por Oscar D'Ambrosio


 

 


  Norma Mobilon

 

            O desaparecimento da imagem

 

            Existe na arte da gravura, detentora de uma mágica toda própria, um jogo especial entre o que pode ser visto e o que permanece escondido. Trata-se de um diálogo entre a aparência e a existência. Mergulhar nesse universo demanda maturidade e pesquisa, pois o poder da imagem em si mesma como aglutinador de interpretações é imenso.

            O conjunto plástico de Norma Mobilon se dá exatamente nessa fronteira entre o que se pode ver e o que se deseja velar. Sua discussão visual provém de obras com imagens de caveiras, ossos e esqueletos, geralmente com  a técnica da ponta seca, em que a conversa entre o poder do negro e a luz do branco instaura atmosferas que remetem a Goya e à relação da cultura mexicana com o Dia de Finados.

            Mas havia uma questão essencial: a da luz. O seu excesso ou ausência era determinante para atingir o clima pretendido. O posterior mergulho na cor, inicialmente o azul, mas também variações de ocre e outras dimensões geralmente em tons rebaixados favorece um novo caminhar, que é o desenvolvimento do percurso anterior, mas constitui uma jornada renovada.

            A dimensão que se instaura é a da esfera da arte como manifestação de uma interpretação de mundo e da ótica como ciência e conhecimento daquilo que nossos nervos, neurônios e cérebro permitem enxergar. A presença da figura, construída com buril em procedimentos como água tinta e água forte, se dilui perante a onipresença da cor.

No entanto, a imagem permanece, mais ou menos sugerida em cada caso dependendo não do resultado da impressão, mas da iluminação que a gravura recebe e da relação que cada uma estabelece com aqueles que estão próximas. Dentro da perspectiva dessas variáveis, o objeto gravado na placa e impresso pode ficar apenas sugerido.

Novas nuances surgem com a entrada no trabalho de planos. Eles se confrontam com as figuras construídas com a linha, gerando infinitas possibilidades de sobreposição e de experimentação. A gravura, nesse processo, ganha uma dimensão pictórica, onde as massas impressas tanto podem interagir com a imagem ou simplesmente anular a figuração em nome da geometria da composição.

O andamento dessa pesquisa com a cor conduz à reflexão sobre o desaparecimento da imagem ou melhor sobre como a percepção que cada um tem da presença da figura sobre distintas cores gera um estranhamento e mesmo uma dificuldade no olhar.

            A questão do que se pode ver e como isso ocorre é central. Não se trata apenas de desvendar o processo de criação, mas também de buscar um entendimento do olhar não apenas na esfera da educação do ver, mas também dos fenômenos físicos e biológicos associados ao entrar em contato com uma imagem.

            A pesquisa da gravadora Norma Mobilon gera indagações indispensáveis para a criação artística.  À parte da questão técnica, mas profundamente conectada a ela, está a poética instaurada pela concepção de todo um raciocínio em que a criação se volta para o ser, não para o parecer. A existência da imagem fica então em segundo plano, talvez, perante uma proposta fundamental: a sempre difícil busca pela contemplação ativa da obra e por uma melhor percepção do mistério de sua criação.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 
 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

 

 Sem título IX
gravura em metal água-forte e água-tinta 40 x 30 cm sem data

Norma Mobilon

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio