por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

O mundo rupestre de Siron Franco

 

            Cada vez que somos confrontados com o mundo da arte rupestre, temos que parar para refletir sobre a magnitude desses trabalhos. Não se trata apenas de uma preocupação arqueológica ou simbólica. Ali está, acima de tudo, o depoimento de um período da história. 

            O artista goiano Siron Franco, visceral em tudo o que faz e pensa, mostra, em sua série de serigrafias Rupestres, exibida no Metrô Imigrantes, de 12 a 31 de julho, em São Paulo, SP, visões muito pessoais de imagens pré-históricas sobre rochas das Serra da Capivara, no Sudoeste do Piauí, e de outros sítios arqueológicos brasileiros.

            O maior atrativo do conjunto é a forma como Siron pára o tempo para reler as inscrições na pedra. Ele não se acomoda na reprodução, mas interfere com a cor, com a forma e, acima de tudo, com um pensamento que vê nas forças primeiras do ser humano o motor da produção artística.

            É nesses primeiros trabalhos pictóricos brasileiros que está certamente a alma que tanto se procura do país. Muito se fala e se escreve sobre uma pretensa identidade nacional, mas são pouco estudadas as inscrições mais antigas do Brasil, já que os olhos dos teóricos da história da arte parecem sempre preferir as cavernas de Lascoux e de Altamira.

            Nada contra o mundo europeu, mas investigar a alma brasileira parece um dever plástico. Siron Franco mergulha nesse universo primordial de maneira acurada. Sua arte é justamente a de um artista que literalmente coloca as mãos na tinta e a imprime sobre a tela, num exercício que mostra como o fazer e o pensar não se distanciam.

            Ao realizar os seus recortes, estabelecer os seus fundos e se valer da serigrafia como expressão plástica, Siron Franco parece alertar que o imaginário que enxerga nas pinturas rupestres é muito próximo do seu. A analogia está na capacidade de visualização de um suporte, seja uma parede, uma tela ou o papel.

            O criador goiano se apropria da arte rupestre brasileira, que apresenta tanto motivos geométricos, com formas não representativas de objetos do mundo real, constituídas de pontos, traços e círculos em diferentes tamanhos e combinações, como figurativos, em que são retratadas pessoas, animais, árvores e objetos reconhecíveis.

            Quando seleciona uma imagem ou um conjunto delas, Siron Franco gera um  fascinante e complexo processo de repensar o passado e o presente com imagens contemporâneas que obrigam a refletir sobre o que é a arte e como ela expressa visões diferenciadas e complexas de mundo, num diálogo entre a linguagem própria e a alheia, entre as técnicas do presente e as manifestações mais antigas da arte brasileira.

                     

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 



 

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