por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Norberto Nunes

 

            Verdade, existência e identidade

 

            Os trabalhos do artista plástico português Norberto Nunes a partir da literatura de Fernando Pessoa evocam três termos muito presentes na obra do poeta: verdade, existência e identidade. Eles têm em comum uma questão fundamental na história da arte: o encontro entre o eu e o outro.

            Duas célebres histórias acontecidas com Pessoa ilustram a questão. A primeira envolve o escritor luso José Régio. Ele marcou um encontro com o autor, a quem não conhecia pessoalmente. Após esperar por horas, chegou uma pessoa dizendo que era Álvaro de Campos e pedindo perdão por Pessoa não ter podido aparecer. Era o próprio Pessoa.

            A segunda diz respeito a poeta brasileira Cecília Meireles. Quando ela foi, em 1934, a Portugal para proferir conferências nas Universidades de Coimbra e de Lisboa, agendou um encontro com Pessoa. Esperou inutilmente por duas horas e voltou ao hotel, onde encontrou um exemplar de Mensagem e um recado do escritor, dizendo que, segundo seu horóscopo, “os dois não eram para se encontrar”.

Esses episódios que questionam as verdades aparentes, a existência de uma pessoa sob a salvaguarda de um nome e o sentido de se ter uma identidade permitem ler a obra plástica de Norberto Nunes como um mergulho na poética da heteronímia e da multiplicidade pessoana, hoje mais atual do que nunca.

As imagens que realiza do poeta com a mão na lateral do rosto ou cercado por livros, estejam eles abertos, fechados ou em grande número em uma biblioteca  captam justamente a multiplicidade por meio da construção de planos. Isso ocorre pela criação de falsas perspectivas e gradual destruição da imagem no esfumaçamento ou na quebra de expectativa na elaboração das proporções.

É no uso dos ocres e alguns tons de magenta que a atmosfera pessoana do se multiplicar para se manter uno ganha especial sentido. Ao tomar a frase do poeta “Livros são papéis pintados com tinta”, Norberto Nunes traz à tona o universo do pensamento de Pessoa em imagens nas quais o mistério se faz onipresente.

Pessoa afirmou que “simplesmente sinto com a imaginação”. Analogamente, o pintor leva às telas a sua paixão pelo poeta. Ela pode ser visualizada na fragmentação das imagens e no estabelecimento de enquadramentos diferenciados, geralmente destacando imagens do pessoa homem e suas multiplicações em heterônimos (Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis), ortônimo (Pessoa ele-mesmo) e semi-heterônimo (Bernardo Soares).

Assim como Régio encontrou Campos querendo ver Pessoa, a quem Cecília nunca visualizou, as criações plásticas de Norberto Nunes oferecem uma relativização da verdade enganadora do poder da imagem, perguntam sobre o significado da existência e apontam que estar certo da própria identidade pode significar perdê-la.

O pintor português coloca Pessoa na dimensão de uma incógnita não só em termos de imagem, mas no âmbito filosófico de questionar como ter certezas e crer em verdades absolutas e o primeiro passo para se perder nelas e nunca encontrar as perguntas que realmente importam: as existenciais sobre o significado do ser. São justamente essas que o trabalho de Nunes ergue com a competência do fazer e a acuidade do pensar.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

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  Sonho. Não sei quem sou
53 x 90 cm acrílica sobre tela sem data

Norberto Nunes

 

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