por Oscar D'Ambrosio


 

 


Octávio Araújo

 

A sabedoria das tintas

 

“Era uma vez um homem que se tornou sábio./ Aprendeu a não fazer mais nenhum gesto a não ser dar nenhum passo que não fosse útil”. Esses versos do poeta francês Paul Valéry (1871-1945), em Pensamentos, maus e outros, ilustram a sabedoria existencial e pictórica do artista plástico pintor Octávio Araújo.

Com sabedoria, tranqüilidade e grande senso de observação, soube transformar seu amplo conhecimento de história da arte em imagens inesquecíveis, que mesclam elementos surrealistas e hiper-realistas, gerando quadros que atingem o coração do espectador pela riqueza e perfeição das imagens, assim como pelas numerosas alusões à mitologia grega.

Um passeio imagético pelas obras de Octávio Araújo é um convite a vários universos. Salta aos olhos a influência da escultura grega, mas ela não surge numa transposição do volume para o plano. Ergue-se na tela graças ao diálogo com os mestres do Renascimento italiano, do alemão, da pintura flamenga e de outras culturas da Europa, da África e da Ásia.

Todas essas vertentes parecem, de alguma maneira, convergir num ponto: a mulher. Musa e tema permanente, é tratada com mão apurada sob os mais variados ângulos. Pode aparecer como a sedutora Afrodite, a sofredora Eco, a enganadora cigana, a poderosa Gaia, a imatura Psiquê, a perigosa Pandora, a apaixonada Ariadne ou Janaína, rainha do mar.

Em todos esses casos – e a lista de divindades e personagens humanos enfocados é ainda mais extensa – a principal característica das mulheres é a forma como elas colocam a sua sensualidade ao espectador. Se são, por um lado, despojadas, por outro mantém uma altivez divina, colocadas no altar da grande arte construída por Araújo.

Todo esse talento desabrocha de um artista de origem modesta, que desenvolveu e cultivou seu talento ao longo dos anos. Nascido em 22 de março de 1926, em Terra Roxa, SP, para onde a família originária da Bahia migrara, ele fez seus primeiros desenhos nas paredes da casa, como é comum com as crianças do interior, e depois ganhou de um primo uma pequena caixa de giz de cor.

Em 1934, a família voltou para São Paulo, onde morara antes. Perante várias dificuldades financeiras, foi matriculado no Instituto Profissional Masculino, onde ficou de 1939 a 1943, e estudou pintura com mestres como o italiano José Barchitta, que o introduziu na cópia de pintores pré-rafaelistas.

Saindo do Instituto, empregou-se inicialmente numa oficina de pintura de tabuletas, mas nunca abandonou a arte. Aos 20 anos, ao lado de artistas como Marcelo Grassman e Luís Sacilotto, realizou a primeira exposição de desenhos no Instituto dos Arquitetos do Rio de Janeiro. Em 1947, tomou parte, com artistas como Aldemir Martins e Maria Leonita, da mostra “19 pintores”, em São Paulo.

Em 1949, com o cineasta Nelson Pereira dos Santos e o pintor Luiz Ventura fez a sua primeira viagem à Europa. Freqüentou aulas de gravura e foi auxiliar de Portinari, ao lado de Mario Gruber e do próprio Ventura. Retornou em 1951, tendo trabalhado, sob a direção de Rodolfo Nanni (Santos foi assistente de direção), no filme O saci, no pequeno papel de um preto velho.

Entre 1952 e 1957, Araújo conseguiu emprego como auxiliar de Portinari no Rio de Janeiro. Entre as suas atividades, incluía esticar telas e passar para elas os desenhos do mestre. Ainda jovem, toma a decisão intempestiva de romper com ele, escrevendo, depois, uma carta, na qual reconhece seu erro.

Naquele momento, o abandono do ateliê de Portinari significou a busca de um caminho próprio. A participação, ainda em 1957, do Salão para Todos, no Rio de Janeiro, foi uma guinada em sua vida pessoal e em sua carreira. Ao ganhar o primeiro prêmio de gravura, teve a oportunidade, junto com Roberto Dellamônica, de ir com a exposição para a China.

