O. Ribeiro
O expressionismo ingênuo
Com cores quentes próprias
do expressionismo, como vermelho, amarelo e laranja, e traços
vinculados à arte primitivista, o pintor O. Ribeiro apresenta,
em suas telas, retratos de um Brasil muito peculiar, no qual
convivem oferendas de frutas, imagens estilizadas de São
Francisco e figuras populares, como um instrumentista com o seu
violão.
O. Ribeiro, cujo
nome completo é Osvaldo Ribeiro, nasceu em Braúna, SP, em 23
de abril de 1950. Sete anos depois, mudou-se para Penápolis,
SP, onde aprendeu as primeiras letras. Ao visitar um salão de
artes plásticas local, ficou fascinado pelos quadros,
principalmente pelas obras dos pintores surrealistas e dos ingênuos.
Seus primeiros
trabalhos foram com tinta a óleo, mas, devido ao
desconhecimento técnico, o resultado ficou abaixo do esperado.
Posteriormente, utilizou guache, látex, nanquim, carvão,
pastel, lápis e outros materiais, até retornar ao óleo, com o
qual passou a ter bons resultados.
Em 1981, Ribeiro
mudou-se para Jundiaí e iniciou um curso de Artes Plásticas em
Itu, formando-se professor de Educação Artística. Foi,
entretanto, no ateliê do artista plástico Elvio Santiago que
Ribeiro começou a moldar a sua técnica, inicialmente numa
linguagem artística surreal, com paisagens bem distantes de
referentes concretos.
Ao passar a sofrer
de crises de artrose e gota nos joelhos, pés, tendões e no
punho direito, Ribeiro começou a desenhar personagens com maior
volume e expressões às vezes marcadas pela dor, além de
passagens bíblicas, nas quais procura transmitir paz e tranqüilidade,
principalmente pelo uso de tons de verde e azul.
Surge assim um
pintor expressionista ingênuo com cores quentes que representam
temáticas ligada ao folclore, danças, festas, futebol, crenças
e ludismo vinculado às crianças. As telas apresentam assim
grande intensidade visual e criam universos mágicos, plenos de
poesia e fantasia.
Nessa mescla de
estilos, o primitivismo retira das imagens o tom agressivo do
expressionismo, conferindo às telas de Ribeiro uma dimensão
muitas vezes próxima do surrealismo. Suas imagens até parecem
flutuar num atmosfera de sonho, quase diáfana, de encantamento.
Oferenda, por
exemplo, mostra duas mulheres, uma de amarelo e outra de
vermelho, carregando, respectivamente, uma cesta com frutas e
uma melancia. Os olhos amendoados bem abertos, os vestidos
"tomara-que-caia" e os grandes brincos se articulam
com os rostos inclinados para a direita.
O fundo
predominantemente azul contribui para o equilíbrio cromático e
a posição das mãos aponta justamente para o título. Os
alimentos vêm sendo trazidos ao observador, que se deslumbra
com a tela, principalmente pela forma direta como as mulheres
parecem estar saindo do quadro para dialogar.
Viola companheira
cria uma atmosfera semelhante. O artista está recostado e o
instrumento, que segura com uma das mãos, enquanto a outra fica
apoiada no solo, parece ser uma parte do seu corpo num todo harmônico,
movido pelo prazer da arte e do poder da criação, mesclado na
imagem com uma posição física que aponta para a malandragem,
a preguiça e os encantamentos e o poder de sedução dos astros
celestes, como a lua, nos quais os poetas costumam buscar
inspiração.
Um outro tema é a
religiosidade, presente em Calor espiritual, imagem original, próxima
ao primitivismo, pelo jogo de desproporções e pela paisagem
idealizada no fundo. A imagem evocada na tela é a de São
Francisco de Assis, que surge com mãos e pés imensos. Junto às
primeiras, pássaros, geralmente presentes em todas representações
do santo.
Casinhas perdidas ao
fundo e pequenas imagens do lado direito e esquerdo da tela, na
linha da cintura do santo, contribuem para o equilíbrio e
revelam a preocupação do artista em criar composições com um
bem realizado jogo interno de formas. A cabeça levemente para a
direita, mais uma vez, contribui decisivamente para retirar da
figura humana um certo ar de dureza.
O santo surge assim
em sua plenitude divina, mas muito próximo do seres humanos. O
olhar, a boca entreaberta, os animais e o efeito cômico
conseguido com os grandes pés a sustentarem um corpo igualmente
volumoso são fatores importantes para que a tela ofereça, com
sucesso, uma imagem marcante de São Francisco de Assis.
O. Ribeiro
concretiza sua arte pela maneira como mostra figuras humanas em
posições originais, seja pela inclinação da cabeça ou pelo
gestual. As cores expressionistas se mesclam ao primitivismo de
alguns traços e ao ato de burlar as leis de perspectiva para
oferecer telas realizadas com sensibilidade, principalmente pelo
casamento entre cores e formas em composições líricas, muito
próximas à poesia. Surge assim um expressionismo ingênuo
muito peculiar e único na combinação entre as cores repletas
de emoção, o traço refinado e a temática popular.