que bem entende; as quais embora indiferentes ou absolutamente desagradáveis ao paladar dos convivas, não podem ser criticadas; antes, pelo contrário, a boa educação obriga-os, exteriormente, a aprovar e elogiar o que quer que lhes seja colocado pela frente. Ora, o contrário sucede ao dono de uma casa de refeições. Os homens que pagam o que comem insistirão em satisfazer o seu paladar, por mais delicado e fantástico que seja; e, se alguma coisa lhes for desagradável, reivindicarão o direito de censurar, insultar e livremente maldizer o seu almoço”.

 

 

 

A MULHER

 

Virgem, vigorosa e destemida, Ártemis (Diana) é protetora dos nascimentos e da caça. Está ainda vinculada à lua (trevas, inconsciência), enquanto o seu irmão Apolo liga-se ao sol (luz, consciência). Insensível às inclinações sexuais, era chamada “a casta”, dedicando a sua vida à proteção da natureza, dos animais, das célebres amazonas e dos bosques.

 

Iniciador do naturalismo nos EUA, o romancista norte-americano Theodore Dreiser (1871-1945), proporcionou uma visão crua e realista da sociedade norte-americana e das forças que dominam o destino do ser humano, principalmente a mulher. Utilizou, para isso, em uma de suas obras mais famosas, Carolina  (1901), a história de uma mulher, vista como capaz de tudo para ascender e levar seu companheiro à ruína.

 

No romance, a protagonista, disposta a vencer na vida, deixa a sua pequena cidade natal e vai para Chicago, onde conquista o coração de George Hurtswood, homem casado e bem-sucedido. Por ela, George abandona família, rouba e foge para Nova York, onde acaba por se tornar um mendigo. Ao mostrar, em bem construído paralelismo, a queda de um personagem e a ascensão de outro, o autor traça um crítico e cruel retrato da sociedade americana do final do século XIX, começando o livro com um perfeito e sucinto retrato feminino:

 

“Quando Carolina Meeber tomou o trem da tarde para Chicago, toda a sua bagagem consistia em uma pequena mala, uma pasta de imitação barata de pele de jacaré, um ligeiro lanche numa caixa de papel e uma bolsa amarela, de couro, que continha sua passagem, uma tira de papel com o endereço da irmã, à rua West Van Buren, e quatro dólares. Foi em agosto de 1889. Tinha dezoito anos de idade, era viva, tímida, cheia de ilusões da juventude e da ignorância.”

 

 

O LAR

 

Deusa do lar e guardiã da família, das cidades e das colônias, Héstia (Vesta) não é personificada. Os gregos mantinham nas casas um fogo aceso em sua homenagem. Solitária, doméstica e silenciosa, a chama significava a manutenção da felicidade no lar e a perenidade do império. Se o fogo  apagasse, era considerado um sinal de péssimo agouro.

 

Situações limites de construção/desconstrução de lares estão muito presentes na obra do escritor argentino nascido na Bélgica, Julio Cortázar (1914-1984), que tem uma produção que gira em torno de três eixos: o fantástico, no qual mescla o real e o imaginário; o engajamento político e a procura de uma linguagem que expresse a realidade rio-platense.  Sua obra contribui assim decisivamente para a renovação da prosa latino-americana que se efetuou a partir da década de 1960.

 

O lar, tomado como metáfora da mente humana, é o universo de “Casa tomada”, conto que abre o livro Bestiário (1951). O relato permite inúmeras leituras, mas sempre enfocando o espaço físico como um mundo de recordações que povoa a nossa mente. Ocupar uma casa é preencher o espaço da memória e impedir o raciocínio e limitar a capacidade de pensar livremente:

 

“Gostávamos da casa porque, além de espaçosa e antiga (hoje que as casas antigas sucumbem à mais vantajosa liquidação de seus materiais), guardava as recordações de nossos bisavós, o avô paterno, nossos pais e toda a infância. Habituamo-nos, Irene e eu, a permanecer nela sozinhos, o que era uma loucura, pois nessa casa podiam viver oito pessoas sem se molestarem. Fazíamos a limpeza pela manhã, levantando-nos às pressas, e pelas onze eu deixava a Irene as últimas peças por repassar e ia à cozinha. Almoçávamos ao meio-dia, sempre pontuais; então não ficava nada por fazer além de uns poucos pratos sujos. Era para nós agradável almoçar pensando na casa ampla e silenciosa e em como nós bastávamos para mantê-la limpa. Às vezes chegamos a pensar que foi ela que não nos deixou casar.”  

 

O CASAMENTO

 

Ciumenta e vingativa, Hera (Juno) é a deusa do casamento. Protege apenas os amores legítimos e sacralizados pelos laços matrimoniais, perseguindo implacavelmente os amantes do irmão e marido Zeus. Os célebres doze trabalhos exigidos a Hércules, filho de Zeus com a princesa Alcmena, são o maior exemplo disso.

 

Nascido na Paraíba, José Lins do Rego (1901-1975) é uma das maiores figuras do romance regionalista nordestino. Embora não pretenda fazer literatura engajada, a sua obra é um libelo contra todas as formas de pressão a que estava submetida a população do submundo urbano e rural da região em que nasceu. Entre elas, está o casamento tradicional, marcado pelo pífio convencionalismo, pela falta de amor ou pelo ciúme doentio.

 

Em Menino de engenho (1932), obra que se insere no neo-realismo nacional, Rego desprezou o rigor formal, buscando uma linguagem viva e espontânea que retrata com fidelidade o falar da gente do Nordeste. Na cena inicial, o protagonista, ao contar o assassinato da mãe pelo pai, dá uma aula narrativa e oferece uma reflexão sobre o significado do casamento para o ser humano em qualquer época:

 

 “Eu tinha uns quatro anos no dia em que minha mãe morreu. Dormia no meu quarto, quando pela manhã acordei com um enorme barulho na casa toda. Eram gritos e gente correndo para todos os cantos. O quarto de dormir de meu pai estava cheio de pessoas que eu não conhecia. Corri para lá, e vi minha mãe estendida no chão e meu pai caído por cima dela como um louco. A gente toda que estava ali olhava para o quadro como se estivesse em um espetáculo. Vi então que  minha mãe estava toda banhada em sangue, e corri para beijá-la,quando me pegaram pelo braço com força. Chorei, fiz o possível para livrar-me. Mas não me deixaram fazer nada. Um homem que chegou com uns soldados mandou então que todos saíssem, que só podiam ficar ali a polícia e mais ninguém.

Levaram-me para o fundo da casa, onde os comentários sobre os fatos eram os mais variados. O criado, pálido, contava que ainda dormia quando ouvira uns tiros no primeiro andar. E, correndo para cima, vira o meu pai com o revólver na mão e minha mãe ensangüentada. “O doutor matou a D. Clarisse!” Por quê? Ninguém sabia compreender.”

 

 

A RELAÇÃO PAIS E FILHOS

 

As deusas Deméter (Ceres) e a sua filha com Zeus, Perséfone (Prosérpina), estão ligadas, respectivamente, à agricultura e à primavera. Deméter é um princípio constante, enquanto Penélope caracteriza-se pela sazonalidade, pois passa parte do ano (a primavera) na terra, com a mãe; e, a outra, no inferno, com Hades, seu marido. O mito sacraliza o relacionamento entre pais e filhos, ora marcado pela proximidade física, ora pelo distanciamento, mas sempre onipresente.

 

Essa relação é apenas um dos temas da contundente obra do escritor francês nascido na Argélia, Albert Camus (1913-1960), que conservou, de sua terra natal, a intensa luz do Mar Mediterrâneo, tema que aparece em toda a sua obra e lhe confere uma especial densidade.

 

Em O estrangeiro (1942), Camus proclama o absurdo do destino. Apresenta as hesitações do homem que, por meio de seus heróis, adota uma atitude de revolta contra os valores espirituais. Condenado à morte pelo assassinato, sem motivo, de um árabe, o herói, Meursault, só parece encontrar um sentido na vida no momento em que está prestes a perdê-la. No início do romance, por exemplo, reage, com indiferença, à notícia da morte da mãe, gerando uma pergunta: o amor entre pais e filhos não estaria, em muitos casos, marcado apenas pelo convencionalismo?

 

“Hoje mamãe morreu. Ou talvez, ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.

O asilo de velhos fica em Marengo, a 80 quilômetros de Argel. Vou tomar o ônibus às 2 horas e chego ainda à tarde. Assim, posso velar o corpo e estar de volta amanhã à noite. Pedi dois dias de licença ao meu patrão e, com uma desculpa destas, ele não podia recusar. Mas não estava com um ar muito satisfeito. Cheguei mesmo a dizer-lhe: ‘A culpa não é minha’. Não respondeu. Pensei, então, que não devia ter-lhe dito isso. A verdade é que eu não tinha por que me desculpar. Cabia a ele dar-me pêsames. Com certeza irá fazê-lo depois de amanhã, quando me vir de luto. Por ora, é um pouco como se mamãe não tivesse morrido. Depois do enterro, pelo contrário, será um caso encerrado e tudo passará a revestir-se de um ar mais oficial.”

