por Oscar D'Ambrosio


 

 


Obras não traduzidas


            Oscar D'Ambrosio


            O número de livros importantes não traduzidos para o português é significativo. As razões são muitas. Incluem a especificidade de obras para públicos muito restritos, o desconhecimento pelas editoras nacionais de textos essenciais no panorama da literatura mundial e a ausência de editoras especializadas em publicar obras de difícil tradução pelas peculiaridades da língua ou do estilo do autor. Para a antropóloga Yvonne Maggie, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), isso tem uma explicação. "O fato de muitos autores importantes não terem sido traduzidos espelha as dificuldades da produção de livros e do mercado nacional", avalia.

            Jacyntho Lins Brandão, professor de Língua e Literatura Grega da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, acredita que alguns textos fundadores babilônicos, como Enuma Lich (Poema da criação), o Atrahasis (Poema do Super Sábio) e o Gilgamesh são essenciais. "Deste último, as traduções que existem são vergonhosas. Os três textos são fundamentais, porque os autores gregos e judaicos posteriores dependem deles. Por isso merecem ser traduzidos - e bem - para o português", afirma.

Para João Batista Toledo Prado, da Faculdade de Ciências e Letras (FCL) da UNESP, câmpus de Araraquara, as muitas lacunas de textos greco-latinos no Brasil, por exemplo, podem ser atribuídas a um certo acanhamento dos tradutores, geralmente ligados às universidades, de oferecer ao público traduções imperfeitas. "Além disso, nenhuma editora nacional tomou para si a responsabilidade de um projeto editorial específico para obras da antigüidade greco-romana, criando coleções que contemplem autores clássicos", diz.

Segundo Prado, o Brasil conta hoje com tradutores competentes e aptos a preparar e publicar textos em pé de igualdade com a seriedade das publicações, mas falta uma coleção que dê credibilidade e garantia de continuidade a essas publicações. "Sem isso, continuaremos a ficar à deriva, ao sabor de publicações esporádicas, algumas muito boas, porém diluídas nos catálogos de editoras que oferecem desde manuais de auto-ajuda até livros sobre informática", afirma.

Editoras como Loeb Classic Texts e Oxford Classic Library, nos EUA e Inglaterra; Biblioteca Teubneriana, na Alemanha; Rizzoli, na Itália; Les Belles Lettres, na França; e Clássicos Inquéritos e Textos Clássicos de Coimbra, em Portugal, possuem coleções especializadas na tradução de obras clássicas. A lingüista Edvanda Bonavina da Rosa, da FCL/UNESP, câmpus de Araraquara, acrescenta que a literatura grega, embora desperte grande interesse atualmente, principalmente os textos trágicos, devido ao estudo de teatro, tem tradução deficitária no Brasil. "Isso se deve, em primeiro lugar, à dificuldade inerente à própria língua grega", acredita.

O docente da UNESP aponta ainda que, na Europa e nos EUA, os tradutores são, em geral, os estabelecedores do texto original, e têm formação em ciências como paleografia, epigrafia e ecdótica. "Por isso, são capazes de confrontar os vários manuscritos disponíveis, fazer a comparação das divergências entre cada cópia e estabelecer o texto que julgam o mais próximo possível do que escreveu o autor em sua língua original", avalia. "A imensa maioria dos especialistas em línguas clássicas no Brasil não tem essa formação, o que força à escolha de um texto estabelecido por outro especialista, geralmente estrangeiro.

Segundo Edvina, o Brasil, infelizmente, não tem ainda uma tradição de tradução de estudos greco-latinos. "Atualmente, porém, com a formação da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos, tem-se intensificado a realização de simpósios nacionais e reuniões internacionais com a participação de estudiosos de todo o Brasil e do exterior. Isso tenderá a mudar nossa situação na área."

 

LITERATURA GREGA E LATINA

No que diz respeito especificamente à língua grega, a lingüista Edvanda sente falta da tradução da gramática Gramaire Grecque, de uma equipe de pesquisadores, entre eles, o respeitado Émile Ragon. "Todo helenista brasileiro não dispensa essa fundamental gramática, que seria imprescindível traduzir, pois nem todo aluno de graduação tem hoje condições de ler francês", diz.

Edvanda também aponta a ausência de tradução da maioria dos hinos homéricos e a falta de uma tradução integral de Os trabalhos e os dias, de Hesíodo. "A tradução da lírica é igualmente deficiente", aponta. "A língua grega é às vezes sintética, o que dificulta a tradução. Além disso, o vocabulário e a sintaxe grega tornam às vezes extremamente demorado um trabalho", aponta.

