por Oscar D'Ambrosio


 

 


O multimídia Leonardo da Vinci

 

           Todo assunto, por mais conhecido e tratado que seja, sempre oferece novas abordagens. É o que ocorre com Leonardo da Vinci, um homem multimídia que passou a sua infância em Vinci, no interior da Toscana, território que pertenceu aos etruscos. Sua obra possibilita um decálogo de reflexões, que colocam a vida e a obra multifacetada do artista italiano em diversas perspectivas, marcadas pelas pontes entre aquilo que o artista pensou, fez e planejou e suas relações com o tempo presente. A partir de cada uma delas, é possível realizar um elo com a multiplicidade contemporânea.

 

            1. A DIVISÃO ENTRE ARTE E CIÊNCIA

            Pintor, arquiteto, engenheiro, cientista, músico e escultor do Renascimento italiano, Leonardo di ser Piero da Vinci (Anchiano, 15 de abril de 1452 — Cloux, Amboise, 2 de maio de 1519) é considerado um dos maiores gênios da história da Humanidade. Uma possibilidade de explicação é que, ao contrário do mundo moderno, marcado por especialistas em especialidades, ele tinha, como uma de suas características, a busca do saber nas mais variadas áreas, não vendo sentido na divisão, por exemplo entre arte e ciência.

 

            2. A CRENÇA NO PODER DO HOMEM

            Acredita-se que Leonardo tenha recebido, pelo menos, duas grandes influências em sua vida: Lourenço de Médici e o artista Andrea del Verrocchio. Ao contrário do homem medieval, que via em Deus o centro de tudo, Leonardo acreditava no poder humano de criar, conservar e destruir o mundo e tudo o que nele existe. Esse pensamento o levou a ser um dos principais expoentes de um período que propiciou um inegável progresso nas artes, nas leis e nas ciências.

 

            3. A ARTE COM SOPRO DE VIDA

            Lourenço de Médici, humanista e divulgador desse pensamento, foi, ao que se sabe, uma influência importante sobre Leonardo para que quadros, como o afresco A última ceia, pintado diretamente no refeitório da Igreja Santa Maria delle Grazie, em Milão, fossem mais parlanti, ou seja, com maior animação gestual. Isso o levou a se tornar mestre nesta arte. Além da técnica do artista, há nesses personagens vida. Não se trata apenas de virtuosismo, mas de talento aliado à alma.

 

            4. O CONTATO COM OS MESTRES

            Em 1468, com dezesseis anos, Leonardo mudou-se para Florença, onde iniciou seu aprendizado no ateliê de Verrocchio. O artista ensinou-lhe uma base técnica que o ajudaria a ser um grande pintor. Ele também aprendeu escultura, arquitetura, óptica, perspectiva, música e botânica. Conta-se que o mestre decidiu parar de pintar ao ver um dos anjos que Leonardo o ajudara a fazer para um de seus quadros. É a idéia do trabalho coletivo em ateliê, mal vista a partir do romantismo. Não se pode ainda deixar de lado a capacidade do discípulo de compartilhar sua obra com um mestre e, depois, tornar-se independente dele. Ter um mestre, portanto, não é sinônimo de perda de liberdade, mas de constituição de uma base para poder voar sozinho. 

 

            5. OS TRABALHOS POR ENCOMENDA

            Leonardo da Vinci ganhou a maior parte do seu dinheiro trabalhando para nobres italianos, como Ludovico Sforza, o Duque de Milão. Em Florença, ficou a serviço de César Bórgia, filho do Papa Alexandre VI, atuando como arquiteto militar e engenheiro. Em 1516 era empregado de Francisco I como primeiro pintor, engenheiro e arquiteto. Uma questão a refletir é que aceitar encomendas não constitui pecado, mas uma forma de sobrevivência, desde que feita com honestidade intelectual e competência.    

