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G. Fogaça: o intérprete do urbano
Quando se pensa no universo urbano, existe um estereótipo que o relaciona exatamente com o oposto do que se vê no mundo rural: produção de alimentos, agricultura, a família camponesa, com modos de vida, valores e comportamentos próprios e uma paisagem associada à natureza e às atividades humanas desenvolvidas a partir dela. O raciocínio mais simplista aponta, então, para a beleza do rural perante a feiúra do urbano. O trabalho plástico de G. Fogaça, no entanto, oferece a oportunidade de observar o universo urbano de uma outra maneira, marcado pela sensibilidade e por um senso colorístico bastante peculiar. As pessoas não ocupam o primeiro plano das criações do artista goiano. O protagonista de seu trabalho é a cidade. É na criação dos silêncios que a urbe propicia que brota um lirismo sutil, em paisagens onde os edifícios, automóveis, bicicletas e motos ocupam os espaços. Os pedestres articulam-se com esses elementos citadinos numa espécie de balé em que as cores fazem o papel de bailarinas, sendo utilizadas, com habilidade técnica, para gerar a impressão de dinamismo, em idas e vindas nas quais não se sabe muitas vezes qual é a motivação do andar apressado. Talvez o mover-se seja mais valorizado do que o próprio chegar. As telas de Fogaça, todavia, não se esgotam na maneira como apresentam a cor. Há uma sabedoria própria no que diz respeito à forma de enxergar o espaço e na discussão que elas estabelecem com a composição, o senso geométrico e a percepção do poder de as cidades afetarem a vida das pessoas. Pelo uso desses recursos, o artista consegue estabelecer elos entre o medo que a cidade gera, em sua feição menos humana, e o fascínio que exerce, pelos seus aspectos mais sedutores. A cor protagoniza uma jornada por ruas e esquinas em que os trajetos ganham matizes expressionistas. Os seres humanos surgem como sombras a percorrer o espaço. O tempo é congelado em instantes que passam despercebidos aos olhares apressados. Cada momento cristalizado pelo artista constitui um exercício de captação do movimento que arrebata o observador pela força que tem. Se a fotografia consiste em selecionar uma cena, retirando dela aquilo que é excessivo, a pintura traz a prática da soma, pois é essencial saber o que deve ser colocado na folha de papel em branco e como isso deve ocorrer. Na sua poética, o homem tende quase a desaparecer perante o poder arquitetônico urbano. As caminhadas e correrias ganham na superfície pictórica uma dimensão que ressalta a solidão humana. Cada quadro constitui um alerta sobre a inutilidade de qualquer teorização sobre simplistas conceitos de feio ou bonito. O que está em jogo não é tanto sobre o que se está falando, mas como se fala por intermédio das imagens. A obra de G. Fogaça não é mais ou menos interessante pelo simples fato de trazer recortes urbanos. Ela se sustenta pelas dimensões internas que comportam e pela visão de mundo que apresenta. Desencontros entre pessoas, tonalidades escuras realçadas pela presença de algumas manchas de cores mais quentes e momentos até próximos de cenografias de filmes de ficção científica, anunciando uma metrópole futurista realçam o desafio de estar na cidade. As dificuldades do meio urbano e a suas características intrínsecas, que a afastam do universo rural, não podem, entretanto, superar a admiração atenta da maestria de G. Fogaça no uso das cores. É na arte de compor linhas e estabelecer atmosferas que seu trabalho se diferencia. Os homens contemporâneos que surgem dessa pesquisa visual estão sós e angustiados, mas não desesperados. Artistas como o pintor goiano são exatamente possibilidades de salvação de si próprios e da própria humanidade.
Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (AICA – Seção Brasil)
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