por Oscar D'Ambrosio


 

 


Orlando Pedroso        

 

O prazer de desenhar

 

O desenho é uma das principais matrizes das artes plásticas. Sem ele, torna-se difícil um melhor exercício da pintura e da própria escultura. A prática constante leva a um fazer mais aprofundado e, geralmente, a um resultado igualmente mais significativo. Com as entradas dos novos meios, que constituem uma ferramenta importante para a construção de dimensões plásticas talvez ainda não imaginadas, ao contrário do que muitos pensam, o saber desenhar ganha ainda mais relevância.

            Uma aula dessa arte pode ser encontrada, de 6 a 25 de março de 2007, em Uns desenhos, exposição de trabalhos inéditos de Orlando Pedroso, na Calligraphia Galeria e Loja de Arte, em São Paulo, SP. São trabalhos que mostram por que ele é um dos principais ilustradores do país.

            O segredo está não só na prática constante, mas, principalmente, na manutenção do hábito de desenhar e produzir. Ao contrário de colegas de profissão que acabam praticamente trabalhando só por encomenda, Orlando mantém uma produção livre de compromisso com clientes altamente significativa.

            Os desenhos, produzidos em papel kraft e pintados com tinta acrílica, apresentam outros recursos além do desenho e da pintura. Alguns se valem da incorporação de colagens de elementos, como, por exemplo, a inserção de penas. Esse efeito de combinação de técnicas gera resultados estéticos que causam impacto no observador, não o deixando indiferente.

            Uma das obras mais significativas é de uma floresta densa em que, no canto direito inferior, surge um índio assistindo a um programa de televisão. O trabalho, além de sua força intrínseca em relação ao assunto, mostra o domínio de um pensamento gráfico e espacial, visível na construção da mata e na forma de concentrar a luz para destacar a imagem de menor proporção que centraliza nossa atenção.

            A presença de personagens com roupas manchadas, seja um açougueiro ou um artista plástico remetem ao lado prático de todas as atividades humanas. De um jeito ou de outro, não há quem não suje as mãos e o coração para desempenhar qualquer atividade. Isso se torna ainda mais curioso quando o fazer de um ilustrador exige justamente a capacidade de se “sujar”, no sentido de se envolver profundamente com aquilo que está trabalhando.

            Caso contrário, não conseguirá obter uma imagem densa, que, num olhar, capte o observador e o coloque numa nova relação com o mundo. De certo modo, isso ocorre com a figura do astronauta, que perde seu caráter heróico que a sociedade lhe atribui por ser colocado numa dimensão humana.

As metáforas artísticas podem ser lidas em numerosos dos trabalhos, dependendo do referencial de quem os vê. O pugilista evoca (por que não?) a luta do escultor Caciporé Torres com seus materiais, lembrando ainda que ele, quando jovem, foi, literalmente, um esportista premiado nessa modalidade.

Ao ver uma menina gorda com um pirulito, por sua vez, surge a lembrança do pintor Gustavo Rosa, sendo evidente que há, entre Orlando e o pintor, um ponto em comum: a capacidade de observar o mundo. O bom artista compartilha justamente a inquietação de ver o universo que o rodeia sempre de uma outra forma, seja na forma, na cor, na estrutura ou no próprio ato de adotar soluções técnicas inovadoras para antigos problemas.

Nascido em 14 de fevereiro de 1959, o paulistano Orlando Pedroso se debruça sobre o desenho para encontrar as suas respostas. Duas imagens, significativamente mais escuras, surgem com grande vigor: a de um homem com a roupa pintada como se fosse uma  galinha d’angola, com manchas brancas sobre o fundo preto e a figura forte de um homem com um copo na mão e uma arma na cintura.

Mais contundentes que as imagens de nus masculinos e femininos aparentemente mais ferozes, os personagens de Orlando Pedroso mais sutis ressaltam aquilo que ele tem de melhor: a economia de recursos para encontrar aquilo que cada pessoa tem de mais obscuro e não deixa  aparecer.

Suas ilustrações, graças à prática do desenho – muito desenho numa ação incessante de saber ver e recriar! –, mostram retratos humanos que apresentam perfis crus da nossa existência no planeta e, nesse jogo ambivalente, podem fazer rir, mas com uma lágrima bem guardada em cada olhar.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (AICA – Seção Brasil).

 
 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

 


Exposição Uns desenhos

acrilica em papel kraft
66 x 96 cm
2007

Orlando Pedroso

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio