por Oscar D'Ambrosio


 

 


O país da cor

 

            As cores podem ser consideradam apenas um fenômeno óptico, mas revelam em si mesmas uma gama de possibilidades visuais que as levam a ser objetos de reflexão constante de artistas plásticos, designers e arquitetos, que se valem delas para originar, via harmonia ou dissonância, reações na percepção humana que, de uma forma ou de outra, não deixam o espectador passivo.

Nesta exposição do grupo Kromacrea (em grego, “criar com a cor”), em São Paulo, SP, Brasil, em 2008, os artistas exploram distintas formas de gerar efeitos a partir do espectro cromático. Dão, assim, vida à cor, realizando imagens abstratas, geométricas e figurativas. Mesclam técnicas variadas e ricas em significado, mostrando que, além das fronteiras geográficas, existe um grande país: o da cor

 

            Amelia Ferrari

As formas orgânicas, que remetem à natureza e a corpos, assumem uma surpreendente sexualidade nesta artista, mostrando como o uso da cor pode despertar os mais variados sentidos. Saber como trabalhar com essas diversas conotações é o resultado de um processo constante de aprimoramento, que a pintura, em seu sentido primordial, pode ser considerada justamente a forma como cada criador lida com os desafios que a técnica lhe apresenta.

 

            Arianna Tramontano

            Ao trabalhar o corpo humano sobre um fundo colorido, a artista mostra o domínio da arte figurativa e a coloca no contexto contemporâneo como uma forma poética de trabalhar os fundos. Consegue assim mostrar como é possível gerar um dinamismo visual caracterizado pela presença da cor e pela sua exploração num contexto que apenas aparentemente pode parecer mais conservador. É nesse diálogo entre o saber fazer e o sentir que sua obra se sustenta.

 

Carmelo D’Andrea

            A iluminação é o grande elemento motivador da obra plástica desse artista. As suas imagens  evocam não apenas uma pesquisa no que diz respeito às possibilidades da cor no sentido de gerar estados da alma, mas, principalmente, estabelecem um universo lírico em que  surgem as mais variadas conotações, nas quais vida e morte se aproximam como duas facetas do existir. Os caminhos da cor são veredas de uma investigação sobre o próprio ato de criar.    

 

Delya Dattilo

            Há muito vigor na forma desta artista lidar com as imagens. Elas surgem definidas como filhos que nascem prontos para enfrentar os mais variados inconvenientes sem se incomodar com eles. Existe em cada obra um pensamento visível na maneira que as composições são articuladas, sempre em busca de soluções que não sejam fáceis, mas fruto de um amadurecimento da maneira de trabalhar com a arte como resposta plástica a indagações propiciadas pelo ato do convívio com os materiais.  

 

            Domenico Corrado

            O artista apresenta uma técnica apurada e uma facilidade assombrosa na criação dos mais variados ambientes. Suas visões são marcadas pelo jogo entre azuis e amarelos estabelecendo uma atmosfera na qual a poesia se faz presente em cada traço. Os conjuntos transmitem um clima onde a cor reina absoluta. A forma de fazer, com extrema delicadeza e cuidado, torna-se, sem dúvida, mais importante do que a imagem representada em si mesma.

 

Elena Isolani

            Ocorre aqui um sutil casamento entre a cor e as formas orgânicas. A natureza oferece padrões de riqueza esplendorosa, mas é necessário ter um olhar treinado para transformar o que existe num universo de pesquisa plástica. Isso significa desenvolver uma maneira de observar o entorno sem que nada passe despercebido, que cada imagem, acrescida pela cor e suas múltiplas variações, pode levar a resultados surpreendentes e de grande impacto visual, afetivo e emocional.

 

            Fabiola Barna

            A pesquisa com texturas e pinceladas foi transformando a obra desta artista numa conversa constante entre o mundo que ela gostaria de ver e aquele que ela contempla. Surge dessa dicotomia uma expressão marcada pela coloração geralmente em tons quentes. Sua composição aponta para uma intensa gestualidade e para uma forma de pintar em que a intuição e a espiritualidade, acompanhadas pela técnica, atingem grande expressividade.        

