por Oscar D'Ambrosio


 

 



Orisekné Farsang Erzsébet

 

Entre o sonho e a realidade

 

 Os limites entre o mundo real e o imaginário são a matéria-prima da pintura de Orisekné Farsang Erzsébet. Seus quadros geralmente misturam experiências vividas com imagens que brotam de sua imaginação e logo se tornam quadros de ampla comunicação com o espectador.

Nascida em 25 de fevereiro de 1929, em Pázmánd, Hungria, Orisekné é a sétima filha de uma família de oito irmãos. Aos nove anos, já tocava cítara e acordeão; e , aos 13 anos, já trabalhava como diarista, exercendo a função de empregada doméstica em residências de Budapeste. 

A carreira artística de Orisekné começou de maneira bastante diferente. Ela pintou o lado de dentro das portas de seu armário de cozinha, utilizando, para isso, tinta para trabalhar com mobília. A atividade era desenvolvida em segredo, pois tinha medo de ser ridicularizada pelos amigos.

A situação piorou quando a primeira pessoa que viu as imagens lhe disse que os veados que pintava pareciam cães de caça. Depois desse comentário, ela perdeu o interesse por praticá-lo, o que aconteceu alguns anos depois, graças ao apoio do pintor Bod László,  que a encorajou a retomar a atividade e promoveu uma exposição dela em ateliê, em Valence, em 1969.

Orisekné pode ser considerada uma autêntica naïf, porque seu trabalho é resultado de um aprendizado absolutamente autodidata, já que ela nunca possuiu nem as mais elementares noções ou princípios de pintura, pois nunca teve uma aula sequer de educação artística.

Desde sua primeira participação na Mostra de Outono, realizada no condado de Fejér, em 1970, a pintora já realizou 48 individuais e participou de 80 coletivas desde 1970, passando a integrar, em 1982, a Fundação de Belas Artes. Nesse período, seus quadros também foram mostrados diversas vezes no exterior, principalmente as 17 pinturas que integram a Museu de Artistas Naïfs em Kecskmét, Hungria.

O ponto forte de seus quadros, geralmente realizados em madeira compensada, é o diálogo entre o real e o imaginário, o racional e o fantástico, o descritivo e o surrealista. Orisekné registra o mundo do interior  de maneira livre e autêntica, resgatando as tradições e os ritos populares e as brincadeiras infantis, em um estilo que às vezes se aproxima da etnografia e da antropologia. Isso, no entanto, não basta à artista. “Alguns querem que pinte apenas as tradições dos povoados, mas gosto de me divertir enquanto pinto.

Esse desejo é que diferencia a arte de Orisekné da praticada por muitos naïfs. Ela permanece, portanto, com um pé na realidade e outro no mundo dos contos de fada e da fantasia. O quadro que melhor ilustra isso é Caminho para o mundo da fantasia. “É uma delícia imaginar que pintei uma paisagem na qual duas crianças estão partindo para conhecer o mundo dos contos de fada”, diz sobre a tela, que já foi reproduzida como cartão postal pela Unicef.

Caminho para o mundo da fantasia é emblemático, pois a tela se divide em duas metades. Na parte inferior, termos a reprodução de um pequeno povoado húngaro, com destaque para a igreja, as casas coloridas, a vegetação, as crianças brincando e os animais de criação.

Na parte superior, surge um reino de fantasia, com um belo palácio em dourado e uma paisagem celestial, em cores mais diáfanas e etéreas. Surge assim um mundo de sonho. Para ligar os dois, há um arco-íris, percorrido por duas crianças. Eles se dirigem a esse mundo encantado, aparecendo como duas figuras pequenas e delicadas, quase invisíveis numa percepção muito rápida da pintura.

O arco-íris funciona então como um caminho, uma mediação entre dois mundos. É uma ponte entre o mundo cotidiano e uma outra dimensão que se instaura no universo da fantasia, das crianças e dos contos de fada. O arco-íris conduz, portanto, à felicidade, à harmonia e à renovação. As imagens que preenchem são como miniaturas de extrema delicadeza num clima fantástico que cativa o espectador.

Alguns quadros da artista em que predomina a fantasia possuem a mesma poeticidade e carinho. Há um extremo cuidado na construção de cada tela. Em Háromkirályok (1981), predomina o clima de Natal. Três reis magos levam presentes ao menino Jesus, refugiado numa choupana. No ambiente, palmeiras e outras plantas típicas da região de Israel, construindo imagens que são uma exceção, pois o mais habitual, como vimos, é a fusão entre elementos da fantasia e da realidade.

Orisekné utiliza tinta a óleo e pincéis com ponta bem fina, o que lhe permite trabalhar cada imagem com cuidado de miniaturista medieval.  Os detalhes, nessa jornada entre o real e o imaginário, são tratados com admirável perfeição e as cores geralmente são puras, resultando numa intensidade de vermelhos e azuis de rara beleza. “Comecei a pintar para não deixar morrer as experiências maravilhosas de minha vida. Minhas pinturas preservam essas memórias”, conclui.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).      

 
 

 

 

 

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