por Oscar D'Ambrosio


 

 


Os cadernos de Hudinilson Jr.

 

Quando se menciona o nome de Hudinilson Jr., vem à mente seus trabalhos de grafite pelas ruas de São Paulo, com a célebre boca vermelha com o texto “Ah! Ah! Beije-me”, suas experiências com máquinas copiadoras reproduzindo o próprio corpo e performances.

No entanto, talvez uma de suas expressões plásticas mais significativas – por que não a mais importante? – são os seus cadernos, que beiram uma centena, no qual traça um percurso de seleção de imagens que alimentam de diversas formas o seu imaginário plástico e existencial.

Esse trabalho nasceu da necessidade de organizar, para não perder ou estragar numerosas imagens guardadas ao longo do tempo num baú. Cuidadosamente coladas no início, elas foram pouco a pouco sendo cada vez menos vistas como obra acabadacom cuidado formal e técnica de modo que todas as imagens coladas ficassem lisinhas – e muito mais um diário visual de referências que auxilia a mergulhar em sua obra.

Progressivamente, esse mergulho nos cadernos foi ganhando uma dimensão cada vez maior. Momentos de lirismo se mesclam com outros de cenas explícitas de sexo. Existe todo um movimento de alternâncias e continuidades entre as imagens que depende das cenas previamente coletadas e do estado de espírito no momento da montagem.

Um ponto que chama muito a atenção é a coerência da carreira do artista. Desde a sua primeira exposição, de xilogravuras, ele mantém a temática do corpo como centro de suas atenções. Isso significa uma pesquisa intensa de imagens para alimentar seu imaginário no sentido de desenvolver o próprio assunto dentro das mais variadas técnicas   

 O fato de as figuras reunirem, portanto, em sua maioria, homens bonitos e musculosos, geralmente sem camisa ou mesmo nus, é o resultado do tema dos recortes. A idéia é preencher todo o espaço, embora existam breves textos e áreas em branco com notória função estética, funcionando como elementos de uma diagramação toda particular.

Os cadernos constituem um manancial de possibilidades de análise e estudo e um relatório do processo de criação de Hudinilson Jr. Seria elucidativo ver as semelhanças formais entre o que está no caderno e o trabalho do artista, seja nas suas figuras mitológicas gregas ou quando interfere sobre suas roupas usadas.

Outro aspecto relevante está no fato de nem sempre serem usados cadernos novos. São utilizados materiais encontrados no lixo e mesmo livros largados. A interferência ganha então uma outra conotação. O artista deixa textos originais a descoberto e eles, quando são de origem religiosa, encontram seu contraponto nas imagens selecionadas.

            Construir o caderno em si mesmo é uma etapa. Observar plasticamente o que está nele é um segundo momento. Refletir sobre o metatexto, ou seja, os meandros da criação de um artista, a partir dos cadernos, oferece um terceiro desafio, ainda maior, pleno de significações e sentidos a serem desvendados.

Mais importante do que simplesmente avaliar se o conjunto de imagens e textos reunidos nos cadernos tem alguma função artística, é verificar como a atividade de Hudinilson Jr de fazê-los engrandece o artista como criador, o público como observador e o crítico como intérprete em termos de conhecer mais e melhor uma atividade que revela momentos passados e presentes – e pode ajudar a ler o futuro de uma trajetória plástica.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da Unesp e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 



 

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