por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

Olga Luna

 

            Muros de individuação

 

Modelagens de rostos são o princípio da existência de máscaras, que podem ser utilizadas de maneira lúdica, artística ou como forma de proteção. Seu mistério está na própria origem da palavra, que provém do latim mascus ou masca, que significa “fantasma”, ou, no árabe, maskharah, ou seja, “palhaço”.

O trabalho plástico de Olga Luna, peruana radicada na França, dá às máscaras, colocadas lado a lado em muros, a possibilidade de gerar, nos participantes do processo, uma nova dimensão de si mesmos e dos seus pares. Elas se tornam caminhos para a individuação.

O recurso, já utilizado no Peru, na Argentina, no Brasil, em Cuba e na França, torna-se um caminho para que as pessoas participantes, trabalhando o rosto do outro e tendo o seu transformado em molde, adquiram uma diferenciada visão de mundo, entendo-se como parte de um todo complexo.

            Ter a própria máscara feita é um exercício de paralisia e quase morte. A pessoa fica deitada, com o rosto, protegido por uma substância oleosa, envolto num pano. Em seguida, o gesso, preparado antes em recipiente apropriado, é aplicado sobre a face. Além da sensação térmica de frio, a respiração é dificultada – e precisa ser feita pelas aberturas deixadas nas narinas, onde são colocados canudos.

O principal é que o participante, geralmente jovem, muitas vezes de uma classe social menos favorecida, consegue, nesse processo desenvolver os mais diversos relacionamentos. Aprende a respeitar o outro e a conhecer melhor a si mesmo e sente, como um médico iniciante, o que significa ter a respiração do outro praticamente sob o seu controle.

Olga coordena a preparação dos materiais, a secagem e a modelagem, além de todo o processo humano que a atividade engloba, como desenvolver em cada pessoa a paciência e o respeito aos materiais. Não se trata apenas de modelar um rosto, mas de formar um ser humano, com todo o simbolismo que isso comporta.

A atividade plástica firma-se assim como uma maneira de integrar crianças ou jovens no mundo adulto, aprimorando neles a responsabilidade, a autoconfiança e o poder de doação, ou seja, de se entregar a uma outra pessoa ou a alguma atividade. A feitura da máscara é análoga à construção de um ser humano.

As formas modeladas são colocadas em caixas de madeira e grudadas num fundo de resina. Bolas de grude pretas funcionam como pupilas e as caixas, uma ao lado da outra, constroem um “muro de rostos”, um aglutinado de almas, unidas pela feitura de um trabalho em comum.

Método apurado e amor à minúcia são desenvolvidos. Olga muito mais do que explicar uma técnica ou realizar a finalização das caixas, sua pintura e disposição estética, aproxima pessoas e as faz crescer. A atividade que propõe é um exercício de auto-estima.

            Cada muro é arte em ação. Arte, porque transforma a realidade; ação, porque envolve tanto o trabalho manual como o mental, não só de quem faz as máscaras, mas de quem serviu de modelo e, ainda de quem as vê. Assim, Olga Luna promove a individuação de jovens e adultos e mostra possibilidades de que cada um tenha uma melhor visão de si mesmo, o que facilita, como aponta a psicologia, para uma maior integração com o mundo.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (AICA – Seção Brasil)

    

 

 

 

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 Muro: Arte em ação

Reitoria da Universidade Estadual Paulista (UNESP)

São Paulo, SP, Brasil - Foto: Daniel Patire

Olga Luna

 

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