Odhila
Renófilo
O
lirismo da terra
Um
dos mistérios da arte chamada de naïf é que cada artista encontra o
seu caminho para propiciar ao observador uma realidade única, marcada
por algumas características especiais. O artista que não consegue
encontrar algumas marcas diferenciadoras corre o risco de se perder em
meio às centenas de criadores do estilo.
A
artista plástica Odhila Renófilo, nascida em 7 de agosto de 1930, em
Sodrélia, próxima a Santa Cruz do Rio Pardo, SP, já encontrou a sua
linguagem. Percebe-se nela, por exemplo, a divisão das imagens em três
partes bem definidas: o trabalho no céu, o desenvolvimento de um tema
central, geralmente a paisagem, e, na parte inferior, um sustentáculo
visual, que tanto pode ser um riacho ou plantas.
Atinge
a sua própria lírica, em telas em que o amor ao detalhe é um
requisito essencial. Cada flor, cada janela e cada folha são
cuidadosamente pintadas numa busca pelo acabamento esmerado. As cores,
geralmente vivas, apontam para a construção de um universo pictórico
em que parece reinar a felicidade.
As
imagens do interior se fazem muito presentes, seja nas cenas de plantações
ou em festas regionais. O importante é que a presença humana ocorre
sempre de maneira bastante discreta. É na ambientação que as telas
de Odhila ganham vida. As casinhas regulares e a disposição das
figuras no espaço são de harmoniosa concepção.
A
religiosidade é um traço marcante. Raro é o quadro em que não
aparece uma igreja, mas tal peculiaridade de modo algum compromete o
trabalho. Predomina o lirismo e o estabelecimento de uma atmosfera em
que a harmonia se torna possível pela combinação equilibrada das
cores e pelo ato de instaurar uma realidade em que o sonho é possível.
Há
uma busca constante pela harmonia que se manifesta nas telas que
representam tanto a noite como o dia. Em Serenata, por exemplo,
o universo dos tons de azul escuro imprime ao quadro um certo mistério
que fascina. O importante é a capacidade da pintora de oferecer, no
manifestar de sua técnica, uma busca permanente pelo belo e
equilibrado.
No
caso de Odhila Renófilo, o mundo ideal criado apresenta céu azul com
esparsas nuvens brancas, montanhas verdes ou azuladas ao fundo,
casinhas brancas ou pequenos prédios de dois andares, igrejas, plantações
e flores, muitas vezes em desproporção com os seres humanos.
Nesse
momento, em que a imaginação supera a lógica formal e acadêmica, a
pintura da artista ganha em qualidade simbólica. Seu poder está em
estabelecer uma realidade interna marcada por uma lógica que
prevalece entre as quatro bordas da tela. Quanto maior a ousadia de
realizar quebras de proporções, sem perder a harmonia, mais o
trabalho da pintora paulista revela a sua qualidade.
Sem
reproduzir o real, mas recriando-o com sua própria lógica, Odhila
Renófilo começa a conquistar seu espaço no plano da pintura. É nos
detalhes que beiram o ilógico que sua pintura instaura uma espécie
peculiar de harmônico realismo fantástico em que somente observando
cada detalhe se percebe que o equilíbrio resultante a partir de
pequenas e significativas quebras da razão cartesiana que tornam a
pintura da artista paulista fascinante e significativamente
misteriosa.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).