Entre os trágicos gregos, segundo Edvanda, a obra de Ésquilo foi traduzida na íntegra apenas em Portugal, mas, mesmo os textos traduzidos no Brasil necessitam de novas traduções; enquanto as peças de Filoctetes e Electra, de Sófocles, estão atualmente em fase de tradução por aqui. "As Suplicantes, Héracles Furioso, Íon, Andrômaca, Hécuba e Ifigênia em Táuris, de Eurípides, ainda não tem nenhuma tradução em português", diz a docente, que participa de um grupo de leituras dramatizadas de textos clássicos indianos, gregos e latinos em Araraquara, interior de São Paulo.

A pesquisadora da FCL-UNESP aponta, entre os comediógrafos gregos, a falta de tradução no Brasil de As rãs e As aves, de Aristófanes. "Sâmia e Áspis, de Menandro, também não foram traduzidos", diz. "Das obras do período helenístico, temos ainda menos traduções. Autores como Calímaco, Teócrito e Herondas são praticamente desconhecidos de nossos alunos, pois só há traduções francesas. De Luciano, somente Os diálogos dos mortos foi traduzido no Brasil. E, dos cinco romances gregos escritos no período helenístico, Leucipe e Clitofonte e As Efesíacas permanecem inéditos no País."

 

GRAMÁTICAS

Na literatura latina, Prado destaca que as obras do comediógrafo Plauto já contam, em sua maioria, com traduções portuguesas. "Elas estão longe, porém, de satisfazer as necessidades brasileiras, uma vez que as diferenças lingüísticas resultam em diferentes opções de tradução", avalia.

Para o latinista, são tantas as obras de autores latinos e tão poucas as traduções vernáculas, que seria mais fácil fazer uma lista do que já existe em português e não do que ainda falta traduzir. "Há, por exemplo, traduções de Eneida e das Bucólicas, de Virgílio, mas não das Geórgicas, que compõe um painel da vida no campo no século I d. C.", diz.

Alessandro Rolim de Moura, da Universidade Federal do Paraná (UFPr), entre as obras da Antigüidade não traduzidas ou publicadas, destaca as gramáticas de Dionísio da Trácia e Apolônio Díscolo, escritas em grego, e de Varrão, redigida em latim. "São importantíssimas por representarem alguns dos primeiros passos da reflexão lingüística no Ocidente", considera.

 

TRADIÇÃO GRECO-ROMANA

Moura cita ainda a falta de traduções da Farsália, de Lucano, romano do século I d. C., que considera responsável por algumas inovações no discurso épico, e aponta que diversas obras deveriam ter sua tradução refeita. "Satyricon, de Petrônio, por exemplo, não tem nenhuma tradução boa. As que existem possuem problemas graves."

Sobre a tradição greco-romana, para Francisco Marshall, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio Grande Sul (IFCH-UFRGS), o déficit bibliográfico em língua portuguesa é enorme. Ele destaca, entre outros livros, The Survival of the Pagan Gods, de Jean Seznec. "É um dos estudos de maior erudição sobre a relação entre a tradição clássica e o Renascimento. Evidencia as múltiplas maneiras pelas quais o mundo medieval preservou não apenas os mitos e autores antigos, mas também formas de compreensão do mito fundamentais na na Renascença, mas também na modernidade", analisa. "Trata-se de um texto central para a História da Arte, para a História Antiga e Medieval, assim como para a História Moderna e para qualquer estudo de História Cultural."

La Naissance de la Cité Grecque, de François de Polignac, igualmente inédita em português, é mencionada por Marshall como uma obra referencial e até revolucionária. "Publicada em 1981, ela redimensionou completamente as abordagens históricas e arqueológicas da cidade antiga. Hoje, novos livros estão rediscutindo os paradigmas pós-Polignac e avaliando os seus impactos nas Ciências Humanas", conta.
            Marshall aponta também a importância de traduzir Power and Persuasion in Late Antiquity, de Peter Brown. Considera o livro essencial por apresentar um amplo panorama das mudanças nas estruturas de poder na Antigüidade Tardia, com a emergência de novos valores e formas retóricas, ligados ao desenvolvimento de lideranças relacionadas à estruturação da Igreja como suporte da autoridade local e imperial. "É uma obra de vanguarda historiográfica, dotada de uma fantástica erudição e um estilo de narrativa muito sofisticado, ao mesmo tempo preciso do ponto de vista científico e acessível para o público em geral".

