Bia Doria
O
renascer da
natureza
A
relação da
natureza
com a
arte é
maravilhosa e
estranha.
Embora
ela seja uma
obra
sob
muitos
aspectos
perfeita, trata-se de
um
convite
permanente a alterações.
Para
olhares
atentos e
mentes inquietas, existe o
constante
estímulo a
algum
tipo de
intervenção
que a transforme e devolva alterada ao
mundo.
A
obra
plástica de Bia Doria
trabalha
justamente na
dimensão desse
devir.
Suas
esculturas
monumentais
são
resultado de uma
pesquisa
estética
iniciada
quando,
ainda
como
designer de
jóias, recebeu a
encomenda de
elaborar uma
coleção
com
madeira. A
matéria-prima a encantou e a levou a
fazer as primeiras
obras,
em reduzidas
proporções.
Foi no
desenvolvimento de
um
exercício do
olhar diferenciado
que a
artista começou a
construir
seu
pensamento. Observava e recolhia,
em
diferentes
lugares do Brasil,
como
áreas alagadas
por
represas
ou
mesmo
em
beira de
estradas
elementos
mortos
como
troncos, raízes e galhos.
Em
seu
ateliê,
em
São Paulo, SP, ocorria
depois a
fase da
construção e da
criação de
novas
formas. Selecionava
partes do
material pré-escolhido e dava-lhe a
forma
final num
processo
que exige
constante aperfeiçoamento
técnico no
trato dos
entalhes
com a
madeira
para
visualizar as
mais variadas
composições
em
resultados
plásticos destinados a
conquistar o
espaço.
Alertada
que a
sua
linguagem se assemelhava ao do
artista
polonês radicado no Brasil Frans Krajcberg, foi
procurá-lo. Conseguiu o
primeiro
contato
quando
ele estava internado num
hospital
em
São Paulo.
Gradualmente aproximou-se e conseguiu
ser autorizada a
visitar o
ateliê dele
em
Nova
Viçosa,
interior do
Estado da Bahia.
Depois, viajou
com o
mestre
por diversas
regiões do
país numa
constante
prática do
exercício do
olhar
para a
escolha de
material
bruto.
Houve o
aprendizado,
mas
também a
percepção do
desenvolvimento de
estéticas distintas. Krajcberg é
um
homem marcado
pela
Segunda
Guerra, da
qual fugiu, e
um apaixonado
pela
natureza,
que
vê
com sofrimento
ser destruída pelas
áreas
queimadas,
locais de
onde
retira boa
parte de
sua
matéria-prima, dando-lhe, no
ateliê, a
sombria
cor
negra do
luto e a
vermelha das
veias do simbólico
sangue
que escorre
pelos
sulcos das
árvores
com a
morte de
diversos
ecossistemas.
Nascida no
interior do
Estado de
Santa Catarina, Bia Doria tem uma
história
pessoal
totalmente
distinta.
Seu
primeiro
contato
com
árvores ocorreu
quando
era embalada num
berço
embaixo delas
ou,
mais
tarde,
quando brincava tendo a
natureza
como
cenário.
Ela
procura a
luz no
renascer da
matéria
morta,
não a
denúncia daquilo
que o
ser
humano
não soube
preservar. O
lilás, o
amarelo e o
branco entram no
trabalho
como
referências a
esse
ressurgir da
matéria, da
busca e da
conquista
pela
luz.
As
esculturas criadas
pelo
encaixe de
madeiras e o
uso de
lixa e do
formão,
entre
outros
instrumentos,
após o
tratamento
contra
todo
tipo de
praga, articulam
gestos
geralmente
majestosos, algumas
vezes
em
séries
que funcionam
como
famílias pelas análogas
soluções
plásticas atingidas e
pelo
processo de acabamento e de
pintura.
Partes de
árvores mortas
por
fungos adquirem a
dimensão de
flores
pela
maneira
como integram as
peças escultóricas. Existe
assim
um
louvor à
vida, à possibilidade do
revigorar da
natureza e à
esperança
contínua de uma
nova
oportunidade de significação
para a
matéria
morta.
Nada
mais
apropriado,
aliás,
quando se
trabalha
com a
força da
madeira
como
berço
motriz de
artes
nobres
como a
marcenaria e a
marchetaria.
O
conceito de
dar
vida ao
que está
morto
ganha uma
dimensão
ainda
mais
contundente
quando ocorre
com o
trabalho
com os
cipós.
Entrelaçados de
modo
mais
aberto
ou fechado,
com distintas
dimensões,
expressão e
comprimento, parecem
organismos
vivos a conquistarem o
espaço de
acordo
com as
maneiras
como a
artista concebe os
seus
arranjos.
O
processo
criativo, no
plano simbólico, faz
reaparecer a
matéria
morta e, no
universo
técnico, realiza uma
pesquisa de
construção de
formas no
espaço. A
natureza é o
ponto de
partida
para
um
jogo de
escolhas,
descartes,
encaixes e
composições
que tem
como
desafio
maior a
eficácia e a
eficiência no
trato
com a
tridimensionalidade.
Isso significa, na
prática,
saber o
que
escolher,
como
compor o
conjunto e
quando
parar de
mexer
em
cada
escultura,
pois
passar do
ponto
estético
quer
dizer
fracassar no
ato de
estabelecer o
próprio
cosmos
artístico.
Os
relevos de
parede aprofundam
esse
raciocínio
construtivo. Uma
peça
selecionada é colocada
sobre uma
placa.
Sob a
luz
natural
ou de uma
lâmpada
em
ambiente fechado,
recurso
que oferece
maiores possibilidades e angulações, surgem
sombras
que
são marcadas
como
referências
para o
corte desses
suportes. Despontam
assim
relevos escultóricos de
parede
que,
principalmente ao serem
expostos
com a
luz adequada, proporcionam
leveza
enquanto
aparência e
densidade no
processo de
criação.
Da
morta
natureza
para a
viva
escultura, Bia Doria percorre
um
trajeto no
qual aprimorou o
olhar da
escolha e o
saber do
fazer
para
enfrentar
cada
vez
mais
desafios
em
sua
relação
com a
sábia e
criativa
natureza, a
mais
perfeita das
artistas e
mais estimuladora das
mães
para
todos
nós,
seus
filhos,
principalmente os voltados
para a
criação plástica.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista e
mestre
em
Artes
Visuais
pelo
Instituto de
Artes da Unesp, integra a
Associação
Internacional de
Críticos de
Arte (AICA-
Seção Brasil).