por Oscar D'Ambrosio


 

 


Nora Abramzon

 

A delicadeza do detalhe

 

Pintar significa desvendar novos mundos. As telas da artista plástica argentina Nora Abramzon, por exemplo, concentra sua atenção nos detalhes, sendo que cada um de seus trabalhos oferece uma nova visão do mundo, sempre com extrema delicadeza e sensibilidade.

Nascida em 23 de março de 1944, em Mar del Plata, Argentina, Nora María Abramzon estudou Psicologia Social e, a partir de 1992, teve aulas de pintura com Animes Macadan. No ano seguinte, começou a estudar no ateliê de Virginia Bellati, onde permanece até hoje, desenvolvendo pesquisas com formas e cores que tornam a sua obra bastante eclética.

As imagens de Abramzon são justamente uma jornada pela alma do ser humano. Cada uma delas lança novas luzes sobre as múltiplas facetas da existência. Uma prova disso é a recorrente presença da figura do Carlitos, o imortal personagem de Charles Chaplin, que surge como um símbolo do ludismo, da simplicidade e da inocência.

Quadros como Callecita entonada acentuam o lirismo. Numa rua tortuosa, repleta de casinhas coloridas, Carlitos aparece, ao fundo, com sua tradicional bengala, enquanto músicos na rua entoam melodias. A tela ganha assim relevância como uma alegoria da passagem do tempo, e sempre pode ser melhor aproveitado quando se mantém a pureza de espírito.

El solitario diferencia-se do conjunto das telas da artista por um tom mais introspectivo. Um homem é mostrado sozinho sobre um barco iluminado por um lampião, com o sol ao fundo. Esse jogo de luzes confere intensa poeticidade e obriga a refletir, como a maioria das telas que enfoca a imagem do barqueiro, sobre o sentido da existência, com célebre dúvida sobre as origens, nossos atuais atos e o enigma sobre aquilo que o futuro nos reserva.

Indagação semelhante é levantada na tela Ayer y hoy, na qual dois Buenos Aires são mostrados simultaneamente. Passado e presente se encontram no mesmo trabalho, apontando como as pessoas e a cidade se transformam com o passar dos anos. A perda do romantismo e a concepção mais prática da vida são alguns dos tópicos para reflexão sugeridos pela imagem criada pela artista.

O tema da passagem do tempo volta a surgir em Generaciones, trabalho que mostra várias fases e momentos da vida, enfocando desde a juventude dos anos 1970 até momentos mais contemporâneos. Essa interpretação da vida como caminho, como uma espécie de tocha que os mais velhos passam às futuras gerações permeia boa parte do trabalho da artista.

Todo pasa en el zoo exemplifica bem o amor da artista pelo detalhe. Animais como urso branco, camelo e zebra são cuidadosamente mostrados, no contexto do jardim Zoológico. Processo criativo semelhante ocorre em Ver, oír, callar, que mostra uma floresta repleta de personagens, sendo necessário maior atenção para observar vultos que aparecem em meio a sombras e atrás de árvores.

Esse efeito é obtido num clima de lirismo, também encontrado em Cosecha de tomates, em que surgem crianças brincando no ambiente rural, num tom quase impressionista, como também ocorre em Amanecer, com sua atmosfera onírica e delicada.

Obras como Sensaciones e La balsa mostram como a vivência pessoal pode ser o ponto inicial da reflexão que leva à produção de telas poéticas. Na primeira, o estúdio da artista torna-se o cenário de uma colcha de retalhos pessoal e, na segunda, numerosos pertences são colocados numa balsa, atividade que exige uma cuidadosa seleção daquilo que se deseja manter.

Admiradora da grande pintora naïf norte-americana Grandma Moses, Nora homenageia o escritor argentino Jorge Luis Borges na tela Altillo, em que a referencia ao escritor, um autêntico bruxo das palavras, célebre pelo trabalho com símbolos como espelhos e tigres, se mescla com a presença de lembranças pessoais da artista.

Um quadro artisticamente bem sólido nessa vertente, em termos de composição de formas e articulação de cores, é Tren de milenio, no qual a pintora cria uma alegoria mostrando aquilo que as pessoas deveriam levam para o recém-nascido século, metaforizado na figura de um trem.

O ecletismo de Nora é notado não só naqueles quadros que remetem ao impressionismo, como El muro, visão extremamente delicada e poética do Muro das lamentações, em Jerusalém, mas também em telas como Observando, em que há uma proximidade com o surrealismo nas imagens de árvores contorcidas, que criam uma atmosfera mágica, misteriosa, marcada pelo sonho.

Outra vertente da artista está na recriação poética e sensível de cenas cotidianas, como ocorre em Reencuentro e, principalmente em Escena cotidiana, na qual a venda de flores na calçada é mesclada com grafite na parede e pombos, num retrato da vida contemporânea, em que traços poéticos e delicados podem ser esquecidos em meio ao confuso mundo urbano.

A variedade temática e estilística e o amplo domínio do jogo com as cores tornam Nora Abramzon uma artista consciente de seu ofício, principalmente no preciosismo que revela no tratamento dos detalhes e na sua ampla compreensão do universo da criação artística como expressão da liberdade de imaginar.

Oscar D’Ambrosio é jornalista, integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).

 


  

 

 

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