por Oscar D'Ambrosio


 

 


Bia Doria

 

            O renascer da natureza

 

            A relação da natureza com a arte é maravilhosa e estranha. Embora ela seja uma obra sob muitos aspectos perfeita, trata-se de um convite permanente a alterações. Para olhares atentos e mentes inquietas, existe o constante estímulo a algum tipo de intervenção que a transforme e devolva alterada ao mundo.

            A obra plástica de Bia Doria trabalha justamente na dimensão desse devir. Suas esculturas monumentais são resultado de uma pesquisa estética iniciada quando, ainda como designer de jóias, recebeu a encomenda de elaborar uma coleção com madeira. A matéria-prima a encantou e a levou a fazer as primeiras obras, em reduzidas proporções.

            Foi no desenvolvimento de um exercício do olhar diferenciado que a artista começou a construir seu pensamento. Observava e recolhia,  em diferentes lugares do Brasil, como áreas alagadas por represas ou mesmo em beira de estradas elementos mortos como troncos, raízes e  galhos.

            Em seu ateliê, em São Paulo, SP, ocorria depois a fase da construção e da criação de novas formas. Selecionava partes do material pré-escolhido e dava-lhe a forma final num processo que exige constante aperfeiçoamento técnico no trato dos entalhes com a madeira para visualizar as mais variadas composições em resultados plásticos destinados a conquistar o espaço.

            Alertada que a sua linguagem se assemelhava ao do artista polonês radicado no Brasil Frans Krajcberg, foi procurá-lo. Conseguiu o primeiro contato quando ele estava internado num hospital em São Paulo. Gradualmente aproximou-se e conseguiu ser autorizada a visitar o ateliê dele em Nova Viçosa, interior do Estado da Bahia. Depois, viajou com o mestre por diversas regiões do país numa constante prática do exercício do olhar para a escolha de material bruto.

            Houve o aprendizado, mas também a percepção do desenvolvimento de estéticas distintas. Krajcberg é um homem marcado pela Segunda Guerra, da qual fugiu, e um apaixonado pela natureza, que com sofrimento ser destruída pelas áreas queimadas, locais de onde retira boa parte de sua matéria-prima, dando-lhe, no ateliê, a sombria cor negra do luto e a vermelha das veias do simbólico sangue que escorre pelos sulcos das árvores  com a morte de diversos ecossistemas.

            Nascida no interior do Estado de Santa Catarina, Bia Doria tem uma história pessoal totalmente distinta. Seu primeiro contato com árvores ocorreu quando era embalada num berço embaixo delas ou, mais tarde, quando brincava tendo a natureza como cenário. Ela procura a luz no renascer da matéria morta, não a denúncia daquilo que o ser humano não soube preservar. O lilás, o amarelo e o branco entram no trabalho como referências a esse ressurgir da matéria, da busca e da conquista pela luz.

            As esculturas criadas pelo encaixe de madeiras e o uso de lixa e do formão, entre outros instrumentos, após o tratamento contra todo tipo de praga, articulam gestos geralmente majestosos, algumas vezes em séries que funcionam como famílias pelas análogas soluções plásticas atingidas e pelo processo de acabamento e de pintura.

            Partes de árvores mortas por fungos adquirem a dimensão de flores pela maneira como integram as peças escultóricas. Existe assim um louvor à vida, à possibilidade do revigorar da natureza e à esperança contínua de uma nova oportunidade de significação para a matéria morta. Nada mais apropriado, aliás, quando se trabalha com a força da madeira como berço motriz de artes nobres como a marcenaria e a marchetaria.

            O conceito de dar vida ao que está morto ganha uma dimensão ainda mais contundente quando ocorre com o trabalho com os cipós. Entrelaçados de modo mais aberto ou fechado, com distintas dimensões, expressão e comprimento, parecem organismos vivos a conquistarem o espaço de acordo com as maneiras como a artista concebe os seus arranjos.

            O processo criativo, no plano simbólico, faz reaparecer a matéria morta e, no universo técnico, realiza uma pesquisa de construção de formas no espaço. A natureza é o ponto de partida para um jogo de escolhas, descartes, encaixes e composições que tem como desafio maior a eficácia e a eficiência no trato com a tridimensionalidade. Isso significa, na prática, saber o que escolher, como compor o conjunto e quando parar de mexer em cada escultura, pois passar do ponto estético quer dizer fracassar no ato de estabelecer o próprio cosmos artístico.

            Os relevos de parede aprofundam esse raciocínio construtivo. Uma peça selecionada é colocada sobre uma placa. Sob a luz natural ou de uma lâmpada em ambiente fechado, recurso que oferece maiores possibilidades e angulações, surgem sombras que são marcadas como referências para o corte desses suportes. Despontam assim relevos escultóricos de parede que, principalmente ao serem expostos com a luz adequada, proporcionam leveza enquanto aparência e densidade no processo de criação.

            Da morta natureza para a viva escultura, Bia Doria percorre um trajeto no qual aprimorou o olhar da escolha e o saber do fazer para enfrentar cada vez mais desafios em sua relação com a sábia e criativa natureza, a mais perfeita das artistas e mais estimuladora das mães para todos nós, seus filhos, principalmente os voltados para a criação plástica.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

             

 

 



 

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