O docente da UFRGS indica ainda a tradução de The Late Roman Empire, de A. H. M. Jones. "Obra de referência básica para estudos da Antigüidade Tardia, área que se estruturou nos últimos 30 anos e cujas referências básicas ainda não estão traduzidas para o português", comenta. A obra é um estudo em dois volumes das condições sociais, econômicas e políticas do Império romano tardio. "É uma Bíblia para os estudiosos de História da Antigüidade e História Medieval, assim como para todos os estudos ligados à Roma, seja em Direito, Teologia, Sociologia, Filosofia ou Artes."

 

IDADE MÉDIA

Quanto à Idade Média, a historiadora Andréia Frazão, co-coordenadora do Programa de Estudos Medievais do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, destaca Afonso X, como um autor que mereceria traduções por despertar interesse não só em medievalistas, mas também no público em geral. Rei de Castela e Leão e imperador germânico, Afonso X (1221-1284), conhecido como o Sábio, foi o príncipe mais esclarecido de seu tempo. Escreveu sobre língua castelhana, direito e astronomia, animando todo o movimento intelectual da Espanha no século XIII. "Dele, recomendo a Cantiga de Santa Maria, reunião de 400 poemas musicados em honra à Virgem Maria, General Historia e Siete partidas. Também são essenciais Legenda Dourada, de Jacques de Vorágie; e as obras de Gonzalo de Berceo", comenta.

Para Andréia, o Brasil, ao contrário da Espanha, França e Estados Unidos, não tem uma tradição de resgatar os textos medievais em edições bilíngües e/ou modernizadas. "Deveria haver maior estímulo para colocar o público em contato com essas obras importantes não só por serem monumentos históricos, mas também pela sua riqueza literária e por serem as fontes primárias do pensamento ocidental", avalia. "As editoras não perceberam ainda que há interesse no mercado por tudo aquilo que se refira à Idade Média."

 

LITERATURA ALEMÃ

Para Karin Volobuef, professora de Literatura Alemã da FCL-UNESP, câmpus de Araraquara, uma das principais falhas do mercado editorial nacional é não ter traduzido para o português Heinrich von Ofterdingen (Henrique de Ofterdingen), do romântico alemão Novalis (pseudônimo de Friedrich von Hardenberg, 1772-1801). Publicado em 1802, a obra é a realização ficcional das idéias contidas nos textos teóricos do artista. "É um romance que defende a formação da personalidade por meio da descoberta do eu. O autor consegue viabilizar um mundo em que a realização plena do indivíduo, por meio das artes e do intelecto, não se choca com a vida prática", diz a docente.
            Para a especialista em literatura alemã, o livro é fundamental para conhecer o romantismo alemão, principalmente o círculo de Jena, que tinha como símbolo a flor azul. "Devido ao seu ar misterioso e mágico, ela expressa o anseio do inalcançável, a nostalgia pelo infinito e a insatisfação com o presente", explica Volobuef. "Henrique..., utópico, filosófico e poético, caracteriza-se pela ambientação medieval, a presença de símbolos e a valorização do sonho e do mito, que dão ao texto uma atmosfera de conto de fadas", aponta, lembrando que Novalis foi o ponto de partida dos simbolistas franceses.
            Outro romance citado por Volobuef é Effi Briset (1895), a obra mais famosa de Theodor Fontane (1819-1898), que, ao lado do suíço Gottfried Keller, é o nome mais destacado da prosa realista em língua alemã, tendo sido decisivo na formação intelectual de autores como Günter Grass, que, ao intitular o livro Um campo vasto, faz uma referência direta a Effi Briest. "É justamente essa a frase que o pai da moça repete ao longo da obra de Fontane", explica a docente da FCL-UNESP.
            Effi, para Volobuef, é uma Madame Bovary alemã. "A obra enfoca o adultério, mas analisa também atitudes e reações, preconceitos e afetos diante das convenções sociais e morais do final do século XIX. Além disso, não tem as infindáveis passagens descritivas de outros realistas e apresenta requinte de expressão lingüística e argúcia de observação psicológica". Segundo a pesquisadora, Fontane descreveu de forma simples e objetiva as diversas camadas sociais da sociedade de Berlim. "Ele é imprescindível para conhecer a Berlim e a Prússia da segunda metade do século XIX."

Volobuef cita ainda Der Untertan (O súdito), de Heinrich Mann (1871-1955), publicado em 1814, obra em defesa da paz, da liberdade e da democracia. "Sob influência de Balzac e Fontane, Mann realizava ampla crítica social em seus romances, defendendo a aproximação entre os alemães e os franceses, a quem via como modelo em termos literários e políticos", analisa.