A repercussão da mostra foi tão boa que surgiu a oportunidade de levar os quadros para Moscou, na então URSS. No aeroporto, a recepção foi feita pela intérprete de russo para o espanhol Klara Gourianova. A paixão entre a letrada russa e o pintor brasileiro foi à primeira vista.

Finda a exposição, ele prometeu voltar. Com muito esforço, conseguiu uma bolsa de estudos do Ministério da Cultura local. O destino era São Petersburgo, então chamada Leningrado, onde ficou nove meses. No início de 1961, mudou-se para Moscou, onde se casou com Klara e começou a trabalhar como ilustrador de livros latino-americanos para editoras russas, na tradução e dublagem de documentários para a Mosfilm e locutor na Rádio de Moscou.

Araújo e Klara tiveram dois filhos em Moscou e se mudaram para São Paulo, em 1968. Mesmo afastado do cenário artístico nacional, graças a Pietro Maria Bardi, realizou a individual “Octávio Araújo: 20 anos depois”, em 1972, sendo que, em 1975, recebeu o convite de Carlos Lacerda para ilustrar uma edição de Ode marítima, de Fernando Pessoa.

A produção artística de Octávio é tão fascinante quanto a sua vida quase novelesca. O seu trabalho pictórico está repleto de sinceridade, sendo vital enquanto expressão de uma alma que instaura a sua poética em diversas técnicas: desenho a lápis de grafite, litografia, gravura, ou óleo sobre tela.

O fundamental está na onipresença do sonho. Imagens de ruínas da Antigüidade estão muito presentes em composições que se valem da justaposição de imagens nos mais diferentes contextos. O que pode aparentemente soar como fragmentação imagética resulta em uma harmonia obtida pelo sábio uso da cor e de dezenas de elementos por trabalho, como flores, figuras humanas, livros, frutas, velas, adornos, cortinas e borboletas, entre muitos outro.

O mergulho na arte de Araújo vai além da identificação de gamas de cor ou texturas. Está na expressão de uma certa solidão das imagens femininas que predominam. Elas parecem estar angustiadas, com olhar perdido em meio a uma grande quantidade de objetos que as rodeiam.

Instaura-se uma atmosfera sobrenatural, que evoca Henri Rousseau, curiosamente, um pintor distante em termos técnicos de Araújo, mas próximo quando se pensa na criação de instâncias mágicas. O que vemos é irreal, mas perfeitamente possível dentro da habilidade com que foi construído.

Octávio Araújo nos propõe então o seu próprio mundo. E não é difícil aceitá-lo, pois ele se apresenta harmonioso e possuidor de relações lógicas internas construídas, no mínimo, em três esferas: a dos personagens míticos (Eros e Psiquê, por exemplo), a da técnica (pinceladas precisas, lisas e amplo domínio da construção de figuras) e da sinceridade (devoção à figura feminina com matizes de sensualidade e mistério).

O verso final do poema citado de Valéry informa o destino do sábio: “Pouco depois, internaram-no”, ou seja, afastaram-no, por a sociedade tem dificuldades de conviver com aqueles que ultrapassam a mesmice e propõem desafios, sejam eles imagéticos, políticos ou existenciais. Octávio Araújo, com sua fala agradável, sorriso aberto e olhar que nada perde não pode correr o risco de ficar isolado. Precisa ser recuperado pela crítica de arte e ter seu lugar garantido na pintura nacional como aquele que se apropriou da técnica pictórica, colocou-a a seu serviço e, mesclando capacidade com sensibilidade, produziu telas inesquecíveis, carnavais imagéticos de um homem que não só é pintor, mas que vive sua existência como obra de arte.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 

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Nobilíssima visione

óleo sobre tela - 50 cm x 40 cm - 1974

Octávio Araújo

 

 

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