por Oscar D'Ambrosio


 

 

 

 

 

 

O pintor e o rio Tietê

 

            Esta é a história da amizade entre um rio e um pintor.

 

            O rio chama-se Tietê. Percorre o Estado de São Paulo de leste a oeste. Nasce em Salesópolis, na Serra do Mar, segue para o interior, atravessa a cidade de São Paulo e deságua no rio Paraná, na divisa com o Mato Grosso do Sul.

 

            O pintor é Edu das Águas. Ele nasceu na cidade de São Paulo e, desde criança, gosta de desenhar. Seu assunto preferido sempre foi a água. Para pintar o mar e os barcos, ia até o litoral, em cidades como Cananéia. Por isso, ficou conhecido como Edu “das Águas”.

 

            A amizade entre os dois surgiu na década de 1990. Edu estava dentro do carro, parado, num congestionamento na Marginal Tietê, avenida grudada ao rio. Parou então para pensar: “Por que vou até o litoral para pintar se tenho um rio aqui perto de casa?”.

 

            Decidiu então levar o assunto a sério. Até visitou a nascente do rio Tietê, em Salesópolis. Também percebeu que o seu novo amigo tinha muitos problemas.

 

Um deles são as inundações. Elas transmitem doenças e levam as pessoas a perderem casas, móveis e veículos. O trânsito em São Paulo também fica um inferno.

           

            Edu viu, com alegria, que, em 1995, o Governo do Estado de São Paulo conseguiu, com o Japan Bank for International Cooperation (JBIC), um financiamento para dar início às obras necessárias para o combate às enchentes.

 

Com esse dinheiro, foi aprofundado o leito do rio. Também foram retirados o acúmulo de areia, entulho, e pedras do fundo do Tietê. Com essa limpeza, as águas das fortes chuvas, principalmente no verão, são levadas pelo rio e ele não transborda.

 

Explosivos, perfuração subaquática e dragagem foram alguns dos recursos utilizados para combater o problema. Edu acompanhou tudo isso com suas pinturas e desenhos. Viu e pintou como os operários e suas máquinas revestiram as margens de concreto para evitar que a terra continuasse caindo no rio.

 

Mas Edu sabe que nem todos os problemas foram resolvidos. O seu amigo Tietê recebe muita areia e argila em cada chuva. Se isso não for retirado, o rio ficará muito sujo de novo – e pode transbordar.

 

            Edu também lamenta que o Tietê receba parte do esgoto da cidade de São Paulo. O lixo acumulado agrava o problema. São 12 toneladas de pneus, garrafas, embalagens e pedaços de móveis que o seu amigo recebe todo dia! 

 

Felizmente, além de Edu das Águas, o rio Tietê tem muitos amigos. Edu acompanhou, em 1991, a criação do Núcleo Pró-Tietê (formado pela Fundação SOS Mata Atlântica junto à Rádio Eldorado). Começou assim o Projeto de Despoluição do rio Tietê, comandado pela Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp).

 

O objetivo desses amigos é despoluir o rio. Em 1995, graças a um financiamento do  Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID, o governo do Estado começou as obras. Foi possível construir cinco Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) e se espera, até 2007, realizar 150 mil ligações de esgoto, além de tornar a Estação de Barueri será uma das maiores do mundo.

 

             Edu transformou todas essas obras, praticamente terminadas, em belas imagens. Para entender melhor o que estava acontecendo, levava cavalete, tintas, tela, papel, pincéis, lanche, rádio, fitas K7, máquina fotográfica, chapéu e botas para as margens do Tietê e os pilares das pontes.

 

Para conhecer melhor o novo amigo, Edu ficava pintando à beira do Tietê. Em busca de novas visões do rio, Edu ganhou um pequeno bote cedido pelo pessoal da ONG Mata Atlântica, gentileza de Mario Mantovani e de Samuel. Podia assim parar no meio do rio ou ficar perto dos pilares de concreto.

 

Ele teve também que comprar uma máscara para suportar o mau cheiro e um motor para ganhar velocidade na movimentação. Depois, foi necessário um motorista, que o ajudava a carregar o bote e o material de pintura .

 

Edu apareceu em jornais e na televisão, deu palestras em várias cidades, mas percebeu que estava ficando cada vez mais longe do que mais gostava de fazer: pintar o seu amigo rio.

 

Decidiu então voltar com o cavalete às margens do Tietê. Um dia, quis fotografar um belo pôr-do-sol e, em busca da melhor posição, colocou um pé na embarcação e outro no cais.

 

Quando percebeu, o bote começou a escorregar. Edu teve tempo apenas de jogar a máquina na embarcação antes de cair na água imunda. Raspou toda a perna e foi retirado às pressas pelo Corpo de Bombeiros. Felizmente não se machucou nem pegou uma doença.

 

Quanto mais ficava amigo do rio, mais Edu percebia aspectos interessantes. Passou a pintar alguns deles.

 

            Um dos mais bonitos é o pôr-do-sol. É um momento cheio de cores, em que dá para pensar no que foi feito durante o dia que está terminando.

 

            Ele pintou também as árvores que ficavam em volta dele enquanto pintava.

 

            Adorou ainda retratar os lugares onde os trabalhadores descansavam, dormiam e comiam enquanto ajudavam a limpar o rio.

 

Edu também viu flores desabrochando às margens do Tietê.

 

Isso sem esquecer os barcos e barcaças que levavam máquinas e operários de um lado para outro do rio.

 

            Os próprios trabalhadores, cada qual com sua função, foram desenhados por Edu.

 

Ele pintou ainda as 12 pontes que cruzam o rio. Percebeu que elas têm personalidade própria, com jeitos próprios de ser.

 

            Há ainda os rebocadores. Pequenos, robustos e muito potentes, empurram grandes embarcações.

 

Ele não esqueceu a Várzea do Tietê. Fica próxima à barragem da Penha. A água, represada, cria uma área belíssima, onde fica o Parque Ecológico do Tietê. Há ali diversas ilhas, com muitos animais, como macacos, gambás e aves.

 

Ao todo, Edu fez mais de 400 quadros e desenhos, em mais de 12 anos, do rio. Ele mostra o amigo de um jeito muito carinhoso e pessoal. Revela a beleza do local e as obras que permitirão que ele seja uma atração turística da cidade de São Paulo, como seus irmãos europeus, os rios Tâmisa, em Londres, e o Sena, em Paris.

           

            Parte dos sonhos de Edu das Águas ao pintar o Tietê vem se tornando realidade. Hoje é possível navegar no trecho do rio Tietê que passa por São Paulo. O Almirante do Lago, barco de dois andares, leva pessoas que querem conhecer um pouco de um rio que vai recuperando a vida.

 

Hoje, com alegria, Edu está vendo renascer do rio e participa dessas viagens. Durante o trajeto, realiza esboços e pinta pequenos quadros, que são sorteados entre os passageiros. Ele também conta para as crianças a sua linda amizade com o rio.

 

Assim, Edu continua pintando o Tietê. Leva para a tela um pouco do que vê e do que imagina. Com os seus companheiros de viagem, divide as imagens do passado, do presente e do futuro do Tietê.

 

A amizade entre Edu das Águas e o rio Tietê vai durar para sempre.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

 

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