Para a docente da FCL, Heinrich Mann idealizava a integração dos países da Europa. Com a I Guerra, começou a questionar o comportamento do irmão Thomas, entusiasta da participação germânica no conflito. Diederich, o protagonista do romance é justamente um tirano autoritário e nacionalista, cuja postura e ideologia estavam em conexão com a guerra, a força, a disciplina e a hierarquia. "Mas, por trás dessa fachada, há alguém fraco, submisso e com profundo sentimento de inferioridade", descreve Volobuef.

Assim, o livro traz uma mensagem social contrária a radicalismos e autoritarismos. "Predominam os valores pacifistas e humanistas, com fidelidade de ambientação histórica", diz a docente, que acredita que o sucesso de O anjo azul ofuscou os outros textos de Heinrich Mann, dificultando sua tradução no Brasil.
            Sobre Thomas Mann, Volobuef indica para tradução Thomas Mann: epoche, werke, wirkung (Thomas Mann: época, obras, recepção), de Hermann Kurzke, texto que apresenta elementos biográficos, dados bibliográficos, informações sobre o contexto histórico e sobre a recepção das obras de Mann, analisando a produção mais significativa do autor, como Morte em Veneza e A montanha mágica. "O autor mostra a relação de Mann com as idéias de Nietzsche, Wagner, Goethe e Freud, num contexto histórico e estético", explica.

Wilma Patrícia Marzari Dinardo Maas, professora de Literatura Alemã na FCL -UNESP, câmpus de Araraquara, aponta História da Literatura Antiga e Moderna (1815), como uma importante ausência nas estantes nacionais. O livro reúne palestras proferidas pelo crítico, filósofo e historiador alemão Friedrich Schlegel (1772-1829), um dos principais expoentes do romantismo e considerado o fundador da história da literatura em seu sentido contemporâneo. "Essas conferências, proferidas em Paris e Viena, são o exemplo de um pensamento efetivamente histórico sobre literatura", diz.
            Para Wilma, até Schlegel, a história da literatura era compreendida como uma prática enciclopédica e burocrática, quando não fantasiosa. "O crítico, certamente sob influência do pensamento de Hegel, aliou a consciência histórica à estética, contribuindo para que os escritores fossem analisados sob uma perspectiva interpretativa e crítica". O livro, além disso, merece destaque por não ter se preocupado apenas com a história da literatura em língua alemã, mas também com Camões, Cervantes, Ariosto, Shakespeare, Homero e Dante.

Celeste Henriques Marques Ribeiro da Sousa, da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCHS) da USP, ressalta ainda a importância de Amazonastrilogie, de Alfred Döblin (1878-1957). Influenciado pelas idéias socialistas e pelo expressionismo ele publicou romances que misturam o mito à história e o plano da realidade com o da escrita. Exilado durante o regime nazista, o artista desenvolveu temas de preocupações de ordem moral e religiosa. "Essa obra, que trata da conquista da América, é belíssima", elogia.

Um dos autores de língua alemã menos traduzidos é o filósofo e político húngaro Georg Lukács (1885-1971), que, tomando o método dialético de Hegel, interpretou as teses de Marx por uma perspectiva humanista, dedicando-se à fundação de uma estética marxista. Karin Volobuef aponta a inexistência de uma edição em português de Die Seele und die Formen (A alma e as formas), essencial para estudiosos de Teoria da Literatura, enquanto Luiz Montez, da UFRJ, aponta três títulos.
            O primeiro é Die Zerstöorung der Vernunft: der Weg des Irrationalismus von Schelling zu Hitler (A destruição da razão: o caminho do irracionalismo de Schelling a Hitler). Escrito na primeira metade dos anos 1940, mas publicado somente em 1954, o livro tenta explicar o desenvolvimento das premissas filosóficas e ideológicas do nazismo. "O oficialismo soviético e seus seguidores húngaros detrataram a obra, acusando-a de substituir a contradição filosófica fundamental entre materialismo e idealismo pela oposição entre racionalismo e irracionalismo", conta Montez.

Der junge Hegel: über die Beziehung von dialetik und Ökonomie (O jovem Hegel: sobre a relação entre dialética e economia) também é destacado pelo docente da UFRJ. "Concluído em 1938, mas publicado em alemão dez anos depois, o livro, que faz uma ampla análise de Hegel e do surgimento de sua dialética, foi originalmente a tese de doutorado defendida por Luckács em Moscou durante o seu exílio soviético, que durou de 1933 a 1945", diz.

O terceiro livro apontado por Montez é Goethe und seine Zeit (Goethe e sua época), publicado, em 1953, na então Alemanha Oriental. Escrito nos anos 1930, o livro, originalmente concebido como um tratado sistemático sobre o poeta alemão, teve seus originais perdidos num bombardeio em Moscou. "Mesmo assim, o que foi recuperado lança as bases de um resgate pela esquerda do maior poeta alemão, analisado até então pelo chauvinismo germânico ou pelas tendências mistificadoras das ciências do espírito, que predominava entre a intelectualidade universitária alemã do início do século XX", diz. Montez.

