por Oscar D'Ambrosio


 

 




Nuno Ramos

 

            A arte da transformação

 

            O artista plástico boliviano Roberto Valcarcel afirmou que “o profundo significado das coisas não está nas coisas, mas no significado”. Algo semelhante ocorre na produção artística de Nuno Ramos. Nascido em São Paulo, em 1960, ele dá a todo ato criativo um ar de estranheza.

            Sua principal temática é a passagem do tempo e, nesse sentido, a morte ocupa um papel preponderante. Utiliza, nesse processo, os mais variados materiais, estabelecendo com cada um uma relação densa e humana. Em suas mãos, eles se tornam autênticos seres vivos, com características e personalidades próprias.

            Para Ramos, a madeira é extremamente generosa pela capacidade de sustentar outros materiais e, ao mesmo tempo, fascina por ter uma vida relativamente curta, sendo rapidamente destruída pela ação da natureza. A pedra, por sua vez, teria toda uma majestade pelo seu peso e pela delicadeza que exige em seu transporte, pois, ao mínimo vacilo, cai e racha, tornando-se artisticamente inutilizável como matéria-prima.

            O vidro seria “traidor” em sua essência, pois, embora lindo, oferece um desafio constante, podendo quebrar a qualquer momento. O cimento, por sua vez, é visto como o mais “morto” dos materiais pela sua dureza e falta de maleabilidade, tendo seu antípoda na vaselina, muito utilizada por Ramos justamente por estar na fronteira entre o sólido e o líquido, podendo dar vida a materiais aparentemente mortos.

            A essência do artista plástico parece estar justamente na capacidade de trabalhar com a tensão entre os materiais. O translúcido dialoga com o opaco, assim como o mole com o duro e a linha com a curva. Isso leva a utilização de alguns recursos plásticos como a inserção de placas de vidro em formas de madeira ou outros materiais repletos de vaselina, resultando em camadas fluidas que extravasam e se espalham pelo solo.

            O uso artístico do excesso também pode ser notado em obras mais próximas da pintura, quando relevos dos mais variados materiais saem mais de 1 m do chassi, instaurando ricas relações, numa selva aparentemente caótica de elementos que se harmonizam pela capacidade do artista de convidar os olhos do observador a percorrerem a construção criada e a encontrarem diversos pontos de atenção.

            Colunas de cal compensada, escritura de textos no solo ou nas paredes de instalações e o uso de materiais como breu, terra e sal, assim como a tensão entre o alto e o baixo relevo, proporcionam visões fantasmagóricas que alertam para a finitude da vida e das coisas.

            Explica-se assim que Ramos, formado em Filosofia, com profunda relação com a poesia e com a música, utilize como referências as Noites brancas, de Dostoievski, ou composições de Nelson Cavaquinho, Pixinguinha ou Zé Ketti. Em todos eles, há uma mesma preocupação com o uso da palavra de modo a gerar, cada um à sua maneira, uma profunda reflexão sobre a própria existência.

            Esse processo conduz ao uso do espelho. Símbolo, entre outras conotações, do narcisismo e da vaidade humana, está presente em trabalhos mesclados com pedra, como em Minuano, obra pública localizada em Barra do Quarai, Estado do Rio Grande do Sul, ou ainda nos móveis deixados na areia na maré baixa e logo destruídos pela subida das águas.

            Caixas de areia, vidros incrustados e formas de madeira são, portanto, presenças constantes numa arte que toma o tempo como elemento essencial. É o que ocorre em instalações  como Choro negro, em que caixas de mármore eram desfeitas, ao longo da exposição pela força do breu derretido.

            Uma variante do tema é o trabalho Morte das casas, em que uma cascata ocupou o Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, SP, com a sonorização da declamação de versos de Carlos Drummond de Andrade refletindo sobre o fim dos históricos casarios de Ouro Preto.

O universo do artista paulista é justamente o do fim das coisas, mas também o da possibilidade da mutação e da purificação de tudo o que existe com a força devastadora da água, como indicam as experiências nas marés altas e seu poder de “limpar” tudo o que encontram pela frente.

            O mundo imaginário de Nuno Ramos é justamente aquele em que tudo se desfaz e pode ser mexido e transformado, como nas imagens do gravador Oswaldo Goeldi, uma referência constante do artista, seja pelo uso de tons escuros ou pela paixão de ambos pelos dilemas existenciais da natureza humana.

Para Ramos, corpos entram constantemente nos outros, estabelecendo assim novas e inesperadas relações entre os materiais. Se a vaselina dá vida ao mármore e se as pinturas realizadas sobre chassis “avançam” sobre o espectador, as instabilidades predominam. O uso da areia comprimida, com sua potencialidade de se desmanchar a qualquer momento, é, nessa óptica, preferível ao frio e rígido concreto, pois a primeira comporta, em si, o alerta de que tudo pode ruir.

            A criação de Nuno Ramos funciona como um quebra-cabeça de detalhes, um certo desastre programado de materiais a naufragar e a serem destruídos pela força de elementos externos ou pela própria capacidade do tempo de tudo transformar. O trabalho pictórico aproxima-se então do escultórico, havendo em muitas instalações muitos elementos literários ou referenciais concretos, como é o caso da célebre instalação 111, realizada  em memória desse número de presos mortos pela Polícia Militar quando da invasão para conter uma rebelião, em 1992.

            A origem do vulcão criativo e experimentador de Nuno Ramos está na Casa 7, grupo que durou aproximadamente um ano e foi integrado também por Carlito Carvalhosa, Fábio Miguez, Paulo Monteiro e Rodrigo Andrade, a partir de 1983. Dessa “universidade” em termos de troca de experiências entre eles, com críticos e outros artistas, Ramos aprendeu a arte da ousadia, da experimentação constante e da apresentação de um trabalho com uma proposta consistente que resistisse ao tempo.

            Dando significados muito pessoais aos materiais com que trabalha, Nuno Ramos se estabelece como um nome de destaque no panorama nacional das artes plásticas pelo poder de pesquisa e pela inquietação intelectual. Para ele, uma “coisa” nunca é apenas uma “coisa”, mas um ser com um enigmático potencial a ser transformado. Sua alma, mente e capacidade artística o tornam  um demiurgo, não no sentido místico, mas pela capacidade e poder de tornar cada elemento em outro, num fantástico jogo de espelhos e significados desafiadores.

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 

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técnica mista 1989 Coleção do artista

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