Olímpio Bezerra
A poética da harmonia
A pintura surge do desejo do
artista plástico de estabelecer o próprio mundo. Entre a
realidade circundante e o universo retratado em quadros há uma
diferença. É exatamente nela que reside o talento de cada
artista. Na sua maneira de ver o universo, o pintor tem o poder
de encantar o observador, propondo novas visões do existir.
Nascido em Araçatuba,
SP, em 1951, mas radicado em Cuiabá, MT, Olímpio Bezerra é um
criador que trabalha a simplicidade da existência nas regiões
interiores do Brasil com uma poética delicada, baseada no uso
de cores vibrantes e num desenho limpo, que mostra um País em
que o lirismo ainda sobrevive.
Seus carros de boi
passando por estradas de terra, suas casinhas e ranchos em meio
ao verde da vegetação, as aves no alto de árvores e um céu
em pinceladas de azul e branco instituem um universo quase
paradisíaco, em que todos gostaríamos de viver, pela harmonia
atingida entre a natureza e os seres humanos.
Mesmo quando trata
de um tema mais violento, como as brigas de galo, ainda
praticadas pelo interior, Bezerra mantém o romantismo. A sua
visão dos animais em luta tem uma certa musicalidade, devido à
harmonia das cores e à presença de numerosos personagens do
universo rural, além de casarios e igrejas em perspectivas
muito pessoais.
Um tema recorrente
na visão de mundo de Bezerra é a Maria Fumaça. A imagem de
comboios passando com passageiros olhando pelas janelinhas surge
como um símbolo de um universo rural que não existe mais. As
cores e os adornos do veículo movido a vapor evocam o
pioneirismo da expansão do chamado progresso pelo Estado de São
Paulo.
As festas juninas e
cirandas de roda são outras imagens características do
trabalho do pintor. Destacam-se nelas os vestidos coloridos das
mulheres. Com um técnica próxima a do pontilhismo, surgem
combinações de verde e amarelo ou azul e vermelho que pontuam
a tela em imagens encantadoras de um Brasil que pouco a pouco
está desaparecendo.
As colheitas de
algodão de Bezerra mostram bem como o artista sabe trabalhar
com nuanças cromáticas. O branco do produto agrícola ganha
espaço nas tela, mas a iluminação interna das casas, em
amarelo, e as portas e janelas azuis ou cinzentas dão ao
trabalho uma dimensão simbólica e misteriosa, quase épica,
quando pensamos no esforço dos trabalhadores em sua faina diária.
O artista evita que
o elemento humano se sobreponha ao natural ou vice-versa. O
carro de boi e o homem responsável pela sua condução se
equilibram. O mesmo ocorre com as casinhas decoradas em relação
às vestimentas de festa de homens e mulheres, ou ainda nas
imagens de escolas rurais próximas a crianças que brincam em
campinhos de futebol.
Não há nos quadros
de Olímpio Bezerra um elemento que concentre a atenção em
prejuízo do todo. O conjunto é que fala mais alto, seja pela
adequada distribuição dos elementos, pelo sábio uso
das cores ou pela maneira de tratar os temas. Na sua visão
harmoniosa do mundo, o artista constrói um universo pessoal em
que as raízes das profundezas do Brasil vêm à tona com toda
força e beleza.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes pela Universidade
Estadual Paulista, integra a Associação Internacional de Críticos
de Artes (Aica – Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Os
pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro
de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São
Paulo).