Do próprio Goethe, que já teve diversas obras traduzidas ao português, também há ausência de textos fundamentais. Wilma Maas sente falta de As conversações com Eckermann: reminiscências estéticas e biográficas do Goethe maduro, obra que apresenta o famoso conceito de Weltliteratur (literatura universal) e reúne escritos do poeta sobre ciências naturais. "Goethe narra suas concepções científicas e seu trato diário com contemporâneos, como Jean-Jacques Rousseau, com quem manteve correspondência sobre o cultivo de ervas", conta a docente.

Karin Volobuef também recomenda dois textos do crítico Volker Klotz: Das europäische Kuntsmärchen: fünfundzwanzig Kapitel Geschichte von der Renaissance bis zur Moderne (O conto de fadas artístico na Europa: 25 capítulos de sua história desde a Renascença até a modernidade) e Geschchlossene und offene Form im Drama (A forma fechada e aberta no drama).

Das europäische... analisa contos de fadas europeus dos autores tradicionais mais relevantes, como Straparola, Basile, Perrault, Goethe, Novalis, E. T. A. Hoffmann, Hans Christian Andersen, Charles Dickens, Thackeray, Lewis Carrol, Oscar Wilde, Carlos Collodi e Franz Kafka, entre outros. O panorama é amplo e diversificado. "O estilo do autor é agradável e fluente. Por isso, a obra se torna acessível ao público em geral, embora tenha como leitores preferenciais interessados em contos de fadas, literatura fantástica e infanto-juvenil, além de profissionais da área de pedagogia, psicologia e psicanálise", avalia Volobuef.

Geschchlossene... analisa as características das formas aberta e fechada de drama, exemplificando as suas características quanto à ação, tempo, espaço, personagens, composição e linguagem. "As peças de forma fechada caracterizam-se pela harmonia, clareza, linguagem requintada e uma seqüência casual e lógica de fatos. A forma aberta tem como preocupação principal a crítica social e a representação da realidade, valendo-se da ausência de padrões rígidos, linguagem e personagens do cotidiano, canções populares, provérbios, parábolas e citações da Bíblia", diz Volobuef. "O livro, oferece, portanto, uma sólida ferramenta de análise para quem trabalha com teatro."
            Ainda sobre teatro, Volobuef considera Theorie des modernen Dramas (1880 -1950) - Teoria do drama moderno -, de Peter Szondi, um texto teórico muito importante sem tradução. "Trata-se de uma análise do drama moderno desde Ibsen, Tchecov, Strindberg e Maeterlinck até os diversos caminhos por que seguiu o teatro no século XX", explica. Brecht, Pirandello, O'Neill, Wilder e Miller são estudados, explorando-se o amplo leque de possibilidades que o drama tem desenvolvido desde que colocou em primeiro plano problemáticas do âmbito social, psicológico e filosófico. "A obra vai muito além do teatro alemão. Como discute o drama moderno como um todo, não se restringindo a qualquer país específico, é um livro de referência obrigatória para quem trabalha com o teatro do século XX."

Na área de análise de literatura infantil, Volobuef considera Die Märchen der Brüder Grimm: eine Einführung (Os contos de fadas dos irmãos Grimm: uma introdução), de Heinz Rölleke, um texto importante. "Depois de rapidamente arrolar os antecessores dos Grimm na pesquisa folclórica, o livro apresenta a história da coleta de contos de fadas pelos dois irmãos: as pessoas que eles entrevistaram como procederam à seleção do material transcrito e à reelaboração das narrativas ouvidas", conta.

O público-alvo seria composto por estudiosos do folclore, de cultura popular, de contos de fadas e da literatura infanto-juvenil. "A publicação seria ideal para o Brasil, onde ainda não se teve o devido acesso à história do surgimento daquela que vem sendo a mais popular coletânea de contos de fadas Kinder - und Hausmärchen (Contos para o lar e as crianças, de 1812/15), que contém textos como Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho e Cinderela."


