Nuno Ramos
A arte da transformação
O artista plástico boliviano
Roberto Valcarcel afirmou que “o profundo significado das
coisas não está nas coisas, mas no significado”. Algo
semelhante ocorre na produção artística de Nuno Ramos.
Nascido em São Paulo, em 1960, ele dá a todo ato criativo um
ar de estranheza.
Sua principal temática
é a passagem do tempo e, nesse sentido, a morte ocupa um papel
preponderante. Utiliza, nesse processo, os mais variados
materiais, estabelecendo com cada um uma relação densa e
humana. Em suas mãos, eles se tornam autênticos seres vivos,
com características e personalidades próprias.
Para Ramos, a
madeira é extremamente generosa pela capacidade de sustentar
outros materiais e, ao mesmo tempo, fascina por ter uma vida
relativamente curta, sendo rapidamente destruída pela ação da
natureza. A pedra, por sua vez, teria toda uma majestade pelo
seu peso e pela delicadeza que exige em seu transporte, pois, ao
mínimo vacilo, cai e racha, tornando-se artisticamente inutilizável
como matéria-prima.
O vidro seria
“traidor” em sua essência, pois, embora lindo, oferece um
desafio constante, podendo quebrar a qualquer momento. O
cimento, por sua vez, é visto como o mais “morto” dos
materiais pela sua dureza e falta de maleabilidade, tendo seu
antípoda na vaselina, muito utilizada por Ramos justamente por
estar na fronteira entre o sólido e o líquido, podendo dar
vida a materiais aparentemente mortos.
A essência do
artista plástico parece estar justamente na capacidade de
trabalhar com a tensão entre os materiais. O translúcido
dialoga com o opaco, assim como o mole com o duro e a linha com
a curva. Isso leva a utilização de alguns recursos plásticos
como a inserção de placas de vidro em formas de madeira ou
outros materiais repletos de vaselina, resultando em camadas
fluidas que extravasam e se espalham pelo solo.
O uso artístico do
excesso também pode ser notado em obras mais próximas da
pintura, quando relevos dos mais variados materiais saem mais de
1 m do chassi, instaurando ricas relações, numa selva
aparentemente caótica de elementos que se harmonizam pela
capacidade do artista de convidar os olhos do observador a
percorrerem a construção criada e a encontrarem diversos
pontos de atenção.
Colunas de cal
compensada, escritura de textos no solo ou nas paredes de
instalações e o uso de materiais como breu, terra e sal, assim
como a tensão entre o alto e o baixo relevo, proporcionam visões
fantasmagóricas que alertam para a finitude da vida e das
coisas.
Explica-se assim que
Ramos, formado em Filosofia, com profunda relação com a poesia
e com a música, utilize como referências as Noites brancas,
de Dostoievski, ou composições de Nelson Cavaquinho,
Pixinguinha ou Zé Ketti. Em todos eles, há uma mesma preocupação
com o uso da palavra de modo a gerar, cada um à sua maneira,
uma profunda reflexão sobre a própria existência.
Esse processo conduz
ao uso do espelho. Símbolo, entre outras conotações, do
narcisismo e da vaidade humana, está presente em trabalhos
mesclados com pedra, como em Minuano, obra pública
localizada em Barra do Quarai, Estado do Rio Grande do Sul, ou
ainda nos móveis deixados na areia na maré baixa e logo destruídos
pela subida das águas.
Caixas de areia,
vidros incrustados e formas de madeira são, portanto, presenças
constantes numa arte que toma o tempo como elemento essencial.
É o que ocorre em instalações
como Choro negro, em que caixas de mármore eram
desfeitas, ao longo da exposição pela força do breu
derretido.
Uma variante do tema
é o trabalho Morte das casas, em que uma cascata ocupou
o Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, SP, com a
sonorização da declamação de versos de Carlos Drummond de
Andrade refletindo sobre o fim dos históricos casarios de Ouro
Preto.
O
universo do artista paulista é justamente o do fim das coisas,
mas também o da possibilidade da mutação e da purificação
de tudo o que existe com a força devastadora da água, como
indicam as experiências nas marés altas e seu poder de
“limpar” tudo o que encontram pela frente.
O mundo imaginário
de Nuno Ramos é justamente aquele em que tudo se desfaz e pode
ser mexido e transformado, como nas imagens do gravador Oswaldo
Goeldi, uma referência constante do artista, seja pelo uso de
tons escuros ou pela paixão de ambos pelos dilemas existenciais
da natureza humana.
Para
Ramos, corpos entram constantemente nos outros, estabelecendo
assim novas e inesperadas relações entre os materiais. Se a
vaselina dá vida ao mármore e se as pinturas realizadas sobre
chassis “avançam” sobre o espectador, as instabilidades
predominam. O uso da areia comprimida, com sua potencialidade de
se desmanchar a qualquer momento, é, nessa óptica, preferível
ao frio e rígido concreto, pois a primeira comporta, em si, o
alerta de que tudo pode ruir.
A criação de Nuno
Ramos funciona como um quebra-cabeça de detalhes, um certo
desastre programado de materiais a naufragar e a serem destruídos
pela força de elementos externos ou pela própria capacidade do
tempo de tudo transformar. O trabalho pictórico aproxima-se então
do escultórico, havendo em muitas instalações muitos
elementos literários ou referenciais concretos, como é o caso
da célebre instalação 111, realizada
em memória desse número de presos mortos pela Polícia
Militar quando da invasão para conter uma rebelião, em 1992.
A origem do vulcão
criativo e experimentador de Nuno Ramos está na Casa 7, grupo
que durou aproximadamente um ano e foi integrado também por
Carlito Carvalhosa, Fábio Miguez, Paulo Monteiro e Rodrigo
Andrade, a partir de 1983. Dessa “universidade” em termos de
troca de experiências entre eles, com críticos e outros
artistas, Ramos aprendeu a arte da ousadia, da experimentação
constante e da apresentação de um trabalho com uma proposta
consistente que resistisse ao tempo.
Dando significados
muito pessoais aos materiais com que trabalha, Nuno Ramos se
estabelece como um nome de destaque no panorama nacional das
artes plásticas pelo poder de pesquisa e pela inquietação
intelectual. Para ele, uma “coisa” nunca é apenas uma
“coisa”, mas um ser com um enigmático potencial a ser
transformado. Sua alma, mente e capacidade artística o tornam
um demiurgo, não no sentido místico, mas pela
capacidade e poder de tornar cada elemento em outro, num fantástico
jogo de espelhos e significados desafiadores.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de
Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos
de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte
de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp
e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).