 

            6. PLANEJAR É TÃO IMPORTANTE QUANTO FAZER

            Leonardo planejou freqüentemente pinturas grandiosas com muitos desenhos e esboços, deixando muitos projetos inacabados. Chegaram até nós apenas 17 pinturas e nenhuma estátua. Quanto ao célebre Grande Cavalo, uma estátua semelhante foi feita em Nova York em 1999 e doada a Milão, sendo erguida no hipódromo de San Siro, enquanto o Museu de Caça em Limerick, na Irlanda tem um cavalo de bronze pequeno, possivelmente feito por um aprendiz. Em 1502, Leonardo produziu um desenho de uma ponte como parte de um projeto de engenharia civil para o Sultão Beyazid II de Constantinopla. Ela nunca foi construída, mas a visão de Leonardo foi reaproveitada em 2001 quando uma ponte menor, baseada no projeto dele, foi construída na Noruega. Em síntese, torna-se essencial realizar muitos esboços para depurar a própria concepção de cada um deles, rumo a um aproveitamento imediato ou bem posterior. De fato, é da quantidade e do empenho diário e constante que uma pesquisa visual e estética pode ser aprimorada.

 

            7. CADERNOS DE ANOTAÇÕES SÃO TRABALHOS

            Algo muito impressionante na vida de Leonardo são os seus estudos em ciências e as engenhosas criações, registrados em cadernos que atingem 13 mil páginas de notas e desenhos que fundem arte e ciência. É por isso que, para conhecer um artista, uma das melhores pistas é justamente o caderno de anotações e os desenhos. está a alma que fala, o gesto que comunica uma essência perante a arte e a vida.

 

            8. DEVOÇÃO PELO DETALHE

            Leonardo tentava entender os fenômenos e os descrevia com a extrema precisão. Fascinado pelo vôo,  produziu detalhado estudo do movimento dos pássaros e planos para várias máquinas voadoras. Desenhou protótipos, sendo o primeiro batizado Cisne voador. Há ainda um helicóptero, de 1510,  movimentado por quatro homens, e um planador. Embora contra o superficialismo, ele não se perdeu em experiências aleatórias ou explicações teóricas. Planejou até uma enciclopédia com desenhos detalhados, porém, como não dominava o latim e a matemática, enquanto cientista, era ignorado pelos estudiosos contemporâneos. Algo semelhante ocorre hoje, onde diplomas costumam valer mais do que o trabalho árduo. O notório saber é muitas vezes deixado de lado em função do convencionalismo e da mesmice decorada com títulos e quantificações de produção acadêmica, sem avaliação qualitativa adequada.

           

            9. AMOR PELA INVENÇÃO

Embora considerasse a guerra como a pior das atividades humanas, Leonardo, em seus cadernos, sob encomenda e dando asas ao seu poder de invenção, criou projetos no campo militar, como canhões, um tanque blindado movimentado por humanos ou cavalos e bombas de agrupamento. Outras invenções incluem um submarino e um dispositivo de engrenagem que foi interpretado como a primeira calculadora mecânica. Planejou ainda um uso industrial de poder solar, empregando espelhos côncavos para aquecer água, no que seria a primeira máquina a vapor. O que impressiona é a sua capacidade de estar sempre atento e em mutação, com novas idéias, combatendo a mesmice e a acomodação. Essa prática é louvável, ainda mais quando a escola parece cada vez mais formatar indivíduos para o mercado de trabalho, retirando a maior parte da potencialidade deles enquanto crianças. 

 

10. CRIATIVIDADE ACIMA DE TUDO

            Leonardo não publicou e nem distribuiu os conteúdos de seus cadernos, que permaneceram obscuros até o século XIX. Arquétipo do Homem do Renascimento, grande inventor, tinha a criatividade como lema, dando origem a invenções como salva-vidas, pára-quedas e bicicleta. Seu poder de estar à frente do tempo residia justamente em nunca ter perdido o poder de criar e estabelecer seus próprios paradigmas, algo que, certamente, como toda criança, fazia enquanto brincava em Vinci, onde deu seus primeiros passos, perdidos na história.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 



 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio