Olhos
que sentem
O sábio Plotino (205-270)
dizia que “o olho não poderia ver o sol se não fosse um sol”.
Ambos, de certo modo, são focos de luz
e simbolizam a inteligência do espírito, já que ver, de
alguma maneira, sempre é compreender, de uma forma ou de outra, uma
determinada situação.
Especialistas
em símbolos, como o espanhol Juan-Eduardo Cirlot, apontam que o olho
funciona, principalmente no Egito, como a fonte de alimentação da
inteligência humana. Isso se dá de uma maneira semelhante entre os
animais chamados de irracionais pela pseudo-racionalidade humana.
Eles
também compreendem o mundo pelo olhar. Captar essa magia foi o
desafio da fotógrafa Chris Ceneviva. Ela se debruçou sobre o olhar
dos animais para captar instantes, num exercício que exige
conhecimento técnico, amor ao detalhe, paciência e dedicação
existencial e plástica.
A
maneira de mostrar o material captado igualmente é um relato de uma
experiência. As fotos são expostas de modo que o observador tenha
uma interação com cada olhar. A idéia é colocar cada pessoa em
contato, olho no olho, com o animal. Muito mais importante do que
conhecer ou reconhecer o animal é perceber o que aquele olhar tem a
dizer.
O
grande desafio de trabalhar com olhares é que eles comunicam por
aquilo que são e pelo que apontam. Deslocados de contextos, se
apresentam como um livro aberto a indagar o público. São pontos de
interrogação a se apresentar com riquíssimo potencial plástico.
Valem
por aquilo que sentem e que sugerem no ato da contemplação.
Compenetrados, assustados ou introspectivos, os olhos dos animais
fotografados funcionam como parte de personagens mais complexos.
Oferecem uma visão peculiar que pertence a todos nós. Seu modo de
enfrentar o mundo tem a luminosidade de um sol, pois amplia o
conhecimento da natureza e, portanto, de nós mesmos.
Oscar D’Ambrosio mestre
em Artes Visuais pela UNESP, integra a Associação Internacional de
Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).