            LITERATURA EM ESPANHOL

O especialista em estudos latino-americanos Enrique Amayo, da FCL da UNESP, câmpus de Araraquara, aponta textos em língua espanhola que necessitariam de tradução, como Los comentarios reales que tratan del origen de los incas, publicado em espanhol, em Lisboa, pelo escritor, historiador e ficcionista peruano Garcilaso de La Vega (1540-1615), conhecido como "El inca". "Ele foi um dos primeiros cronistas dessa civilização. Seu livro, uma das obras latino-americanas mais traduzidas a línguas européias, foi essencial para criar, principalmente entre os enciclopedistas do Iluminismo, as primeiras imagens da América Latina no continente europeu", conta.
            O docente da FCL também aponta o texto conhecido como Historia dos vencidos, do cronista índio Humam Poma de Ayala, como outra obra esquecida à espera de tradução. "Ele escreveu o texto, ao final do século XVI, para o rei espanhol Felipe II, achando que as desgraças dos índios da América ocorriam, porque o monarca europeu simplesmente não conhecia os sofrimentos do povo americano", diz Amayo. A carta tinha 1500 páginas, 500 delas de desenhos que circularam pelo mundo como parte representativa da arte pictórica indígena americana. "Essas imagens, sem ter sua fonte citada, enfeitaram centenas de livros e pôsteres nos EUA e Europa."

La escena contemporánea e Ideologia y política, do marxista peruano José Carlos Mariategui, são lembrados por Amayo. "Vítima do stalinismo ao final dos anos 1930, ele mereceu um elogioso ensaio de Florestan Fernandes e foi o único pesquisador latino-americano que recebeu análise aprofundada do conceituado historiador Eric Hobsbawn", explica. O anti-imperialismo e o Apra e O espaço tempo histórico, de Victor Raul Haya de la Torre, também são citados pelo docente da FCL-UNESP como importantes e originais paradigmas em relação ao desenvolvimento de um original pensamento social-democrata na América Latina.

Amayo arrola ainda a necessidade de traduzir a obra do peruano Cesar Vallejo, que considera um do maiores poetas em língua espanhola. "Seus poemas oferecem enormes dificuldades de tradução, comparáveis aos de James Joyce em língua inglesa", comenta. Ele cita Trilce como o livro de poesia mais complexo em língua espanhola neste século, e Poemas humanos, em que está o célebre soneto "Masa", como a obra poética mais importante gerada pela Guerra Civil Espanhola.

Dos romances do pós-Guerra Civil da Espanha, Valeria de Marco, professora de Literatura Espanhola na USP, recomenda Tiempo de silencio, de Martín Santos, e Cinco horas com Mario, de Miguel Delibes, que, após escrever romances realistas sobre as classes desfavorecidas, dedicou-se à crítica global da sociedade espanhola contemporânea. "São imprescindíveis para quem quiser conhecer melhor a era Franco", avalia.
            Todas las sangres e El zorro de arriba y el zorro de abajo, do romancista y etnólogo peruano José María Argüedas (1911-1969), são também citadas por Amayo como obras que retratam a lenta decomposição da cultura indígena e os conflitos sócio-culturais do Peru. "Argüedas é o mais importante representante da cultura peruana nos últimos 50 anos. Seus personagens, míticos e reais têm, ao mesmo tempo, parentes diretos em Juan Rulfo e Guimarães Rosa", diz. "O crítico uruguaio Angel Rama, talvez o mais importante da América Latina neste século, escreveu Arguedas y el origen de una cultura indio-americana, obra que merece também tradução", comenta.

O escritor Claudio Willer aponta ainda a existência de enormes lacunas na tradução e difusão de importantes poetas ibero-americanos, como o argentino Aldo Pellegrini e o peruano Cesar Moro. "Na área de ensaios, os argentinos Nestor Canclini, Beatriz Sarlo, Jesús Martín Barbero, Aníbal Ford e José Luiz Romero são quase desconhecidos no Brasil", acrescenta a antropóloga Yvonne Maggie, da UFRJ.

 

LITERATURA ITALIANA E FRANCESA

Na literatura italiana, Sergio Mauro, da FCL-UNESP, câmpus de Araraquara, aponta uma série de textos importantes ainda não traduzidos. Entre eles, destaca a falta em língua portuguesa de uma edição integral e comentada de Il Decamerone, de Giovanni Boccaccio (1313-1375), primeiro realista da literatura mundial e uma das maiores figuras do Renascimento, com sus contos que exaltam a beleza e o amor terreno.
            Mauro aponta ainda a ausência em português de traduções de La Gerusalemme Liberata, de Torquato Tasso (1544-1595); L'Orlando Furioso, de Ludovico Ariosto (1474-1533), um exemplo da Renascença em sua maturidade artística; La scienza nuova, do filosófo e historiador Giambattista Vico (1868-1744), uma edição integral e comentada das poesias de Eugenio Montale (1896-1981), Prêmio Nobel de Literatura de 1975; e contos de Ettore Schmitz (Italo) Svevo (1861-1928), um dos criadores do anti-herói na ficção do século XX. "São livros fundamentais que não podem deixar de ter uma tradução disponível em português", comenta.

