por Oscar D'Ambrosio


 

 


Olímpio Bezerra

 

            A poética da harmonia

 

            A pintura surge do desejo do artista plástico de estabelecer o próprio mundo. Entre a realidade circundante e o universo retratado em quadros há uma diferença. É exatamente nela que reside o talento de cada artista. Na sua maneira de ver o universo, o pintor tem o poder de encantar o observador, propondo novas visões do existir.

            Nascido em Araçatuba, SP, em 1951, mas radicado em Cuiabá, MT, Olímpio Bezerra é um criador que trabalha a simplicidade da existência nas regiões interiores do Brasil com uma poética delicada, baseada no uso de cores vibrantes e num desenho limpo, que mostra um País em que o lirismo ainda sobrevive.

            Seus carros de boi passando por estradas de terra, suas casinhas e ranchos em meio ao verde da vegetação, as aves no alto de árvores e um céu em pinceladas de azul e branco instituem um universo quase paradisíaco, em que todos gostaríamos de viver, pela harmonia atingida entre a natureza e os seres humanos.

            Mesmo quando trata de um tema mais violento, como as brigas de galo, ainda praticadas pelo interior, Bezerra mantém o romantismo. A sua visão dos animais em luta tem uma certa musicalidade, devido à harmonia das cores e à presença de numerosos personagens do universo rural, além de casarios e igrejas em perspectivas muito pessoais.

            Um tema recorrente na visão de mundo de Bezerra é a Maria Fumaça. A imagem de comboios passando com passageiros olhando pelas janelinhas surge como um símbolo de um universo rural que não existe mais. As cores e os adornos do veículo movido a vapor evocam o pioneirismo da expansão do chamado progresso pelo Estado de São Paulo.

            As festas juninas e cirandas de roda são outras imagens características do trabalho do pintor. Destacam-se nelas os vestidos coloridos das mulheres. Com um técnica próxima a do pontilhismo, surgem combinações de verde e amarelo ou azul e vermelho que pontuam a tela em imagens encantadoras de um Brasil que pouco a pouco está desaparecendo.

            As colheitas de algodão de Bezerra mostram bem como o artista sabe trabalhar com nuanças cromáticas. O branco do produto agrícola ganha espaço nas tela, mas a iluminação interna das casas, em amarelo, e as portas e janelas azuis ou cinzentas dão ao trabalho uma dimensão simbólica e misteriosa, quase épica, quando pensamos no esforço dos trabalhadores em sua faina diária.

            O artista evita que o elemento humano se sobreponha ao natural ou vice-versa. O carro de boi e o homem responsável pela sua condução se equilibram. O mesmo ocorre com as casinhas decoradas em relação às vestimentas de festa de homens e mulheres, ou ainda nas imagens de escolas rurais próximas a crianças que brincam em campinhos de futebol.

            Não há nos quadros de Olímpio Bezerra um elemento que concentre a atenção em prejuízo do todo. O conjunto é que fala mais alto, seja pela adequada distribuição dos elementos, pelo sábio uso  das cores ou pela maneira de tratar os temas. Na sua visão harmoniosa do mundo, o artista constrói um universo pessoal em que as raízes das profundezas do Brasil vêm à tona com toda força e beleza.

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes pela Universidade Estadual Paulista, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 

 

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Carro de boi
óleo sobre tela
90 cm x 130 cm - sem data

Olímpio Bezerra

 

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