por Oscar D'Ambrosio


 

 
 


Olhares urbanos

 

            O escritor Júlio Camargo dizia que “a vida na cidade é um inferno, mas ninguém quer mudar-se para o paraíso”. É exatamente esse o sentimento do observador na exposição Olhares urbanos, que reúne trabalhos de Claudio Tozzi (São Paulo, SP, 1944) e Rubens Gerchman (Rio de Janeiro, RJ, 1942).

Com texto de apresentação de Fábio Magalhães, a mostra, no Espaço Cultural Citigroup, em São Paulo, de 26 de julho a 23 de setembro, cumpre bem o papel do título, principalmente por apresentar amplo material de reflexão sobre a obra de dois artistas que, cada qual a seu modo, tem um importante papel na arte brasileira.

Se considerarmos que olhar é encarar de frente uma questão, pesquisando, sondando e estudando as suas múltiplas possibilidades, os artistas oferecem visões de cidade que se complementam. Eles revelam as suas inquietações e a sua poética plástica com aquilo que melhor os caracteriza: Tozzi, as nuances de cor, e Gerchman, a critica apurada e as tonalidades quentes.

            Tozzi, em seus trabalhos, cria Territórios muito bem definidos. Sabe como utilizar o ponto, a linha e outros recursos plásticos de modo a estabelecer um mundo regido por um espaço particular muito próprio, oriundo do amadurecimento de uma carreira. Sua URBS não é aquela que se vê à primeira vista, mas o resultado de uma Arquitetura imaginária, em que a cor tem um papel predominante.

            Gerchman, por sua vez, ao contrário de Tozzi, trabalha com a figura humana, com placas e letras. A ligação de seu trabalho é mais direta com o tema da exposição, mas não por isso, menos rica. Consegue mostrar a cidade como uma Caixa de todos nós, em que o Young Artist encontra numerosas abordagens.

            A cidade de Gerchman tem pessoas. Tanto elas podem estar trocando um Beijo circular como sendo Friends ou vivendo um jogo entre o Busca vida, em que existe uma esperança e um sonho contido em cada imagem numa urbanidade cruel, e o Viva vida, em que a cidade também dá às pessoas os seus momentos de alegria, muitas vezes efêmeros.

            Enquanto a técnica utilizada por Tozzi, confundida com pontilhismo, trabalha diversas nuances de cor, Gerchman vale-se de cores quentes para obter os efeitos desejados em sua leitura do universo urbano e de Sampa em particular. Sua leitura da Noising Crowd privilegia o caráter fervilhante da metrópole, com indivíduos e sinais por todos os lados.

            A massa de informações de certo modo criticada por Gerchman ganha em Tozzi outra leitura. Como arquiteto, pintor e toda uma linha de pesquisa voltada para intervenções plásticas nas cidades, principalmente São Paulo e Rio de Janeiro, cria seu próprio Espaço reconhecido, apresentando, em cada Paisagem e Paisagem imaginária a sua leitura daquilo que chamamos de espaço citadino.

            A resposta de Tozzi é caracterizada pela convicção de que a cor, a técnica e a pesquisa de meios são os problemas que o mobilizam em sua produção. Assim, a sua visão urbana não é literal, mas passa pelo filtro de quem olha o citadino como um elemento arquitetônico a ser desmembrado e tratado como objeto plástico e artístico.

            Gerchman atende ao mesmo desafio com sua Nonada, forma arcaica de “não” que significa “ninharia”. O artista se vale da Figuração para oferecer uma leitura da cidade que inclui Viação Brasileira,  lembrando os caminhos dos milhões de pessoas que habitam o espaço urbano, seja os migrantes que aqui estão como aqueles que se locomovem de um lado para o outro todos os dias.     

            Lançar um olhar sobre o urbano é refletir sobre aquilo que pertence à cidade e que a caracteriza como tal. O escritor francês Georges Rodenbach, por exemplo, apontava que “as cidades têm um uma personalidade, um espírito autônomo, um estado de alma”, alertando que tratar do urbano é dialogar com ele enquanto tema e enquanto abordagem técnica julgada mais adequada.

            Tozzi e Gerchman captam a temperatura da cidade com termômetros distintos. O primeiro vale-se da temperatura de um arquiteto imaginário, construindo a sua própria cidade de cores e com uma técnica desenvolvida com progressivo refinamento ao longo dos anos. O segundo lança seu apelo expressionista por maior humanidade nas relações entre os indivíduos e deles com relação ao urbano.

            Os dois artistas, todavia, oferecem o melhor de seu trabalho. Convidam o observador a refletir sobre o que é uma cidade, como ela se articula e como tudo poderia ser diferente. Nas cores de ambos, surge uma nova proposta de cidade, mas humana sem deixar de ser urbana, mais plástica sem perder seu tom metropolitano e, felizmente, pouco paradisíaco.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Unesp/São Paulo, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 

 

 

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