 

Florentina Resende

            A artista tem plena consciência de que pesquisar e dominar a cor é muito mais que um exercício. Trata-se de um ato que leva ao conhecimento de si mesmo e, principalmente, a desvendar novas veredas que a justaposição das cores ou as passagens que elas propiciam permitem. Suas obras não necessitam de um referencial concreto, pois a principal qualidade reside justamente na maneira de construir estruturas graças a sutis jogos de transparências e criativas composições visuais

 

            Francisco Urbano

            A pintura de um criador pode ser reconhecível por diversos aspectos, como o assunto, a pincelada, a cor ou a atmosfera obtida em cada trabalho. Neste artista, há uma curiosa e rica combinação de elementos. A síntese deles está na habilidade de transformar cada obra num particular realismo fantástico, no sentido de instaurar um universo plástico que se basta em si mesmo. Ele parece ser um mundo à parte justamente pelo esmerado processo técnico presente em cada composição.  

 

Giancarlo Baraldo

            Quando se decide ter a cor como fundamento de uma trajetória visual, é preciso considerar seriamente a capacidade de enfrentar o desafio de trabalhar com apenas uma ou duas delas sobre uma tela. A pesquisa deste artista passa pela preocupação de retirar do universo da pigmentação o máximo que ele pode oferecer. Trata-se de uma jornada com mais perguntas que respostas e mais incertezas do que certezas. Cada investigação leva a um caminho sem volta de aproximações e contrastes visuais.

 

José Cunha

            O trabalho com elementos geométricos pode ser confundido com frieza na construção visual. Há uma armadilha que se instaura quando se pensa a potencialidade, por exemplo, de diversos pequenos quadrados. Pode-se imaginar que eles limitam a criatividade, quando, de fato, oferecem a chance de utilizar o diálogo de elementos para gerar jogos cromáticos em que a sensação é a forma de instaurar mundos em que o equilíbrio percorre com sutil habilidade a fronteira com o caos

 

José Miguens

            Os caminhos deste artista oscilam entre o uso de diversos recursos, como técnicas mistas, que incluem a colagem, e a predominância de colorações fortes, como os vermelhos, amarelos e laranjas. O uso de transparências e a exploração do espaço da tela funcionam como uma espécie de campo de combate no qual tudo é possível desde que ocorra com critério, trazendo à tona um trabalho que envolve o público pela forte carga emocional que comporta.             

 

            Lili Vilela

            A retomada nos últimos anos de pesquisa sobre a potencialidade do corpo humano enquanto objeto estético marca a poética desta artista. As cores que utiliza possibilitam uma reflexão simbólica sobre a origem e o fim de todos nós, a terra. Seu gosto pelos movimentos circulares também comporta uma interpretação alegórica, na qual o movimento ganha uma importância fundamental tanto no aspecto visual como pelas conotações que o conceito do eterno retorno comporta.

 

Lorenzo Basile

            A intensidade cromática é a principal característica da pintura de um artista voltado para uma pesquisa que se vale de áreas delimitadas, muitas vezes em curvas, onde a forma de lidar com as nuanças e justaposições é o principal atrativo plástico. A alegria de viver se faz presente em cada detalhe pela forma como ocorre a colocação dessas cores e como elas estabelecem conversas visuais em que a pesquisa se faz sentir a cada nova pincelada.       

 

Luigi Latino

            Para muitos, a arte é um mistério. Ele aumenta quando se escolhe trabalhar com a cor como principal força de expressão. Saber lidar com os negros, cinzas e vermelhos exige um mergulho no poder de cada composição de transmitir algo diretamente ao público com a força da visualidade, sem a intermediação da palavra. O poder da pintura de Luigi está na força da composição e na dramaticidade das relações estabelecidas entre os elementos de cada imagem que gera.

 

Marco Ciarciaglino

            A multiplicidade de percursos que a cor oferece pontua o pensamento e as obras deste artista. Talvez o seu maior mérito esteja na capacidade de explorar potencialidades no sentido de trabalhar com o cromatismo como elemento instaurador de uma poética que exige contínuo desenvolvimento técnico. Aproximações e distanciamentos de diversas tonalidades constituem um elemento fundamental para atingir os efeitos desejados no olho e na mente do observador.

           

Maria Rafael

            A obra desta artista é visceral. Sua produção consegue, num intenso jogo de transparências, trabalhar a questão da existência humana e da sua transcendência pelo uso geralmente de tons que indicam uma postura intensa perante a vida. Sua arte surge repleta de compromisso com a vida, não como um mero exercício visual. Cada criação alerta para a nossa dimensão humana e para a conseqüente brevidade do ser, do existir e do amar.        

