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O mundo rupestre de Siron
Franco
Cada vez que
somos confrontados com o mundo da arte rupestre, temos que parar para
refletir sobre a magnitude desses trabalhos. Não se trata apenas de uma
preocupação arqueológica ou simbólica. Ali está, acima de tudo, o
depoimento de um período da história.
O artista goiano
Siron Franco, visceral em tudo o que faz e pensa, mostra, em sua série de
serigrafias Rupestres, exibida no Metrô Imigrantes, de 12 a 31 de
julho, em São Paulo, SP, visões muito pessoais de imagens pré-históricas
sobre rochas das Serra da Capivara, no Sudoeste do Piauí, e de outros
sítios arqueológicos brasileiros.
O maior atrativo
do conjunto é a forma como Siron pára o tempo para reler as inscrições na
pedra. Ele não se acomoda na reprodução, mas interfere com a cor, com a
forma e, acima de tudo, com um pensamento que vê nas forças primeiras do
ser humano o motor da produção artística.
É nesses
primeiros trabalhos pictóricos brasileiros que está certamente a alma que
tanto se procura do país. Muito se fala e se escreve sobre uma pretensa
identidade nacional, mas são pouco estudadas as inscrições mais antigas do
Brasil, já que os olhos dos teóricos da história da arte parecem sempre
preferir as cavernas de Lascoux e de Altamira.
Nada contra o
mundo europeu, mas investigar a alma brasileira parece um dever plástico.
Siron Franco mergulha nesse universo primordial de maneira acurada. Sua
arte é justamente a de um artista que literalmente coloca as mãos na tinta
e a imprime sobre a tela, num exercício que mostra como o fazer e o pensar
não se distanciam.
Ao realizar os
seus recortes, estabelecer os seus fundos e se valer da serigrafia como
expressão plástica, Siron Franco parece alertar que o imaginário que
enxerga nas pinturas rupestres é muito próximo do seu. A analogia está na
capacidade de visualização de um suporte, seja uma parede, uma tela ou o
papel.
O criador goiano
se apropria da arte rupestre brasileira, que apresenta tanto motivos
geométricos, com formas não representativas de objetos do mundo real,
constituídas de pontos, traços e círculos em diferentes tamanhos e
combinações, como figurativos, em que são retratadas pessoas, animais,
árvores e objetos reconhecíveis.
Quando seleciona
uma imagem ou um conjunto delas, Siron Franco gera um fascinante e
complexo processo de repensar o passado e o presente com imagens
contemporâneas que obrigam a refletir sobre o que é a arte e como ela
expressa visões diferenciadas e complexas de mundo, num diálogo entre a
linguagem própria e a alheia, entre as técnicas do presente e as
manifestações mais antigas da arte brasileira.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes
da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-
Seção Brasil).
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