por Oscar D'Ambrosio


 

 


O enterro do Conde Orgaz, de El Greco

 

            Esta obra, finalizada em 1586, considerada uma das mais importantes da humanidade, ilustra uma lenda da cidade espanhola de Toledo. A estória conta que Santo Estevão, cujo martírio é representado na borda de sua capa e Santo Agostinho desceram à Terra para levar o corpo do Conde Orgaz para o túmulo.

Vestidos com sumptuosos hábitos eclesiásticos, eles não foram reconhecidos. O céu se abriu então para receber a alma do Conde. O pintor El Greco (1541-1614) coloca Cristo acima dele. Abaixo estão a Virgem e São João Baptista, que intercedem em favor da alma de Orgaz, delicadamente carregada por um anjo.

Há um alongamento das figuras celestes, que surgem esguias e iluminadas. Pintor, escultor e arquiteto grego que desenvolveu a maior parte da sua carreira na Espanha, El Greco assinava com esse nome para ressaltar a sua origem grega.

Seu estilo dramático foi considerado estranho por seus contemporâneos, mas encontrou grande apreciação no século XX. Hoje é considerado um precursor do expressionismo e do cubismo, ao mesmo tempo em que sua personalidade e concepções eram fonte de inspiração a poetas e escritores.

Sua técnica é tão individual que não é encaixada em nenhuma das escolas convencionais, já que une tradições bizantinas com a pintura ocidental. A pesquisa motiva, no mínimo, dez breves reflexões sobre os caminhos da arte neste século XXI, com seus múltiplos paradigmas.

 

            1 - O valorizado e o esquecido

            Após conhecer certa glória em parte da vida, principalmente pelas numerosas encomendas que recebeu em Toledo, El Greco passou a ser desvalorizado. Sua técnica foi colocada em xeque e vista como imperfeita pelo tratamento dado às formas. Somente houve uma nova valorização com o cubismo e o surrealismo e suas atmosferas etéreas. Desse modo, fica evidente que, muito mais que o valor intrínseco de uma obra, o que fala mais alto é o gosto de uma época. O aval do paradigma dominante vem de fora para dentro e rege o gosto coletivo.

 

            2 – Identificação com uma cidade

            O nome de El Greco está hoje vinculado à cidade de Toledo de uma maneira tão forte, que é impossível pensar nela sem lembrar dele. Isso pode ocorrer espontaneamente ou ser o resultado de um projeto de vida do artista, de modo que sua obra permaneça ou fisicamente ou pelo assunto associada a um determinado local.

 

            3 – Diálogo oriente x Ocidente

            As figuras hieráticas, estáticas e rígidas a arte bizantina e o dinamismo ocidental, tão bem representado por Ticiano, que foi mestre de El Greco, estabelecem uma conversa visual que é muito estranha para a época e gerava incompreensão da noção de pintura do artista nascido na Grécia, mas consagrado na Espanha.

 

            4 –Maneirismo

            Artistas como El Greco, que não se filiam a nenhuma escola e desenvolvem uma poética pessoal, começaram a receber o nome de maneiristas, ou seja, pintavam à sua maneira, estabelecendo uma relação com cores, formas e proporções únicas e particulares.

 

            5 –Luz da lua

            A luminosidade colocada por El Greco em suas obras decorre do uso de uma técnica aprimorada e que não teve antecessores ou seguidores. Tudo fica envolvido por uma espécie de fantasia regida por uma luz opaca e metálica, selênica. É como se o prateado da lua iluminasse o quadro.

 

            6 – Narrativa

            El Greco, neste quadro, de 4,50 x 3,50 m , apresenta um exemplo da pintura narrativa, ou seja, aquela que conta uma história. A obra é fruto de uma encomenda e, finalizada em 1586, se remonta a 1323, data da morte do Conde. Ele incorpora a lenda de que Santo Estevão, cujo apedrejamento retrata em suas próprias vestes, e Santo Agostinho teriam descido à Terra para buscar o corpo. Colocada em Toledo, na Igreja de São Tomé, financiada pelo Conde e sobre a tumba dele, a pintura, ao que se sabe, representa ainda o filho do artista (o menino Jorge Manuel, em cujo bolso há um lencinho com a inscrição 1578, ano de seu nascimento). Lá está também o rei espanhol Felipe II, representado no céu, sendo o único a usar a terrena gola de tufos, indiciando que ainda estava vivo. El Greco também pinta seu auto-retrato na obra.

 

            7 – Distorção dos corpos

            É uma marca registrada de El Greco. É preciso lembrar que ele vivenciou uma época ímpar. De um lado, a invenção da luneta, por exemplo, aproxima o homem do espaço e estimula a reflexão sobre o sentido da vida num plano mais humano, sem a intervenção divina. Do outro, a Igreja exerce todo o seu poder, pregando a submissão perante a vontade de Deus. Entre uma força que leva para o alto e outra que pede que os pés fiquem no chão, as imagens do artista de Toledo se alongam, como divididas entre a ascensão divina e as forças terrenas.

 

            8 – Espiritualidade

            Existe uma atmosfera mística que agradava bastante aos contemporâneos de El Greco. Seus retratos transmitem justamente a dimensão de que muitas imagens pintadas, justamente de santos, são de pessoas que, embora estejam ligadas ao mundo cotidiano, por terem existido, tem fortes elos com a atmosfera divina.

 

            9 – Visões

            Mesmo as imagens aparentemente mais realistas do artista, são colocadas numa esfera que enfatiza aquilo que vem do além. Não se trata de retratar aquilo que se vê, mas um sentimento de que este mundo é efêmero perante a vida em outra dimensão. Os santos pintados por El Greco ingressam nessa esfera fantástica e intangível.

 

            10 – Diálogo entre tangível e intangível

            O Enterro do Conde Orgaz estabelece uma relação dialética entre o mundo real e o divino, interligados pelo anjo que leva a alma do Conde. O curioso é que, na pintura mais realista da parte inferior, estão dois santos (Estevão e Agostinho) e, na parte superior, está o rei da Espanha, Felipe II, ainda vivo na época em que o quadro foi pintado. Essa conversa entre o tangível da história e o intangível da religião dá ao quadro uma posição única e diferenciada na história da pintura universal. 

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 



 

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