 

            Monica Lume

            O estudo da potencialidade de uma cor é um dos fundamentos das artes plásticas. Perante uma escala cromática, existem variações tão grandes, que somente um artista plástico experiente consegue mergulhar nesse universo sem se perder. Os trabalhos desta artista surgem com plena força, com espírito indomável, em que traços e grafismos alcançam grande inquietação, geralmente melhor perceptível numa observação mais apurada.

 

Paolo Vitale

            A interferência da cor nas imagens é a maneira como o artista estabelece sua poética. O lidar com manchas e o uso de cores, seja mais ou menos intenso de acordo com o que julga mais adequado, torna o seu trabalho uma experimentação contínua, numa linha de raciocínio em que uma mera paisagem ganha dimensões conotativas de proporções dramáticas e consegue fazer críticas plasticamente sutis ao caminhar muitas vezes desvairado da sociedade contemporânea.

 

Paula França

            O universo do abstrato propicia atuar com diversos elementos, como a cor, a linha e a forma. Eles costumam se articular no desenvolvimento de uma pesquisa visual. A questão discutida em cada uma de suas telas é a da ocupação do espaço como maneira de solucionar um conflito essencial: como a artista pode vencer a barreira entre aquilo que deseja  produzir e o que de fato realiza. No seu caso específico, ela se vale de uma linguagem que privilegia o dinamismo como forma de conhecimento do mundo.

 

            Paula Navarro

            Uma forma diferente de ver a figura humana diferencia o trabalho desta artista. Ela se vale de poses consagradas na história da arte, mas as coloca numa nova dimensão. O corpo é visto como a casa da cor, perdendo a sua dimensão carnal e se transformando, com sabedoria, em objeto plástico a ser desvendado enquanto espaço em que as possibilidades se tornam infinitas. Ocorre, assim, a valorização do ser humano enquanto reduto da beleza física e da capacidade visual de criar infinitamente.

 

Ricardo Passos

Um quadro pintado com talento gera diversos caminhos de interpretação. A mais fácil geralmente é concentrar a atenção nas imagens e discutir o que elas representam. A mais apropriada, no entanto, para trabalhos como o deste artista, é verificar como as cores e o jogo com a luminosidade instauram um universo de emoções. Suas figuras femininas, que desafiam a magreza e a beleza convencionais, são uma prova de como a criação plástica apurada pode estar ao lado da crítica à futilidade da sociedade.

 

            Riitta Johnson

O elevado impacto que estas obras provocam deve-se a uma combinação diferenciada entre a busca da melhor maneira de realizar o trabalho e a consecução propriamente dita. No percurso entre aquilo que se pensa e o que efetivamente se faz, é fácil perder o caminho. Esta artista supera essas inquietações em obras em que a luz tem um papel fundamental. Seja nos contrastes ou nas construções mais delicadas, atinge um mesmo e significativo resultado, gerando impressões marcantes e difíceis de esquecer.

 

Rose Canazzaro

A cor pode ser muito mais que um recurso artístico. Ela tem o potencial de estabelecer entre criador e observador um elo. Seja numa visão mais delicada ou no estímulo de confrontos visuais, essa comunicação desperta emoções. Os trabalhos desta artista propiciam justamente o hibridismo entre o contraste e a harmonização. Suas obras têm  cores vivas que falam entre si para anunciar que o ser humano, em suas mais variadas manifestações, deve questionar sempre os limites do próprio talento

 

Teresa Rebelo

            O poder da cor é tamanho que pode explodir nas telas, destruindo áreas e gerando impressões fortes no receptor de cada imagem. É pelo uso de variações cromáticas e pela dinâmica da pincelada que a artista realiza, com sua sensibilidade e técnica um depoimento pessoal de sua interação com o mundo. Ao se expressar pelas tintas, constrói uma relação com si mesma e com a sociedade, que a arte se dá nas frestas entre aquilo que se deseja e o que se consegue fazer.   

 

            Teresa Susy Manso

            A mescla de elementos sensuais, místicos, sagrados e profanos  dá ao trabalho plástico dessa artista uma dimensão mágica. As imagens que cria lidam com as diversas maneiras de relacionar cores distintas, seja pelo diálogo entre figura e fundo ou pela capacidade de criar uma atmosfera de mistério. O segredo de sua pintura está em proporcionar uma arte em que a imagem figurativa pode ser o ponto de partida para uma interpretação colorística do mundo.   

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

 



 

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