por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

O mal-estar da pós-modernidade

 

            Oscar D’Ambrosio

 

            Vive-se hoje na arte um momento muito especial, em que ocorre uma certa tolerância em relação a qualquer tipo de manifestação. Isso motiva Zygmunt Bauman a começar o capítulo VIII de seu livro O mal-estar da pós-modernidade justamente com uma reflexão de Michel Foucault e Pierre Boulez sobre o comedimento de boa parte das pessoas no momento de avaliar aquilo que merece ser ouvido. (1)

            A questão colocada é que não haveria mais paradigmas para estabelecer o que pode ser considerado bom ou ruim. O efeito seria o de um isolamento, pois cada grupo realiza as suas composições, bate palmas para si mesmo e perde a noção do todo. A postura é muito mais de desconstrução daquilo que existe do que de construção de uma nova vertente ou pensamento.

            Afinal, a construção de uma nova forma de pensar visual ou musicalmente o mundo passa, necessariamente, na arte contemporânea, pelo conceito de representar aquilo que não é responsável aparentemente. Com a ausência de critérios rígidos de avaliação – já que eles foram abolidos ou estão em crise –, cada ato se torna uma ação pretensamente única e isolada.

            Isso não garante a qualidade de um trabalho. Dar voz e corpo ao que está calado e é intangível aponta para um dos grandes segredos da arte chamada contemporânea, que é a ocupação do espaço que existe entre o artista e o espectador. A atual Bienal de São Paulo, por exemplo, é a prova disso, pois as maneiras de rechear esse gap são as mais variadas.

            Tal pensamento equivale a dizer que as obras adotam as mais diversas manifestações, estando cada vez mais longe da visão representativa que marcou a arte até o impressionismo no século XIX. De fato, a arte oferece cada vez mais sugestões, criando novas problemáticas e indagações e possibilitando menos respostas prontas –o que parece bastante saudável.

            A arte de saber montar torna-se às vezes mais importante do que o saber fazer. Nessa linha de raciocínio, principalmente na escultura, é significativo o número de artistas que se concentram na concepção de suas obras, mas não as executam, deixando o ofício do fazer propriamente dito para operários ou artesãos especialistas.

            No momento em que a arte se afasta dos objetos concretos que representa, a interpretação do trabalho pelo receptor e pela crítica começa a ganhar um espaço cada vez maior. Cria-se o espaço ideal para uma das palavras-chave da produção de nossos dias, que é a experimentação.

            Essa capacidade de buscar novos caminhos aproxima modernos e pós-modernos. Haveria, no entanto, uma diferença crucial. Os modernos marcaram novos caminhos de ação, como futurismo, surrealismo e outros, enquanto o chamado vanguardismo do  pós-moderno trabalha sem a idéia de estabelecer novas verdades ou métodos, mas de ressaltar que não há a garantia de que se chegue a respostas universais e imutáveis.

            Retomando Foucault, Bauman vê a arte pós-moderna mergulhada numa encruzilhada, entre a discussão do conceito de verdade  de modo mais geral e a problematização do pensamento do presente como local onde a arte produzida se insere. De um lado, a busca da instituição e entidade da verdade; do outro, os motivos da existência e a vontade humana cotidiana.

            O pensamento crítico sobre o sentido da verdade, em seu sentido filosófico, e sobre a realidade, enquanto consciência política, social e econômica, gera uma arte marcada por uma grande força vital no sentido de ter grande poder de crítica das instituições.

            Bauman acredita que a arte pós-moderna tem o grande poder de estabelecer novos significados. Apoiado em Foucault, ele considera que o papel da crítica é justamente o de refletir sobre as obras realizadas de modo a gerar novas visões da realidade, não verdadeiras, mas possíveis.

            A arte pós-moderna oferece infinitas possibilidades, nem sempre de entendimento evidente e, às vezes, perdidas dentro de discursos complexos que superam a própria obra. De qualquer modo, a arte contemporânea oferece um jogo de armadilhas entre o possível e o existente, sempre estimulando a construção de uma rede de elos e ligações das mais variadas.

            No posfácio de seu livro, Bauman  retoma essa idéia de liberdade. Verifica que se trata de um elemento em que  não há vencedores ou perdedores, mas um estado em que o grande risco é se tomar como verdade uma ideologia. Mesmo que ela pareça positiva, a sua existência como único caminho pode ser igualmente perigosa.

            O autor aponta, com precisão, que “ser livre não significa não acreditar em nada: significa acreditar em muitas coisas” (página 249). A obediência apenas ao princípio da liberdade não significa ser livre, pois essa condição exige a concretização de diversas instâncias de liberdade, como a possibilidade de ser livre (não a imposição) e a não existência de ameaça à individualidade.

            Não existem regras para a liberdade, pois seria uma contradição pensar nelas, mas também não se pode esquecer que pensar a liberdade exige a consciência filosófica e teórica de que ela demanda relações sociais azeitadas, em que os princípios do ser livre e o de viver numa sociedade igualitária se complementam.

            Liberdade, de fato, não combina com desigualdade, seja ela de que natureza for. A liberdade de cada um, a de todos e o processo de assegurar que seja possível a convivência no tênue limite em que cada um colabora para que a liberdade seja respeitada 24 horas sete dias por semana pelo maior número possível de pessoas.

            Talvez esteja aí a essência do “Como viver junto” que caracteriza a Bienal de São Paulo 2006. Bauman acredita que Liberdade, Diferença e Solidariedade estão na base do pensamento da política pós-moderna, ou seja,  é essencial ser solidário para que a liberdade e  diferença possam conviver.

            Apenas um discurso de liberdade, porém, não é suficiente, já ele pode esconder uma certa opressão, bastante visível no mundo das artes plásticas de hoje, onde há uma permissividade em que qualquer coisa é aceita sob a desculpa de que “vale tudo” na pós-modernidade.

            Esse tipo de raciocínio gera um universo mental em que o pensamento crítico perde o sentido, pois os critérios se esvaem perante a idéia de que tudo o que pode ser feito deve ser encarado como arte, sem critérios de qualidade. Bauman alerta, portanto, que essa ditadura do admitir tudo poder ser um grande – e perigoso – cerceamento da liberdade de criar, de consumir e de criticar, pois dizer que tudo vale a pena  e é bom implica também no inverso, ou seja, afirmar que tudo é igualmente ruim e que nada deve ser produzido, visto e consumido, anulando o papel da própria arte de refletir sobre o mundo com os mais diversos recursos técnicos que ela propicia, devolvendo ao fruidor um novo mundo, revisitado e revisto de acordo com a habilidade de cada criador.

 

            (1) Este texto é uma reflexão a partir do capítulo 8 e do posfácio do livro O mal-estar da pós-modernidade, da Editora Jorge Zahar Editor. As páginas citadas são da edição da Jorge Zahar Editor, de 1999.

 

Oscar D’Ambrosio mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).

 

 

 

 

 



 

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