por Oscar D'Ambrosio


 

 

 

 
 

O Cristo amarelo, de Paulo Gauguin

 

1 – Auto-retrato

            O tema do auto-retrato é um dos mais tradicionais da história da arte. O pós-impressionista Paul Gauguin (1848-1903) o praticou algumas vezes, como em O Cristo amarelo, pintado em 1889. O curioso é ele se colocar na figura do crucificado, fato que alimenta a atmosfera de romantismo que marca a vida do artista francês, principalmente pela sua existência atribulada

 

            2 – Linhas rudes

            Uma característica muito importante da obra de Gauguin, em sua fase passada no Taiti, é a presença acentuada dos contornos. Ele consegue, por meio desse recurso, efeitos muito expressivos, que vão ser revisitados por outros estilos, como os fauvistas, que admiravam nele a maneira de trabalhar com cores puras como forma da expressão de sentimentos e de uma visão de mundo sem tom pastel.

 

            3 – Cristianismo?

            A obra mostra um lado muito interessante de um pintor que não era cristão, mas simpático ao budismo. Portanto, o fato de ele estar colocado na cruz talvez não deva ser visto como um símbolo de sofrimento, mas muito mais como a discussão de Omo é estar no centro de uma cena, chamando a tenção de todos, podendo muitas vezes ser incompreendido, seja pelas escolhas existenciais ou pelo gosto plástico.

 

            4 – Atualização

            Além da Jesus pintado em amarelo, merece destaque a ambientação da cena. O ambiente é francês e as três mulheres próximas à cruz estão vestidas como camponesas do final do século XIX. Há muita ousadia e intensidade nas cores quentes, com predominância do amarelo e do vermelho. Jesus é tirado de seu universo histórico natural e colocado num contexto europeu numa atitude corajosa para  época, que valeu ao artista numerosas críticas pela coragem demonstrada.

 

            5 – Oriente

Em busca de novos temas para a sua obra e para fugir do mundo burguês de Paris que o entediava, Gauguin partiu para o Taiti. Retorna à França e vai para as Ilhas Marquesas, onde faleceu de sífilis, deixando uma obra marcada pela representação simbólica da natureza, formas simplificadas e grandes campos de cores vivas e chapadas. Esses elementos, próprios da arte oriental, ganham grande relevância em seu trabalho.

 

            6 – O poder da cor

Um dos compromissos estéticos de Gauguin era captar a simplicidade da vida no campo com a aplicação arbitrária das cores e sem compromissos com a reprodução fiel do real, como ocorre neste Cristo amarelo.  Aspectos importantes de sua expressão e comunicabilidade estão em conceber a cor de maneira absoluta com todo o poder do cromatismo e sem nenhum tipo de medo ou receio.

 

7 – O mito romântico

Embora pós-impressionista pelo uso da cor de uma maneira alheia ao impressionista, Gauguin é uma referência para o fauvismo e o expressionismo. Sua biografia, no entanto, apresenta aspectos de uma novela romântica, que inclui, acima de tudo, a busca desesperada pela felicidade, inclusive com a procura do exótico como solução de dilemas existenciais.

 

            8 – Cidadão do mundo

            Gauguin viveu os primeiros sete anos de sua vida em Lima, no Peru. Voltou para Paris, ingressou na marinha mercante e correu o mundo. Trabalhou em seguida numa corretora de valores, casou e teve cinco filhos. Aos 35 anos, após a quebra da Bolsa de Paris, tomou a decisão mais importante de sua vida: dedicar-se totalmente à pintura. Iniciou um percurso de viagens e boemia que trouxeram como resultado um estilo diferenciado e inovador e a doença que acabou por matá-lo.

           

            9 – Sintetismo

            O termo é geralmente usado quase que unicamente para a obra de Gauguin. Consiste na incessante busca de uma linguagem pelas cores que atinja um significado em si mesma. A cor se torna uma forma de se comunicar com o observador, fugindo ao real e sendo escolhida pela sua intensidade e poder de expressar um assunto ou um sentimento.

 

            10 – Gravura japonesa

            Gauguin seguramente, assim como Van Gogh, conheceu as gravuras japonesas, que começavam a se propagar no Ocidente. Conhecidas como Ukiyo-ê, ou seja, “desenhos do mundo flutuante” (uki = flutuar; = mundo e ê = desenho), retratam um momento histórico em que a vida era intensamente aproveitada nos teatros, restaurantes, casas de chá e bairros reservados. Isso ocorria dentro de princípios filosóficos regidos pela impermanência de tudo, como acentua a célebre frase “A vida de um samurai tem a duração de uma pétala de cerejeira”. A gravura surge assim, desde o final do século XVII, como uma forma de obra de arte de baixo custo, destinada ao consumo de toda a população, retratando cenas agradáveis desse “mundo flutuante”. Analogamente, tanto nas cores chapadas como nos temas prazerosos, Gauguin dialoga ao seu modo com a gravura japonesa e o sentimento de que a vida, ao contrário da visão judaico-cristã, não era um local de sofrimento em busca de uma recompensa eterna a ser conquistada pelo padecimento terreno.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

 

 

 

 

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