Norma
Tamaoki
Arte
em cerâmica
Quando se pensa em cerâmica
enquanto atividade de produção de artefatos a partir de diversos tipos
de argila, há dois grandes caminhos a seguir. Um deles é a atividade
artística propriamente dita, em que são produzidos objetos com valor
puramente estético; outro é a atividade em que copos, canecas, pratos
e outros projetos são criados com valor apenas utilitário. Norma
Tamaoki transita justamente nessa densa intersecção entre o objeto que
pode ser utilizado, mas que encanta pelo valor artístico que comporta.
A técnica
que utiliza em suas produções é a corda seca, originária dos incas,
que consiste, hoje, em riscar com grafite a superfície dos utensílios,
pintar as áreas internas com tinta esmalte e queimar as peças em
fornos elétricos ou a gás. O desafio é realizar essa operação
mantendo a qualidade do trabalho e uma certa originalidade na expressão
artística.
É nesse
ponto que entra o talento de Norma. Nascida em Ibicuí, Estado da Bahia,
ela mora em São Paulo desde 1969 e começou a trabalhar com cerâmica
no final da década seguinte. Com mais de 20 anos de experiência, foi
na chamada corda seca que ela encontrou uma autêntica maneira de
expressão.
Afinal,
seu grafitismo aplica-se muito bem à reprodução de obras de arte em
que a linha e as cores vibrantes são elementos fundamentais. Seu domínio
técnico logo chamou a atenção, levando-a a transportar para a cerâmica
os trabalhos de artistas como Romero Britto e, mais recentemente, com
exclusividade, os de Tarsila do Amaral, comercializados no Museu de Arte
de São Paulo, e os do artista plástico Jurandi Assis.
O fato que levou a obra de
Norma a ser aceita no mercado como uma versão em cerâmica de trabalhos
de artistas famosos é a competência que adquiriu ao longo de sua prática
profissional. Aprendeu, inclusive, a saber o que a “corda seca”
permite. Assim, no ato de preparar seus atuais trabalhos sabe que,
dependendo da pintura original do artista, terá que fazer certas
simplificações ou adaptações.
Isso não
compromete o trabalho dela. Muito pelo contrário. Saber profundamente o
potencial e as limitações da técnica utilizada é sempre um grande mérito.
Afinal, o grande desafio de partir de um original e saber ser fiel a
ele, sem trair a sua essência.
Para atingir
essa maestria, torna-se importante compreender não a imagem de um
quadro, mas o seu processo de composição e lógica internas. Ao obter
tal conhecimento, como ocorre nas leituras que faz em cerâmica do
trabalho de Jurandi Assis, Norma Tamaoki mostra que a atividade artística
pode se fundir com a utilitária, desde que a pessoa responsável por
esse desafio saiba caminhar, como ela, pelas duas veredas com a mesma
desenvoltura.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte
(AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de
Claudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e
obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa
Oficial do Estado de São Paulo).