por Oscar D'Ambrosio


 

 


O rio Tietê de Rosa Pillon

 

            A pintura é um exercício mágico e técnico de anulação de si mesmo rumo a uma nova dimensão: propiciada pelas cores, luzes, formas e transparências. Perante uma tela, que aceita, literalmente, tudo, saber como se portar e o que pôr nela exige um progressivo amadurecimento e uma busca constante pela essência do fazer artístico.

            Rosa Pillon é, acima de tudo, uma pesquisadora de técnicas e materiais. Quando nos oferece, como nessa exposição, a sua visão do Rio Tietê, o que está em jogo não é a reprodução imagética, mas uma sensível e cuidadosa jornada por diversos assuntos, que se entrelaçam como braços de fluxos de água.

            Com óleo, acrílico, têmpera e encáustica, sobre o linho, o verso dele ou lona, a artista estabelece diversas relações. As mais evidentes são entre o rio e a sua margem, ou seja, entre o sólido e o líquido, com seus numerosos estados intermediários, que ganham expressão plástica no uso de ampla palheta de cores.

            Há, porém um universo ainda mais denso, filosófico e existencial, que interpreta o rio como o fluxo do pensamento. Portanto, ele corre livremente, realizando voltas, com idas e vindas, apenas com um destino já traçado: desaguar  no mar. Analogamente, os quadros de Rosa Pillon também se entrelaçam, com numerosas cabeceiras, mas com uma unidade: a recusa a qualquer facilidade.

            A busca da artista não está na repetição de alguma solução óbvia, mas na procura incessante do novo, que pode ser experimentado como resposta plástica para as suas angústias. Assim, atinge, por exemplo, um elaborado padrão de trabalho com a luz. Ela se faz presente no fundo do quadro, chamando nosso olhar para uma observação mais próxima e amiga.

            Mesmo um elemento de mais fácil interpretação, como a linha vermelha, associada ao sangue e ao pulsar da vida e do coração, ganha riqueza pela forma como é utilizada para compor cada trabalho. O prateado, presente à noite no rio, também é aludido por meio de cinzas, que apontam para o vazio interior de uma artista durante o seu processo de jogar na sua criação seus rios interiores.

            As cores da bandeira italiana (vermelho e verde), alusão aos antepassados de Rosa e do próprio Estado, as da bandeira paulista (vermelho e preto), do Brasil (verde e amarelo), os terras, os ocres e o branco integram sucessivas etapas de um processo que inclui desenhos, monotipias, gravuras e muitos esboços com diferentes tipos de tinta sobre distintos tipos de papel.

            O processo culmina numa exposição em que o rio Tietê que vemos não é o que atravessa o Estado de São Paulo, mas o que está dentro de nós. As imagens construídas por Rosa Pillon, com uma técnica progressivamente apurada, são memórias e retratos afetivos de um curso de água que ela vê com um sentimento próprio, mesclado com um percurso de pesquisa  amplo e diversificado.

            A poética de Rosa Pillon, natural de Laranjal Paulista, tem, no rio e na margem, uma maneira dual de ver o rio, como se fossem dois mundos que ora se harmonizam ora são opostos. Eles têm beleza e poluição, densidade e fluidez, azul da pureza e a escuridão da destruição, o vermelho da vida pulsante e os tons mais escuros da reflexão sobre um amanhã talvez sombrio. Acima de tudo, a exposição apresenta uma pintura de qualidade técnica admirável, fruto do desejo incessante de aprofundar o máximo possível sua relação emotiva e plástica com o curso de água mais importante do Estado, paisagem de origem da artista.

           

Oscar D’Ambrosio, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).

 
 



 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio