por Oscar D'Ambrosio


 

 


Norberto Stori

 

            Céus muito pessoais

 

"É essencial ter os pés firmemente plantados no chão para poder lançar-se
ao espaço". Esta frase do pintor catalão Joan Miro, epígrafe da tese de
livre-docência Da terra aos céus... um vôo solitário, defendida no Instituto de
Artes (IA) da UNESP, em 2001, pelo artista plástico Norberto Stori, indica bem o
percurso seguido pelo aquarelista e gravador.

            Nascido em São Joaquim da Barra, SP, em 1946, formado em Desenho e
Plástica pela Faculdade de Comunicações e Artes da Fundação Armando Álvares
Penteado e mestre e doutor em Comunicação e Artes, Stori mescla suas atividades
como docente na Universidade Presbiteriana Mackenzie e no IA com uma intensa
produção artística. 

            Após uma infância em que a presença do desenho sempre foi uma
constante, Stori começou a chamar a atenção da crítica nos anos 1970, pela
criação de corpos nus femininos em que a região das coxas ao colo, vinculada à
maternidade e à sexualidade, ganhava destaque.  

Esses trabalhos, geralmente realizados com carvão litográfico e bico-de-pena
sobre aguadas de tinta de guache, transbordavam sexualidade, pois vulvas e fetos
combinavam-se às imagens dos corpos em encaixes curiosos com corpos platinados,
criando uma espécie de supra-realidade. 

Ainda nessa época, o artista realizou colagens contra o uso de drogas e a guerra
do Vietnã, em que apareciam injeções hipodérmicas ou o rosto de Jimmy Hendrix.
Deixava assim clara a escolha de uma arte em que a natureza seria vista como
alternativa ao mundo urbano e caótico, maculado pela guerra e pelo tóxico. 

            O caminho de Stori, entretanto, não foi o da arte engajada no
sentido mais fácil e pejorativo do termo. A parir de 1972, os seus trabalhos
transbordam de preocupação ecológica, sem pieguice, mas, como mostra a série
Apocalipse da paisagem, por meio de uma simbiose interpretativa da paisagem
urbana com a natural. 

A tinta nanquim a bico-de-pena é a maneira encontrada de oferecer ao espectador
grafismos soltos e nervosos em que predominam as ondulações. As silhuetas de
cidades, reconhecíveis como tal à primeira vista, dialogam com raízes e galhos
nas mais variadas escalas.

Muitas vezes, a metrópole surge na metade superior da tela e, ao se aproximar da
natureza, na inferior, estabelece uma interação de imagens e de conceitos. Elas
se confundem e geram espaços repletos de interrogações: ou não se distingue
entre o natural e o urbano ou os elementos se fundem, havendo, em certos casos,
uma tendência ao geometrismo no retrato de pseudo-edifícios que se contrapõem às
linhas curvas do ambiente natural.

Garras, raízes, retângulos, grades, silhuetas e horizontes urbanos de cabeça
para baixo constituem um todo denso, que não permite uma leitura fácil. Surgia
assim um artista plástico que mostrava toda a sua disposição em não se acomodar
com recursos técnicos ou suportes, buscando novos caminhos.

            Apocalipse da paisagem tem dois ilustres filhos artísticos: nascem,
em 1973, Pasárgada, que toma como mote o célebre poema de Manuel Bandeira e, em
1974, Águas de março, que evoca a música não menos consagrada de Tom Jobim. Elas
têm pontos em comum, mas apresentam algumas diferenças.

Em Pasárgada, há formas circulares que nascem da própria terra e começam a
ocupar o espaço pictórico. As mencionadas linhas retas verticais e horizontais,
evocadoras do geometrismo da cidade grande também se fazem presentes e as fusões
entre o natural e o citadino se tornam maiores: árvores e prédios, por exemplo,
interagem, se sobrepondo no estabelecimento de um proposital caos orgânico que
obriga à reflexão sobre as urbes.  

Um retorno à natureza, devido ao desconforto do homem com a sociedade
industrial, é mais evidente em Águas de março. Os traços ficam mais nervosos e o
referencial - seja o citadino ou o urbano - começa a se perder, tanto nos
trabalhos em gravura em metal como nos desenhos.

            Uma guinada significativa e essencial ocorreu durante o I Encontro
Nacional de Artistas Plásticos, em Bagé, RS, em 1976. O contato com a paisagem
dos pampas gaúchos, durante a sua permanência na Fazenda "Cabanha do
Portão", levou Stori a uma revolução estética. 

Criado para reunir Carlos Scliar, Danúbio Gonçalves, Glênio Banchetti e Glauco
Rodrigues que, quando jovens, desenhavam juntos nas fazendas da região, o
Encontro permitiu a Stori criar o seu próprio diário de campo, repleto de
imagens de elementos naturais, como o sol, a lua, o amanhecer e o entardecer. 

            Com o uso da aquarela, aparecem cores mais quentes. Róseos e
amarelos ganham destaque ao retratar os pampas gaúchos. Há também a delicadeza
de verdes de imensas pradarias, nuvens plúmbeas e arco-íris incompletos.
Estabelece-se assim o diálogo silencioso entre céus e terras com pouca ou
nenhuma vegetação. 

            O próximo passo é a Série Caminhos, caracterizada pela necessidade
imperiosa de pintar in loco e realizar anotações nos locais visitados e
fotografados. Com esse espírito, são realizadas viagens pelo Norte, Nordeste,
interior de Santa Catarina e Rio Grande do Sul e litoral paulista.

            Ganham relevância então numerosas paisagens marinhas e imagens de
veleiros e dos canteiros em Santos, além de dunas, em Ponta Negra, Rio Grande do
Norte; ou em Itapuã, Bahia. Os pampas gaúchos não são abandonados, assim como a
Lagoa de Conceição, em Florianópolis, com flores, em primeiro plano, e serras,
ao fundo. 

A partir de 1983, todavia, essas paisagens deixam de ser apolíneas e surge um
tom mais dionisíaco, com gestos e cores vibrando de maneira mais livre e com
maior intensidade. Nos já referidos encontros entre o céu e a terra, a presença
de cores e nuances mais escuras transmitem uma maior inquietação.

            Outro momento importante da carreira do pintor é 1976, com a Série
Naturezas Vivas. Cajus, romãs e, principalmente figos são a matéria-prima
primordial do artista, que começa a trabalhar intensamente as cores, a
articulação das composições e o diálogo entre as formas. Algumas vezes, frutas e
flores interagem na mesma obra, estabelecendo densos jogos cromáticos em que a
realidade natural do referente começa a ser deixada em segundo plano em função
de critérios cada vez mais estéticos.

            O percurso rumo a uma liberdade cada vez maior de criação e a um
mergulho interior prosseguiu com a Série Paisagens Interiores, de 1983, que
constitui uma interpretação poética da realidade em que a tônica não está mais
em anotar o que é visto no mundo da cidade ou da natureza, mas em sentir esse
universo. 

Stori ganha a confiança suficiente para criar o seu próprio mundo e, embora se
aproxime, nesses trabalhos mais subjetivos do abstracionismo, o referente não é
abandonado totalmente. Há sim uma diluição da realidade à medida que o traço
ganha movimento e as cores se entrelaçam com uma técnica cada vez mais solta,
menos compromissada com a representação do mundo tangível e mais com a
apresentação de um sentimento espontâneo de fazer artístico, repleto de intensas
explosões de cor. 

            Essa vibração se atenua na Série New Age, do final dos anos 1980,
caracterizada por movimentos suaves, em gestos pictóricos contínuos e calmos,
que convidam à introspecção, à paz e à calmaria. Sempre inquieto, o artista
trabalha com formatos de pequenas dimensões, de 3 cm x 2,5 cm, ou de grandes
proporções, como 103 cm x 153 cm. 

Essa variedade permite grande diversidade no trato com a aquarela,
utilizando-se, principalmente nas obras maiores, o próprio branco do papel. O
domínio técnico desenvolvido, nesta fase, resulta em traços mais calmos, com
predomínio da horizontalidade, o que induz justamente a pensar num equilíbrio
formal e estético que convida a uma reflexão sobre a própria existência.

            Nos anos 1990, é iniciada uma nova experimentação, desta vez com
papel colorido como suporte. É a Série Sírius, que alude justamente a maior e
mais brilhante estrela da constelação da Ursa Maior. Surge assim uma estética
que, apesar de marcada por tons mais escuros, utiliza-se muito dos efeitos da
luz e do reflexo. 

Nesse momento, nasce a Série Noturnos, que se aproxima do abstracionismo, mas
mantém certas referências como uma ponte, a silhueta de uma cidade, o reflexo em
um lago ou rio ou todos esses fatores simultaneamente. O urbano e a natureza se
integram num processo que retoma a Série Apocalipse da Paisagem mesclada com a
criatividade mostrada em Paisagens Interiores.

            Além do trabalho em aquarela, Stori se destaca na utilização da
gravura em metal com a técnica do spit-bite, processo pictórico de gravação, com
a utilização da saliva como elemento aglutinante, que possibilita atingir
manchas coloridas como as de uma aguada a tinta nanquim ou aquarela. 

O resultado, de grande intensidade emocional, é uma mistura de planejamento com
ações tomadas no próprio ato de construção artística. Há preparação da obra, mas
uma pequena margem brota no instante da criação propriamente dita. São atingidos
assim numerosos tons róseos e de azuis, dos mais claros aos mais intensos, além
de ricas nuances de vermelho. 

A técnica permite a utilização de manchas sem recortes ou com bordas em degradé,
além da sobreposição de cores e transparências. O resultado atingido lembra - e
muito - a técnica desenvolvida nas aquarelas, mantendo-se a fluidez contagiante
que estimula o conhecimento de novas realizações do artista.

            Com um currículo que inclui exposições individuais, no Brasil e na
Itália, e coletivas, na Grécia, Alemanha, México, Itália, EUA, Espanha e
Portugal, o artista paulista tem seus trabalhos em importantes instituições como
o Museu de Arte Contemporânea (Mac) e o Museu de Arte Moderna (Mam) de São
Paulo, além de coleções particulares no Brasil e no Exterior.

            O maior diferencial do artista está justamente na sua diversidade.
Seus trabalhos com aquarela, tanto em dimensões pequenas ou maiores,
impressionam pela forma como o caminho para o abstrato foi traçado ao longo do
tempo. No entanto, o referencial não se perdeu totalmente, não só persistindo,
mas mantendo o vínculo com a realidade.   

            Para criar seus céus muito pessoais, Norberto Stori percorreu uma
trajetória de persistência e inconformismo com os saberes por ele mesmo
conquistados. Por isso, seu nome é continuamente lembrado quando se pensa
naqueles que dominam as técnicas da aquarela e da gravura com maestria e que não
se acomodam, permanecendo sempre em busca de novos desafios, prontos a se lançar
ao espaço, em aventuras estéticas possíveis de serem atingidas com sucesso
apenas por quem têm os pés bem plantados na pesquisa constante e no sólido
conhecimento técnico. 

            Oscar D'Ambrosio é jornalista, integrante da Associação
Internacional de Críticos de Arte (Aica) e autor de Os pincéis de Deus: vida e
obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).

  

 

 

 

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"Sem título"
gravura em metal/água tinta
Spit-Bite
20x19 cm  -1991

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