Quanto a traduções da literatura francesa, o escritor Claudio Willer aponta a ausência, em língua portuguesa, de dois autores importantes Paul Éluard (1895-1952) e Henri Michaux (1899-1984). "Já se lançaram no Brasil várias traduções de surrealistas e muito da melhor poesia do século XX, mas ficou faltando Éluard. Sugiro Capitale de la douleur e L' amour la poésie", diz. "Também achei estranho que, no ano passado, centenário de nascimento de Henri Michaux, nenhum editor brasileiro se mexeu para publicar obras como Connaissance par les gouffres e Miserable Miracle, entre outras do escritor."
            Professor de Língua e Literatura Francesas na FCL da UNESP, câmpus de Araraquara, Luiz Amaral verifica a falta no mercado de mais textos do escritor francês J. K. Huysmans. "Mentor, sistematizador e difusor do movimento estético-cultural do fien de siècle francês rotulado decadentismo, ele é também o responsável pela inauguração do impressionismo nas artes pictóricas", explica.

Para o docente A vau-l'eau e a obra teórico-estética intitulada L'Art Moderne estão esperando uma tradução. "Huysmans é hoje praticamente desconhecido entre os estudantes da literatura brasileira, mas fez parte da biblioteca ficcional de Pedro Nava e merece cuidadosa atenção de algum projeto editorial que se preocupe, de fato, com a seriedade estético-cultural do pensamento artístico-literário do País", afirma.

 

LINGÜÍSTICA E HISTÓRIA

A lingüísta Ingedore Grunfeld Villaça Koch, do Instituto de Estudos da Linguagem, da Unicamp, aponta obras fundamentais em língua inglesa que ainda não mereceram tradução na área de Lingüística Textual: Cohesion in spoken and written English, de Michael Halliday e Ruqaia Hasan; Discourse Analysis, de Gillia Brown e George Yule; Interferences in Text Processing, de Gerd Rickheit e Heinz Strohner; e Forms of Talk, de Erwing Goffman. "São textos intensamente utilizados, mas que não receberam tradução. Talvez isso se deva à especificidade da área", afirma.

Na área de História, o historiador Pedro Paulo Funari, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, destaca três títulos que fazem falta ao pesquisador brasileiro: Abolitionism in the United States and Brazil: a comparative perspective, de Célia Marinho Azevedo (É uma obra excelente, recente e fundamental de uma perspectiva da história comparada"); Black Athena, de Martin Bernal ("Enfoca a invenção do mito de uma Grécia ariana no século XIX"); e Peasant-citizen and Slave: the foundations of Athenian democracy, de Ellen Meksins Wood ("Um clássico dessa importante cientista política, provavelmente não traduzido por desconhecimento").

 

ECONOMIA
            Renato Perim Coliseste, coordenador da pós-graduação em Economia da FCL-UNESP, câmpus de Araraquara, indica falta de diversos livros importantes de Economia na bibliografia nacional. "Na área de Economia Internacional, por exemplo, Globalizing Capital, de Barry Eichengreen, é possivelmente o melhor trabalho disponível sobre a história financeira e monetária internacional desde o padrão-ouro até a atualidade."
            Sobre Economia Política Internacional, Coliseste destaca The Political Economy of International Relations, de Robert Gilpin. "Trata-se de uma obra clássica e fundamental e ainda extremamente relevante", avalia. Na área de Economia Industrial e da Tecnologia, cita The economics of industrial innovation, de Chris Freeman e Luc Soete. "Oferece uma abordagem didática, atualizada e rigorosa do tema Inovação. É notável pela apresentação de diferentes teorias e enfoques e pela contribuição dos próprios autores ao assunto."

O segmento de História Econômica também tem suas carências. O docente da FCL-UNESP aponta a conveniência de traduzir The Industrial Revolution, de Pat Hudson, que considera a melhor síntese sobre a Revolução Industrial britânica. "Embora possa ser usado como livo-texto, é de alto nível e de grande abrangência. A autora é um dos principais nomes da nova geração de historiadores econômicos ingleses", avalia.
            Joel Mokyr com seu The Lever of Riches: Technological Creativity and Economic Progress, também é citado. "É um dos trabalhos mais inovadores sobre industrialização, tecnologia e crescimento econômico mundial. Didático e de alto nível, é uma referência que tem se tornado obrigatória na área", avalia Coliseste. "O mesmo ocorre com Peaceful Conquest: The Industrialization of Europe (1760-1970), de Sidney Pollard, uma das melhores sínteses da história econômica da Europa desde a Revolução Industrial aos anos 70 do século XX."

