Orlando
Pedroso
O
prazer de desenhar
O
desenho é uma das principais matrizes das artes plásticas. Sem ele,
torna-se difícil um melhor exercício da pintura e da própria
escultura. A prática constante leva a um fazer mais aprofundado e,
geralmente, a um resultado igualmente mais significativo. Com as
entradas dos novos meios, que constituem uma ferramenta importante
para a construção de dimensões plásticas talvez ainda não
imaginadas, ao contrário do que muitos pensam, o saber desenhar ganha
ainda mais relevância.
Uma aula
dessa arte pode ser encontrada, de 6 a 25 de março de 2007, em Uns
desenhos, exposição de trabalhos inéditos de Orlando Pedroso,
na Calligraphia Galeria e Loja de Arte, em São Paulo, SP. São
trabalhos que mostram por que ele é um dos principais ilustradores do
país.
O segredo
está não só na prática constante, mas, principalmente, na manutenção
do hábito de desenhar e produzir. Ao contrário de colegas de profissão
que acabam praticamente trabalhando só por encomenda, Orlando mantém
uma produção livre de compromisso com clientes altamente
significativa.
Os
desenhos, produzidos em papel kraft e pintados com tinta acrílica,
apresentam outros recursos além do desenho e da pintura. Alguns se
valem da incorporação de colagens de elementos, como, por exemplo, a
inserção de penas. Esse efeito de combinação de técnicas gera
resultados estéticos que causam impacto no observador, não o
deixando indiferente.
Uma das
obras mais significativas é de uma floresta densa em que, no canto
direito inferior, surge um índio assistindo a um programa de televisão.
O trabalho, além de sua força intrínseca em relação ao assunto,
mostra o domínio de um pensamento gráfico e espacial, visível na
construção da mata e na forma de concentrar a luz para destacar a
imagem de menor proporção que centraliza nossa atenção.
A presença
de personagens com roupas manchadas, seja um açougueiro ou um artista
plástico remetem ao lado prático de todas as atividades humanas. De
um jeito ou de outro, não há quem não suje as mãos e o coração
para desempenhar qualquer atividade. Isso se torna ainda mais curioso
quando o fazer de um ilustrador exige justamente a capacidade de se
“sujar”, no sentido de se envolver profundamente com aquilo que
está trabalhando.
Caso contrário,
não conseguirá obter uma imagem densa, que, num olhar, capte o
observador e o coloque numa nova relação com o mundo. De certo modo,
isso ocorre com a figura do astronauta, que perde seu caráter heróico
que a sociedade lhe atribui por ser colocado numa dimensão humana.
As
metáforas artísticas podem ser lidas em numerosos dos trabalhos,
dependendo do referencial de quem os vê. O pugilista evoca (por que não?)
a luta do escultor Caciporé Torres com seus materiais, lembrando
ainda que ele, quando jovem, foi, literalmente, um esportista premiado
nessa modalidade.
Ao
ver uma menina gorda com um pirulito, por sua vez, surge a lembrança
do pintor Gustavo Rosa, sendo evidente que há, entre Orlando e o
pintor, um ponto em comum: a capacidade de observar o mundo. O bom
artista compartilha justamente a inquietação de ver o universo que o
rodeia sempre de uma outra forma, seja na forma, na cor, na estrutura
ou no próprio ato de adotar soluções técnicas inovadoras para
antigos problemas.
Nascido
em 14 de fevereiro de 1959, o paulistano Orlando Pedroso se debruça
sobre o desenho para encontrar as suas respostas. Duas imagens,
significativamente mais escuras, surgem com grande vigor: a de um
homem com a roupa pintada como se fosse uma galinha
d’angola, com manchas brancas sobre o fundo preto e a figura forte
de um homem com um copo na mão e uma arma na cintura.
Mais
contundentes que as imagens de nus masculinos e femininos
aparentemente mais ferozes, os personagens de Orlando Pedroso mais
sutis ressaltam aquilo que ele tem de melhor: a economia de recursos
para encontrar aquilo que cada pessoa tem de mais obscuro e não deixa
aparecer.
Suas
ilustrações, graças à prática do desenho – muito desenho numa ação
incessante de saber ver e recriar! –, mostram retratos humanos que
apresentam perfis crus da nossa existência no planeta e, nesse jogo
ambivalente, podem fazer rir, mas com uma lágrima bem guardada em
cada olhar.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp,
integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (AICA –
Seção Brasil).