O
multimídia Leonardo da Vinci
Todo
assunto,
por
mais
conhecido e
tratado
que seja,
sempre oferece
novas
abordagens. É o
que ocorre
com Leonardo da Vinci,
um
homem
multimídia
que passou a
sua
infância
em Vinci, no
interior da Toscana,
território
que
já pertenceu aos
etruscos.
Sua
obra possibilita
um
decálogo de
reflexões,
que colocam a
vida e a
obra multifacetada do
artista italiano
em diversas
perspectivas, marcadas pelas
pontes
entre
aquilo
que o
artista pensou, fez e planejou e
suas
relações
com o
tempo
presente. A
partir de
cada uma delas, é
possível
realizar
um
elo
com a multiplicidade
contemporânea.
1. A
DIVISÃO
ENTRE
ARTE E
CIÊNCIA
Pintor,
arquiteto,
engenheiro,
cientista, músico e
escultor do
Renascimento
italiano, Leonardo
di ser Piero da Vinci (Anchiano,
15 de abril de
1452 —
Cloux,
Amboise,
2 de maio de
1519) é considerado um dos maiores gênios
da
história da
Humanidade. Uma possibilidade de
explicação é que, ao contrário do mundo moderno, marcado por especialistas
em especialidades, ele tinha, como uma de suas características, a busca do
saber nas mais variadas áreas, não vendo sentido na divisão, por exemplo
entre arte e ciência.
2. A
CRENÇA NO
PODER DO
HOMEM
Acredita-se
que Leonardo tenha recebido,
pelo
menos, duas
grandes
influências
em
sua
vida:
Lourenço de Médici e o
artista
Andrea
del
Verrocchio. Ao
contrário do
homem
medieval,
que
via
em
Deus o
centro de
tudo, Leonardo acreditava no
poder
humano de
criar,
conservar e
destruir o
mundo e
tudo o
que nele existe.
Esse
pensamento o levou a
ser
um dos
principais
expoentes de
um
período
que propiciou
um
inegável
progresso nas
artes, nas
leis e nas
ciências.
3. A
ARTE
COM
SOPRO DE
VIDA
Lourenço de Médici,
humanista e
divulgador desse
pensamento, foi, ao
que se sabe, uma
influência
importante
sobre Leonardo
para
que
quadros,
como o
afresco A
última
ceia,
pintado
diretamente no
refeitório da
Igreja
Santa Maria delle
Grazie,
em
Milão, fossem
mais parlanti,
ou seja,
com
maior
animação gestual.
Isso o levou a se
tornar
mestre nesta
arte.
Além da
técnica do
artista, há nesses
personagens
vida.
Não se
trata
apenas de
virtuosismo,
mas de
talento
aliado à
alma.
4. O
CONTATO
COM OS
MESTRES
Em
1468,
com dezesseis
anos, Leonardo mudou-se
para
Florença,
onde iniciou
seu
aprendizado no
ateliê de Verrocchio.
O artista ensinou-lhe uma base técnica que o ajudaria a ser um grande
pintor. Ele também aprendeu
escultura,
arquitetura,
óptica,
perspectiva,
música e
botânica. Conta-se que o mestre decidiu
parar de pintar ao ver um dos anjos que Leonardo o ajudara a fazer para um
de seus quadros. É a idéia do trabalho coletivo em ateliê, mal vista a
partir do romantismo. Não se pode ainda deixar de lado a capacidade do
discípulo de compartilhar sua obra com um mestre e, depois, tornar-se
independente dele. Ter um mestre, portanto, não é sinônimo de perda de
liberdade, mas de constituição de uma base para poder voar sozinho.
5. OS
TRABALHOS
POR
ENCOMENDA
Leonardo da Vinci ganhou a
maior
parte do
seu
dinheiro trabalhando
para
nobres italianos,
como
Ludovico
Sforza, o
Duque de
Milão.
Em Florença, ficou a
serviço de
César
Bórgia,
filho do
Papa Alexandre VI, atuando como arquiteto
militar e engenheiro. Em
1516 era empregado de Francisco I como
primeiro
pintor,
engenheiro e
arquiteto. Uma questão a refletir é que
aceitar encomendas não constitui pecado, mas uma forma de sobrevivência,
desde que feita com honestidade intelectual e competência.
6.
PLANEJAR É
TÃO
IMPORTANTE
QUANTO
FAZER
Leonardo planejou
freqüentemente
pinturas grandiosas
com
muitos
desenhos e
esboços, deixando
muitos
projetos
inacabados. Chegaram
até
nós
apenas 17
pinturas e nenhuma
estátua.
