O rio Tietê de Rosa
Pillon
A pintura é um exercício mágico e técnico de anulação
de si mesmo rumo a uma nova dimensão: propiciada pelas cores,
luzes, formas e transparências. Perante uma tela, que aceita,
literalmente, tudo, saber como se portar e o que pôr nela exige um
progressivo amadurecimento e uma busca constante pela essência do
fazer artístico.
Rosa
Pillon é, acima de tudo, uma pesquisadora de técnicas e materiais.
Quando nos oferece, como nessa exposição, a sua visão do Rio Tietê,
o que está em jogo não é a reprodução imagética, mas uma sensível
e cuidadosa jornada por diversos assuntos, que se entrelaçam como
braços de fluxos de água.
Com óleo,
acrílico, têmpera e encáustica, sobre o linho, o verso dele ou
lona, a artista estabelece diversas relações. As mais evidentes são
entre o rio e a sua margem, ou seja, entre o sólido e o líquido,
com seus numerosos estados intermediários, que ganham expressão plástica
no uso de ampla palheta de cores.
Há, porém
um universo ainda mais denso, filosófico e existencial, que
interpreta o rio como o fluxo do pensamento. Portanto, ele corre
livremente, realizando voltas, com idas e vindas, apenas com um
destino já traçado: desaguar
no mar. Analogamente, os quadros de Rosa Pillon também se
entrelaçam, com numerosas cabeceiras, mas com uma unidade: a recusa
a qualquer facilidade.
A busca
da artista não está na repetição de alguma solução óbvia, mas
na procura incessante do novo, que pode ser experimentado como
resposta plástica para as suas angústias. Assim, atinge, por
exemplo, um elaborado padrão de trabalho com a luz. Ela se faz
presente no fundo do quadro, chamando nosso olhar para uma observação
mais próxima e amiga.
Mesmo um
elemento de mais fácil interpretação, como a linha vermelha,
associada ao sangue e ao pulsar da vida e do coração, ganha
riqueza pela forma como é utilizada para compor cada trabalho. O
prateado, presente à noite no rio, também é aludido por meio de
cinzas, que apontam para o vazio interior de uma artista durante o
seu processo de jogar na sua criação seus rios interiores.
As cores
da bandeira italiana (vermelho e verde), alusão aos antepassados de
Rosa e do próprio Estado, as da bandeira paulista (vermelho e
preto), do Brasil (verde e amarelo), os terras, os ocres e o branco
integram sucessivas etapas de um processo que inclui desenhos,
monotipias, gravuras e muitos esboços com diferentes tipos de tinta
sobre distintos tipos de papel.
O
processo culmina numa exposição em que o rio Tietê que vemos não
é o que atravessa o Estado de São Paulo, mas o que está dentro de
nós. As imagens construídas por Rosa Pillon, com uma técnica
progressivamente apurada, são memórias e retratos afetivos de um
curso de água que ela vê com um sentimento próprio, mesclado com
um percurso de pesquisa amplo
e diversificado.
A poética
de Rosa Pillon, natural de Laranjal Paulista, tem, no rio e na
margem, uma maneira dual de ver o rio, como se fossem dois mundos
que ora se harmonizam ora são opostos. Eles têm beleza e poluição,
densidade e fluidez, azul da pureza e a escuridão da destruição,
o vermelho da vida pulsante e os tons mais escuros da reflexão
sobre um amanhã talvez sombrio. Acima de tudo, a exposição
apresenta uma pintura de qualidade técnica admirável, fruto do
desejo incessante de aprofundar o máximo possível sua relação
emotiva e plástica com o curso de água mais importante do Estado,
paisagem de origem da artista.
Oscar
D’Ambrosio, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes
da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes
(Aica – Seção Brasil).