por Oscar D'Ambrosio


 

 


Odhila Renófilo

 

O lirismo da terra

 

Um dos mistérios da arte chamada de naïf é que cada artista encontra o seu caminho para propiciar ao observador uma realidade única, marcada por algumas características especiais. O artista que não consegue encontrar algumas marcas diferenciadoras corre o risco de se perder em meio às centenas de criadores do estilo.

A artista plástica Odhila Renófilo, nascida em 7 de agosto de 1930, em Sodrélia, próxima a Santa Cruz do Rio Pardo, SP, já encontrou a sua linguagem. Percebe-se nela, por exemplo, a divisão das imagens em três partes bem definidas: o trabalho no céu, o desenvolvimento de um tema central, geralmente a paisagem, e, na parte inferior, um sustentáculo visual, que tanto pode ser um riacho ou plantas.

Atinge a sua própria lírica, em telas em que o amor ao detalhe é um requisito essencial. Cada flor, cada janela e cada folha são cuidadosamente pintadas numa busca pelo acabamento esmerado. As cores, geralmente vivas, apontam para a construção de um universo pictórico em que parece reinar a felicidade.

As imagens do interior se fazem muito presentes, seja nas cenas de plantações ou em festas regionais. O importante é que a presença humana ocorre sempre de maneira bastante discreta. É na ambientação que as telas de Odhila ganham vida. As casinhas regulares e a disposição das figuras no espaço são de harmoniosa concepção.

A religiosidade é um traço marcante. Raro é o quadro em que não aparece uma igreja, mas tal peculiaridade de modo algum compromete o trabalho. Predomina o lirismo e o estabelecimento de uma atmosfera em que a harmonia se torna possível pela combinação equilibrada das cores e pelo ato de instaurar uma realidade em que o sonho é possível.

Há uma busca constante pela harmonia que se manifesta nas telas que representam tanto a noite como o dia. Em Serenata, por exemplo, o universo dos tons de azul escuro imprime ao quadro um certo mistério que fascina. O importante é a capacidade da pintora de oferecer, no manifestar de sua técnica, uma busca permanente pelo belo e equilibrado.

No caso de Odhila Renófilo, o mundo ideal criado apresenta céu azul com esparsas nuvens brancas, montanhas verdes ou azuladas ao fundo, casinhas brancas ou pequenos prédios de dois andares, igrejas, plantações e flores, muitas vezes em desproporção com os seres humanos.

Nesse momento, em que a imaginação supera a lógica formal e acadêmica, a pintura da artista ganha em qualidade simbólica. Seu poder está em estabelecer uma realidade interna marcada por uma lógica que prevalece entre as quatro bordas da tela. Quanto maior a ousadia de realizar quebras de proporções, sem perder a harmonia, mais o trabalho da pintora paulista revela a sua qualidade.

Sem reproduzir o real, mas recriando-o com sua própria lógica, Odhila Renófilo começa a conquistar seu espaço no plano da pintura. É nos detalhes que beiram o ilógico que sua pintura instaura uma espécie peculiar de harmônico realismo fantástico em que somente observando cada detalhe se percebe que o equilíbrio resultante a partir de pequenas e significativas quebras da razão cartesiana que tornam a pintura da artista paulista fascinante e significativamente misteriosa.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

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Aldeia florida
acrílica sobre tela
38 x 46 cm
sem data

Odhila Renófilo

 

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