 

 

O AMOR

 

Finalmente, Afrodite. Deusa do amor e da fertilidade, sempre despertou ciúme entre as divindades femininas, sendo escolhida pelo príncipe troiano Paris a mais bela das deusas, vencendo um concurso em que participavam Atená e Ártemis. Sua sensualidade é lendária e, nos seus altares, nunca houve sacrifícios de animais, mas apenas a queima de incensos e perfumes.

 

O paranaense Dalton Trevisan (1926) é perito em descrever a cidade de Curitiba e os tipos que a habitam, compondo uma fauna humana toda particular, na qual o amor, a violência e o sexo se confundem. A partir do trabalho com hábitos, costumes, situações e tramas psicológicas, estabeleceu uma linguagem despojada como marca registrada, repleta de sugestões e insinuações que valorizam cada pequeno incidente.

 

A polaquinha (1985) ilustra bem o poder da linguagem de Dalton Trevisan. Após 18 livros de contos, foi seu primeiro romance, repleto de erotismo e amores aparentemente loucos. Logo no início do livro, a protagonista reflete desde o nascimento dos pêlos pubianos até a primeira menstruação e o crescimento dos seios. Tudo isso numa linguagem milimetrada, digna de uma composição do músico minimalista Philip Glass:

 

“Bobinha, de mim já não falo. Me enxugava no banheiro. Puxa, que susto.

-- Está nascendo cabelo...

Um por um, tentei arrancar – doía muito. Confessei o medo para minha irmã.

-- Lá embaixo.

-- Ela se acalmou.

-- Sua tonta, é assim mesmo.

Quando veio a primeira vez, bem me apavorei.

-- Estou sangrando. Acho que vou morrer.

Correndo a toda hora ao banheiro.

-- Estou me esvaindo...

De novo, minha irmã:

-- Agora você sabe o que é ser  moça. Daqui a um mês. Todo mês.

Me ensinou a usar toalhinha, ainda o tempo da toalhinha. Esquecida horas no

banheiro, lavando, lavando. Para a mãe não ver.

O seio aflorando, o biquinho doendo – de sete novenas fiz promessa.

-- Meu Deus, me acuda. Se aperto o biquinho, sai leite?”

 

 

Os doze deuses gregos, os temas mencionados e os correspondentes romances, com suas bem elaboradas aberturas, constituem pistas para analisar como alguns autores enfocaram certos aspectos do comportamento humano, cristalizados nos mencionados deuses, aparentemente esquecidos, mas onipresentes, pelo seu valor arquetípico, na literatura de todas as culturas e épocas.

 

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

BECKETT, S. Malone morre. Tradução Paulo Leminsky. São Paulo:

Brasiliense, 1986.

BULFINCH, T. O livro de ouro da mitologia. Rio de Janeiro: Ediouro,

s/d.

CAMUS. A. O estrangeiro. Tradução de Valerie Rumjanek. Rio de

Janeiro: Record, s.d.

COETZEE, J. M. À espera dos bárbaros. Tradução de Luiz Araújo. São

Paulo: Editora

Best Seller, s/d.

CORTÁZAR, J. “A casa tomada” in Bestiário. Tradução de Remy

Gorga, filho. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

D’AMBROSIO, O. “Os doze temas clássicos de O primo Basílioin

QUEIRÓS, E. de. O primo Basílio. Coleção Oficina Literária. São

Paulo: Selinunte, 1992.

DREISER, T. Carolina. Tradução de Moacir Augusto. Rio de Janeiro:

Rio Gráfica, 1987.

DUMAS, A. Os três mosqueteiros. Tradução de Mirtes Ugeda. São

Paulo: Nova Cultural, 1996.

FIELDING, H. Tom Jones. 2 vols. Tradução de Octavio Mendes

Cajado. Rio de Janeiro: Globo, 1987.

GRIMAL, P. A mitologia grega. São Paulo: Brasiliense, 1990.

HEMINGWAY, E. O sol também se levanta. Tradução de Berenice

Xavier. São Paulo: Nova Cultural, 1995.

KAFKA, F. A metamorfose. Tradução de Torrieri Guimarães. Rio de

Janeiro: Ediouro; São Paulo: Publifolha, 1998.

REGO, J. L. Menino de engenho. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,

1987.

SOUZA BRANDÃO, J. de. Mitologia grega. 3 vols. Petrópolis: Vozes,

1987.

VICTORIA, L. A. P. Dicionário ilustrado da mitologia. Rio de Janeiro:

Ediouro, s/d.

 

 



[1] *Jornalista, graduado em Letras, pós-graduado em Literatura Dramática (ECA-USP), editor do Jornal UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (Seção Brasil). Pós-graduando em Artes Visuais no Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo, é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo). odambros@reitoria.unesp.br

 

 

 

 

 

 

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