por Oscar D'Ambrosio


 

 


O ato criador

 

            A escritora brasileira Hilda Hilst acreditava que a arte surgia da diferença entre aquilo que o artista vê e aquilo que ele desejaria ver. Esse raciocínio se encontra presente no texto escrito por Marcel Duchamp, em abril de 1957, para a Convenção da Federação Americana de Artes, em Houston, Texas, e publicado no Brasil no livro A nova arte, de Gregory Battock (Perspectiva, 1986).

            Na concepção de Duchamp, é na relação entre o artista e o público que a obra de arte se realiza. Também verifica, com certa crueza até, que “milhares de artistas criam; somente alguns poucos milhares são discutidos ou aceitos pelo público e muito menos ainda são consagrados pela posteridade”.

            Para o artista francês, o criador plástico se assemelha a um ser mediúnico no sentido de que está imerso em um “labirinto além do tempo e do espaço” e procura andar até “uma clareira”. No entanto, a obra feita nesse processo precisa da aprovação do público, tornando-se um valor social que poderá ser inserida, ao longo do tempo, nos livros de História da Arte, ganhando reconhecimento pela sua qualidade intrínseca.

            O curioso é que, enquanto numeroso artistas insistem, como aponta Duchamp, em dar ao seu trabalho explicações marcadas pela razão, hoje recheadas de teorias em que o discurso muitas vezes supera a prática e o resultado final, para o autor, o ato criador atinge a valorização e a consagração geralmente por opiniões “divorciadas” da visão de quem fez o trabalho plástico.

            Talvez isso aponte para uma máxima consagrada na literatura de que o escritor é o pior crítico do próprio trabalho. Exageros à parte, a obra plástica parece se sustentar não por aquilo que o próprio criador diz dela, mas por aquilo que ela consegue expressar em si mesma. Esse fator é de elevada importância para os criadores jovens, muitas vezes mais preocupados em filosofar sobre o próprio trabalho do que em produzir algo propriamente dito.

            O grande avanço na discussão proposta por Duchamp ocorre com o conceito de “coeficiente artístico”, ou seja, uma “relação aritmética entre o que permanece inexpresso embora intencionado, e o que é expresso não-intencionalmente. A arte, para o artista francês, surgiria dessa diferença entre o que o artista consegue efetivamente dizer e aquilo que ele desejou expressar.

            Trata-se, ironicamente, de um elemento imponderável em última análise, mas motivador, no mínimo de reflexões, ainda mais quando Duchamp afirma que o mencionado índice  “não tem influência alguma” sobre o veredicto do público. A grande questão que surge aí é como o artista toma uma tela, um instrumento musical ou um material e passa ao público o resultado de seu ato “mediúnico” e único de criação.

            O subjetivismo, nesse processo, predomina. De uma intenção, ocorre a realização – e esta última será avaliada pelo público. Não adianta apenas criar se aquilo que surge do esforço artístico não é mostrado. Afinal, como indica Duchamp, cabe justamente ao observador, muitas vezes, reabilitar artistas esquecidos, trazendo à tona, por exemplo, criadores injustiçados ou não compreendidos em sua época.

            Se, para Hilda Hilst, a criação nasce de uma angústia entre aquilo que se vê no mundo e aquilo que se desejaria ver, para Duchamp a arte encontra seu eixo criativo em uma diferença semelhante, aquela entre o desejo do artista de criar e aquilo que efetivamente ele cria.

            Nas duas alternativas, o artista, seja qual for o seu meio de expressão, apresenta ao público o resultado de uma caminhada individual, própria e que não pode ser repetida. O mais fascinante é que a forma como atinge o público, principalmente na visão do criador francês, tem sua base na subjetividade do ato de criar – não na racionalidade.

Tal pensamento é de vital importância quando pensamos nos milhares de teorias que cada vez mais povoam o mundo acadêmico e são usadas, muitas vezes, com pobreza, por numerosos artistas, sob a denominação de arte conceitual, para justificar por vezes o injustificável, em exercícios de arte cerebral, muito longe do caráter “mediúnico”, espontâneo e criativo de que Duchamp nos fala.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e crítico de arte, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA - Seção Brasil).

 

 

 



 

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