Provavelmente, você já ouviu
falar de peixes-agulha, arqueiro, boi, espada, galo, gato, lua,
martelo, morcego e porco, mas não do peixe-arlequim. É justamente
essa espécie que surge nas imagens criadas por Cláudio Funari, um
artista versátil na sua capacidade de criar seres e mundos imaginários.
Nascido
em 1948, ele trabalha, desde o final dos anos 1980, com o
peixe-arlequim, desenhos marcados pela cor intensa e por uma forma
geométrica que, em alguns momentos, indica o início de um caminho
para a abstração. São seres alegres que surgem em diversas posições
e combinações cromáticas.
É nas
cores quentes, nas nadadeiras imensas, que introduzem movimento às
imagens e nos fundos aquáticos, com a presença de ruínas da mítica
Atlântida ou de barcos naufragados que o trabalho de Funari, também
poeta e criador de alegorias para escola de samba ganha força.
Escultor
de imagens consagradas como a escultura de cavalos utilizada na
novela Ana Raio e Zé Trovão e restaurador da Catedral de Itajaí,
em Santa Catarina, além de criador de um Cristo na entrada da
cidade de Platina, interior de São Paulo, Funari tem no uso da cor
um elemento fundamental.
Funari,
quando criança, nas aulas de desenho, ao ouvir o nome de Portinari,
notou que o nome rimava com o do grande artista de Brodósqui. O que
poderia ser apenas um jogo sonoro, tornou-se uma escolha de vida,
uma jornada pelas tintas e por diversos materiais em busca de
resposta para as suas indagações.
As
escamas de cada peixe-arlequim ,com tratamento diferenciado,
ilustram bem o talento de Funari. Busca criar variações sobre
esses peixes com a mesma alegria que o arlequim, personagem cômico
da commedia dell’arte, aprontava as suas confusões,
envolvendo-se em confusões e levando recados que confunde
propositalmente ou em incontáveis trapalhadas.
As
nadadeiras alongadas e estilizadas dão a cada peixe uma vivacidade
que se torna quase uma personalidade. Há aqueles mais rígidos e
pomposos, enquanto outros se apresentam mais fugazes, leves e
delicados, constituindo partes da família criada pelas pinceladas
do mesmo criador.
Assim
como os peixes da natureza têm grande importância para o homem,
pois constituem uma enorme fonte de alimento, os peixes de Cláudio
Funari são um deleite para o espírito. Fluem com naturalidade
pelas paisagens marinhas que ele cria e se integram à nossa consciência,
alimentando o nosso imaginário.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto
de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a
Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil).