por Oscar D'Ambrosio


 

 


Mercado de arte

 

            Viabilidade de um comércio eletrônico de obras de arte: a percepção do mercado, trabalho de conclusão do curso (TCC) de Bacharelado em Artes do Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo, de Matheus Dacosta, sob orientação do docente Pelópidas Cypriano, traz à tona um tema fundamental: a inserção de jovens artistas no mercado, principalmente o paulistano.

A escolha e o desenvolvimento do assunto por si só já merecem elogios. As observações que serão feitas buscam justamente aprofundar o raciocínio em alguns aspectos, tendo em vista a continuidade do trabalho na direção apontada de criar um site para venda de obras de artistas jovens.

Uma questão importante é a capa do TCC. Não há informações sobre o crédito dela. Seria interessante apontar o autor e os motivos da escolha da imagem, que evoca alguns elementos simbolicamente relevantes, como os parafusos semi-abertos e a idéia da obra encaixotada com contraponto ao mundo virtual que Dacosta deseja explorar.

            A preocupação do trabalho apresentado de discutir formas de inserção do jovem no mercado de arte não menciona, por exemplo, um caminho alternativo bastante discutível, mas que merece discussão: a Casa da Xiclet, local que reúne algumas das maiores qualidades e dos principais defeitos do mercado de arte.

            Quanto ao fato de não ter sido feita a distinção entre os jovens artistas e os já inseridos no mercado, parece-me uma questão a ser melhor discutida, pois há diferenças imensas entre trabalhar com um criador com reputação reconhecida e um iniciante. Esse dado é fundamental principalmente para determinar o valor de um trabalho plástico.

Há variantes, como currículo, contatos e qualidade, que interferem – e muito – no processo de comercialização. Afinal, não são poucos os que compram muito mais pela assinatura do que pela configuração, expressão ou equilíbrio plástico propriamente dito.

            Quanto à inserção em salões mencionada, depende, em boa parte, cada vez mais, do futuro artista manter uma rede de contatos para saber onde eles ocorrem, quais são os principais e se vale a pena participar. Mostrar o trabalho às pessoas que geralmente participam das comissões julgadoras é também um caminho lícito, um pouco na linha do “diga-me com quem andas e te direi quem és”.

            A abordagem de galerias exige geralmente a montagem de um currículo. Este precisa estar recheado. Porém, se elas não abrem espaço, é difícil reunir elementos importantes. Além disso, o fato de algumas cobrarem taxas para expor não pode ser ignorado, infelizmente, como critério expositivo.

            Quem pode pagar, na atual conjuntura, tem mais possibilidades de expor. Essa é uma triste e real constatação que o trabalho poderia ter abordado, pois ter a obra exibida em alguns locais certamente aumenta o seu preço e facilita a desejada inserção no mercado.

            Nesse contexto, o comércio eletrônico encontra dificuldades para se firmar. A Brazil Gallery, em São Paulo, SP, após viver apenas de atividades virtuais, sucumbiu à necessidade de ter um espaço físico. Não tendo como manter apenas a atividade por meio da Internet, abriu, em setembro, uma galeria, no bairro de Moema.

            A Galeria Ponto das Artes, da Ochin Tapetes Orientais, também em São Paulo, SP, também já concluiu que a venda pela Internet não é um bom negócio. Frustrando as expectativas de seu proprietário, o comércio eletrônico não atingiu o resultado e a expectativa desejados.

Ao entrevistar diferentes públicos e aplicar o questionário a artistas, galeristas e expositores, prospects (consumidores em potencial), curadores/críticos e marchands, jornalistas de mídia especializada, arquitetos/designer de interiores e representantes de universidades, é possível fazer várias ligações.

            A primeira é que a maioria das pessoas que se relaciona com arte não troca por nada a fruição da obra pessoalmente. Os elos com a materialidade da pintura, escultura ou gravura são praticamente insubstituíveis. Nesse sentido, a compra pela Internet enfrenta sérias dificuldades.

            A segunda consiste na falta de hábito das novas gerações de consumirem obras de arte mesmo por meios mais tradicionais. São poucos os jovens que se presenteiam com gravuras, por exemplo, e menos ainda aqueles que freqüentam oportunidades de adquirir obras, como leilões.

            A criação de um site para venda de trabalhos de jovens artistas enfrenta, portanto, alguns problemas, a saber: a necessidade dos prospects de ter contato com a materialidade do objeto desejado, a dificuldade do artista novo de vender seu trabalho pela assinatura e a própria desconfiança que a compra digital ainda desperta.

            De qualquer modo, trazer à baila o tema da inserção no mercado na Universidade é, sem dúvida, o grande mérito do trabalho de Dacosta. Afinal, o último livro acadêmico sobre o tema, já bem ultrapassado, é o da professora Diva Benevides Pinho, A arte como investimento, de 1988.

O presente TCC pode ser um passo para a publicação futura de um texto mais atualizado na área. Nesse sentido, seria interessante ainda tomar cuidado com certas generalizações como “os jornalistas da mídia especializada possuem um pouco mais de liberdade para escrever sobre determinado assunto” (página 34), já que há vínculos deles ou das empresas que patrocinam os eventos com as galerias ou instituições culturais, ou questões de língua portuguesa, como “alguns poucos artistas” (página 31).

            Em síntese, Matheus Dacosta reúne importantes informações sobre o mercado de arte paulistano com desdobramentos sobre como os jovens artistas podem se inserir nele. Particularmente, acho que a continuação proposta do trabalho deve ser repensada. Não me parece produtivo pensar em montar o site de jovens artistas, mas sim fazer uma pesquisa para identificar como os artistas hoje consagrados se inseriram no mercado de arte.

            A experiência deles pode ser um ponto fundamental para compreender melhor como artistas podem sair do anonimato e conquistar seu espaço plástico e mercadológico, escapando do Triângulo das Bermudas que engole – e coloca na vala comum – boa parte dos artistas e pseudo-artistas que se multiplicam pelas esquinas de todo o mundo.

             

Oscar D’Ambrosio, jornalista e crítico de arte, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA - Seção Brasil).

 

 

 

 



 

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