por Oscar D'Ambrosio


 

 


O perigoso vale-tudo da pós-modernidade

 

            A expressão pós-modernidade é utilizada, livremente, com numerosos sentidos, pelas mais diferentes áreas do conhecimento como uma espécie de solução mágica para decifrar o mundo em que vivemos. Com essa preocupação, o professor de História Moderna da USP Nicolau Sevcenko, no artigo  “O enigma pós-moderno”, de Nicolau Sevcenko, publicado em Pós-modernidade, reflete sobre o significado do termo.1

            Inicia seu artigo considerando-o uma “atitude nascida do espanto, do desencanto, da amargura aflitiva, que procura se reconstruir em seguida como uma alternativa parcial, desprendida do sonho, de arrogância, de unidade e poder ...” (página 45). O desencanto maior estaria com os sonhos do pós-guerra que arte, técnica e vida poderiam caminhar em harmonia.

            A utopia imaginada por parte das vanguardas do início do século passado seria a de uma sociedade em que a razão, a técnica e a arte convivessem sem conflitos. O mundo, no entanto, negou essa possibilidade. Aquilo que parecia se anunciar como um caminho de redenção tornou-se um sofrimento eterno, uma instabilidade permanente.

            Se as vanguardas anunciavam um mundo novo, tiveram que se conformar, após os dois grandes conflitos mundiais, com uma arte dirigida pelos governos vitoriosos nos conflitos armados, como o expressionismo abstrato, nos EUA, e o realismo socialista, na URSS, e uma ditadura das galerias de arte norte-americanas e, por tabela, européias, comprometidas com a lógica capitalista de produção e de venda.

            Valores como transcendência, verdade, razão e belo defendidos pelas vanguardas, como aponta Sevcenko, fracassaram. Isso se torna ainda mais assustador para o artista do pós-guerra quando se lembra que as vanguardas ocorrem num espectro que vai do fascismo ligado ao Futurismo ao anarquismo próximo ao Dadaísmo.

            O fracasso de todas essas posturas, que incluem a força do expressionismo ou a proposta programática do surrealismo, teria conduzido a um novo momento em que há inúmeras vertentes, nenhuma delas coesa o suficiente para se instalar com força ou para produzir um trabalho que seja aceito pelas outras vertentes.

            Se os EUA, após o “boom” do expressionismo abstrato da Guerra Fria, mergulha no conceito dos elos entre a arte e a cibernética e a informática, há aqueles que concebem o pós-modernismo como a negação total das vanguardas, a pasteurização daquelas tendências ou ainda a proposta de “práticas culturais alternativas” (página 53), vinculadas ao pacifismo, ecologia, feminismo e liberação sexual.

            Sevcenko considera  pós-moderno como um universo marcado pela “ambigüidade” (página 54). Sua proposta seria “a prudência como método, a ironia como crítica, o fragmento como base e o descontínuo como limite” (idem). A grande questão é se a prudência, a ironia, o fragmento e o descontínuo podem, de fato, produzir uma obra significativa.

            O autor imagina o pós-moderno marcado pelo pequeno, incompleto e múltiplo, mas, muitas vezes, o que se vê em artistas que se atribuem o rótulo de pós-moderno é uma prática bem distante desse ideal, com uma postura que os leva a produzir trabalhos grandes, pretensiosos e originais.

Há, em muitos casos, uma ausência total de humildade num pensamento de que a arte começa e termina com eles. Se, em tese, o pós-moderno teria essa irmandade com tudo que é intransitório, muitos artistas não foram avisados, adotando uma empáfia no discurso e uma prática em que são repetidas experiências antigas sem a somatória de novos e questionadores recursos.

Sevcenko vê a pós-modernidade como um “castelo de areia” (página 55). Ele estaria ligado a valores como fragilidade, inconsistência e provisoriedade, atributos, convém ressaltar, próprios do ser humano. Em trabalhos recentes de artistas nacionais, como Nuno Ramos, tal objetivo foi alcançado em diversas oportunidades, principalmente em relação à impermanência.

No entanto, boa parte da arte mostrada nas galerias – inclusive nas que se anunciam como abertas a novas idéias – mantém uma postura bastante altiva e não aceitam muitas críticas ao trabalho, considerado geralmente como algo próximo ao definitivo, bem distante do conceito que Sevcenko enuncia.

De fato, embora o conceito de pós-moderno esteja claramente explicitado, a prática dos artistas contemporâneos, na maioria dos casos, é outra. Talvez por isso o rótulo de pós-modernos não lhes caiba bem – pena que muitos deles não saibam disso e nem pareçam estar minimamente interessados em discutir a questão.

Outro risco do raciocínio de Sevcenko é que a sua ênfase em valores transitórios dentro do pós-modernismo pode levar a um certo espírito de vale-tudo, que se faz muito presente  no atual universo das artes plásticas. Já que as definições se tornam frágeis e sem limites rígidos, o mesmo poderia acontecer com a produção estética.

Sob a “desculpa”, às vezes muito bem fundamentada em termos teóricos, de que se vive uma época de transição, são produzidas obras, em diversas ocasiões, de valor plástico até duvidoso, ou seja sem um pensamento criativo que as sustente. Sob o signo do impermanente, há a possibilidade de se justificar tudo. E isso não é bom nem para a arte nem para a cultura.

Um momento de questionamento de valores é de grande riqueza, desde que seja aprofundado e, se for o caso, levado às últimas conseqüências, num exercício pleno de verificar quais valores da modernidade e das vanguardas se extinguiram ou se fazem presentes, talvez sob novas formas, na contemporaneidade.

Responder esse desafio constitui a melhor maneira de evitar o certo vale-tudo que caracteriza boa parte da produção atual.  Um momento sem fronteiras claramente definidas tem como ponto positivo a multiplicidade de escolhas – e também a multiplicação de lugares-comuns e de pretensas novidades.

Cabe ao observador estar atento para não confundir a pós-modernidade defendida por Sevcenko como um universo sem limites, em que se corre o perigoso risco de produzir muito e sem critério em nome de que toda manifestação é válida. Quanto à produção, concordo inteiramente, já quanto à decisão de mostrar o que é feito e colocá-lo num patamar de importância, é preciso ter muito cuidado e redobrada atenção para que não se compre como novo algo apenas requentado no exterior ou mesmo em momentos passados da arte brasileira.

 

                [1] Este texto é uma reflexão a partir do artigo “O enigma pós-moderno”, de Nicolau Sevcenko, publicado em Pós-modernidade, Editora da Unicamp. As páginas citadas são referentes à terceira edição, de 1990.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes Visuais da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA – Seção Brasil).

 

 

 



 

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