Livros sobre a América Latina não são esquecidos por Coliseste, como The economic history of Latin America Since Independence, de Victor Bulmer-Thomas. "Considero esta obra um dos melhores trabalhos de síntese sobre a história econômica da região. Abrangente em termos de países, utiliza dados macroeconômicos de maneira apropriada e é atualizado em relação às últimas contribuições da área", explica o docente da FCL-UNESP.

Sobre Teoria Econômica e Crescimento Econômico, Colisete indica Introduction to Economic Growth, de Charles Jones. "Apresenta as mais recentes contribuições na área e diversos modelos de crescimento econômico, inclusive aqueles que têm influenciado políticas de agências internacionais", explica.

O economista cita ainda The Philosophy of Social Science: an introduction, de Martin Hollis ("Texto didático sobre questões metodológicas, envolve diferentes perspectivas em Ciências Sociais"); One Hundred Years of Socialism: the West European Left in the Twentieth Century, de Donald Sasson ('Possivelmente a mais completa e abrangente análise histórica da emergência dos partidos social-democratas, socialistas e comunista na Europa do século XX"; e The rise and decline of nations: economic growth, stagflation and social rigidities, de Mancur Olson ("Aplica os conceitos desenvolvidos anteriormente pelo autor sobre grupos de interesse, comportamento racional e esclerose das instituições na análise de determinantes do crescimento econômico de longo prazo nas economias avançadas").

A disciplina Teoria e História Econômica também tem um título citado por Coliseste: Institutions, Institucional Change and Economic Performance, de Douglas North, historiador econômico e ganhador do Prêmio Nobel. "Trabalho altamente influente, explora o papel das instituições, custos de transação e de produção no desempenho econômico de longo prazo das nações", comenta.
Para Coliseste, esses livros não foram ainda traduzidos por serem relativamente pouco utilizados no Brasil, mesmo no meio acadêmico. "Mas todos eles são de grande circulação internacional e reconhecidos como importantes contribuições ou introduções aos temas estudados", justifica.

Os motivos da ausência desses textos nas universidades brasileiras, para Coliseste, seriam dois: a relativamente lenta incorporação de novas pesquisas ao que já se supõe conhecido e a importância exagerada dada a nomes consagrados, o que limita o conhecimento de novos autores, pesquisas e perspectivas. "A Revolução Industrial, por exemplo, é estudada no Brasil com os textos dos anos 1960 e 1970 ou antes, enquanto há avanços enormes na pesquisa sobre o assunto nas últimas décadas", explica. Ainda na área econômica, para Celeste Henriques Marques Ribeiro de Sousa, da FFLCH da USP, Wunderwelt: eine begegnung mit Brasilien, de Hugo Loetscher, merece tradução. "É uma obra muito interessante sobre o milagre econômico brasileiro", diz a docente.

 

SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA

Na área de estudos sobre trabalho e trabalhadores, a socióloga Leila de Menezes Stein, da FCL da UNESP, câmpus de Araraquara, aponta a inexistência no mercado brasileiro de uma tradução de Histoire du Mouvement Ouvrier, de Edouard Dolléans. "É um clássico nos estudos sobre trabalhadores na Europa e Estados Unidos e os seus respectivos sindicatos", diz.

Leila também indica mais dois livros de grande importância para sociólogos: restoring: the promise of American labor law, de Sheldon Friedman, Ricgard Hurd e Rudolph Oswald e The lexicon of labor, de R. Emmett Murray. "Essas duas obras tratam do ressurgimento do movimento sindical nos EUA na última década", diz a docente da UNESP, professora do programa de pós-graduação em sociologia da FCL.
            A antropóloga Yvonne Maggie, da UFRJ, sente a ausência, em língua portuguesa, de textos do antropólogo norte-americano de origem alemã Franz Boas. "Quase nada daquele que foi um dos fundadores da antropologia moderna foi traduzido no Brasil", afirma. Na sociologia, destaca Francklin Frazier (1894-1962), o primeiro sociólogo negro americano. "Ele nunca foi traduzido, embora seja um autor de enorme importância para os estudos étnicos no Brasil e nos EUA, tendo inclusive nos visitado nos anos 40", diz.

Maggie aponta ainda a falta em língua portuguesa de trabalhos importantes de dois ensaístas alemães essenciais, o economista e sociólogo Max Weber (1864-1920) e o filósofo Ernest Cassirer (1874-1945). "A primeira barreira a ser vencida para publicar obras desses e outros autores é conhecer a importância de sua obras; e a segunda, ter um mercado que saiba consumi-las", conclui.

 

            Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

 

 
 

 

 

 

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