Quanto ao
célebre
Grande
Cavalo, uma
estátua
semelhante foi
feita
em
Nova York em 1999 e doada a Milão, sendo
erguida no
hipódromo de
San
Siro,
enquanto o Museu de Caça em Limerick, na
Irlanda tem um cavalo de bronze pequeno,
possivelmente feito por um aprendiz. Em 1502, Leonardo produziu um desenho
de uma ponte como parte de um projeto de engenharia civil para o
Sultão
Beyazid
II de
Constantinopla. Ela nunca foi construída,
mas a visão de Leonardo foi reaproveitada em 2001 quando uma ponte menor,
baseada no
projeto dele, foi construída na
Noruega. Em síntese, torna-se essencial
realizar muitos esboços para depurar a própria concepção de cada um deles,
rumo a um aproveitamento imediato ou bem posterior. De fato, é da
quantidade e do empenho diário e constante que uma pesquisa visual e
estética pode ser aprimorada.
7.
CADERNOS DE ANOTAÇÕES
SÃO
TRABALHOS
Algo
muito
impressionante na
vida de Leonardo
são os
seus
estudos
em
ciências e as engenhosas
criações, registrados
em
cadernos
que atingem 13
mil
páginas de
notas e
desenhos
que fundem
arte e
ciência. É
por
isso
que,
para
conhecer
um
artista, uma das
melhores
pistas é
justamente o
caderno de anotações e os
desenhos.
Lá está a
alma
que
fala, o
gesto
que comunica uma
essência
perante a
arte e a
vida.
8.
DEVOÇÃO
PELO
DETALHE
Leonardo tentava
entender os
fenômenos e os descrevia
com a
extrema
precisão. Fascinado
pelo
vôo, produziu detalhado
estudo do
movimento dos
pássaros e
planos
para várias
máquinas voadoras. Desenhou
protótipos, sendo o
primeiro
batizado
Cisne
voador. Há
ainda
um
helicóptero, de 1510, movimentado por
quatro homens, e um planador. Embora contra o superficialismo, ele não se
perdeu em experiências aleatórias ou explicações teóricas. Planejou até
uma
enciclopédia com desenhos detalhados,
porém, como não dominava o
latim e a
matemática, enquanto cientista, era
ignorado pelos estudiosos contemporâneos. Algo semelhante ocorre hoje,
onde diplomas costumam valer mais do que o trabalho árduo. O notório saber
é muitas vezes deixado de lado em função do convencionalismo e da mesmice
decorada com títulos e quantificações de produção acadêmica, sem avaliação
qualitativa adequada.
9.
AMOR
PELA
INVENÇÃO
Embora considerasse a
guerra
como a
pior das
atividades humanas, Leonardo,
em
seus
cadernos,
sob
encomenda e dando
asas ao
seu
poder de
invenção, criou
projetos no
campo
militar,
como
canhões,
um
tanque blindado
movimentado
por
humanos
ou
cavalos e
bombas de
agrupamento. Outras
invenções incluem
um
submarino e um dispositivo de engrenagem
que foi interpretado como a primeira
calculadora mecânica. Planejou ainda um
uso industrial de poder solar, empregando espelhos côncavos para aquecer
água, no que seria a primeira máquina a
vapor. O que impressiona é a sua capacidade de estar sempre atento e em
mutação, com novas idéias, combatendo a mesmice e a acomodação. Essa
prática é louvável, ainda mais quando a escola parece cada vez mais
formatar indivíduos para o mercado de trabalho, retirando a maior parte da
potencialidade deles enquanto crianças.
10.
CRIATIVIDADE
ACIMA DE
TUDO
Leonardo
não publicou e
nem distribuiu os
conteúdos de
seus
cadernos,
que permaneceram
obscuros
até o
século XIX. Arquétipo do Homem do
Renascimento, grande inventor, tinha a
criatividade como lema, dando origem a invenções como
salva-vidas,
pára-quedas e
bicicleta. Seu poder de estar à frente do
tempo residia justamente em nunca ter perdido o poder de criar e
estabelecer seus próprios paradigmas, algo que, certamente, como toda
criança, fazia enquanto brincava em Vinci, onde deu seus primeiros passos,
perdidos na história.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista e
mestre
em
Artes
Visuais
pelo
Instituto de
Artes da
Unesp, integra a
Associação
Internacional de
Críticos de
Arte (AICA-
Seção Brasil).