por Oscar D'Ambrosio


 

 


Nonatto

 

            O homem na multidão

 

            O artista plástico Nonatto é um cidadão do mundo. Esta afirmação retoma não só a célebre colocação do ator Charles Chaplin sobre a capacidade da arte de ultrapassar todo tipo de fronteira, como também o trabalho do artista mineiro, radicado no Estado de Goiás, com a sua série Portraits, em que fotografias ou desenhos de rostos obrigam a uma reflexão sobre a solidão no mundo contemporâneo que tem como um de seus pontos culturais de partida o conto “O homem das multidões”, de Edgard Allan Poe.

            Nascido em Montalvânia, MG, em 23 de setembro de 1963, Nonato Coelho, que assina seus trabalhos como Nonatto, considera-se um eterno “estudante de arte”. Aos três anos, foi com a família para Catutaí, GO. Após desenhar espontaneamente, como toda criança, teve contato com o mundo da arte somente aos 18 anos, quando passou a morar em Goiânia, GO, e conheceu nomes como Siron Franco e Omar Souto.

Autodidata, sofreu inicialmente influência do pintor ilusionista M. S. Escher, mestre em lidar, de maneira quase matemática, com as possibilidades expressivas das relações forma e fundo; e, nos anos 1980, ao lado de Edney Antunes, o Pincel Atômico, grupo de grafite que, de certo modo, é uma técnica ainda muito presente em seu trabalho.

Na mesma década, Nonatto, com Dipaiva, Djódio e L.Mauro, formou o chamado  Grupo de Goiás, que apresentou com sucesso seus trabalhos em São Paulo. O artista teve ainda o privilégio de, em 1985, ser selecionado, entre 2 mil candidatos de todo o País, para participar da exposição itinerante Brasil-Japão, que percorreu as cidades de Tóquio, Osaka, Atami, Rio de Janeiro e São Paulo.

A arte de Nonatto não parou então de se desenvolver. Em 1991, foi um dos ganhadores do Prêmio Viagem a Paris promovido pela Bienal do Estado de Goiás e, a partir daí, o artista permaneceu numa espécie de ponte aérea entre o mundo e retornos periódicos ao Brasil.

            Nesse período, morou no Egito, Israel e Itália, com maior permanência em Rodes e Atenas, na Grécia. Para sobreviver, além de trabalhos mais experimentais e de pesquisa de técnicas, realizou ilustrações de pequenas paisagens de monumentos históricos gregos para serem vendidas a turistas nas bancas de jornal.

            Tais trabalhos, porém, não podem ser vistos como obras menores. Eles integram o universo pictórico do artista que se coloca frente ao mundo como um viajante sem fronteiras. Conhecer essas obras de consumo mais fácil é a porta de entrada para a mencionada série Portraits, na qual retratos de gente comum são colocados lado a lado em ricos painéis humanos.

Além de captar diversas expressões, Nonatto, nesses trabalhos retoma as origens, utilizando marcas estéticas próximas ao grafite sobre os rostos. Com estilete, são feitos traços dos mais variados tipos, muitos semelhantes a grafismos de letras e desenhos, introduzindo novos significados.

Trata-se de uma arte eminentemente urbana, que retoma o mencionado conto de Poe, no qual um personagem anônimo se perde na multidão. O que o aproxima dos outros é justamente o fato de ser um nada na metrópole. O fato de não ter atrativos diferenciadores, portanto, o torna um ser invisível.

Nonatto presta tributo a pessoas como o artista plástico Waldomiro de Deus, à incentivadora de arte em Goiânia Célia Câmara e ao crítico italiano Lino Cavallari, que acompanham o seu trabalho, marcado pela valorização do desenho como recurso expressivo e por composições possuidoras de uma visível construção arquitetônica no sentido da existência de um projeto estético e visual.

Nas paisagens que pinta da Grécia, Nonatto valoriza muito a arquitetura mais popular, ressaltando a geometria e as linhas das características casinhas brancas dos povoados do litoral do país que é o berço da civilização ocidental.  Nesse exercício, quando até se aproxima de um construtivismo europeu e de um cubismo com sabor mediterrâneo, sua arte encontra, como o artista reconhece, um paralelo com a da portuguesa Maria Elena Vieira da Silva, uma de suas referências.

            Seja nas paisagens ou em Portraits, há uma demonstração de amor pela fotografia, capaz de registrar realidades que o artista subverte com a sua intervenção, seja com grafite, com o uso da cor ou com um traço diferenciado. Há ainda séries em que dispensa as fotografias e concebe numerosos rostos lado a lado com o uso de diversas técnicas e tonalidades.

            Nonatto costuma estabelecer atmosferas lúdicas. Isso está presente desde os primeiros trabalhos, quando as suas criações eram caracterizadas por telas inteiras cobertas de imagens de sapos, concebidos como alusões aos responsáveis pelos crimes de colarinho branco.

            Mais tarde, quando, nitidamente influenciado pelas escavações arqueológicas de Atenas, mostra ao público ossos de animais cobertos de folhas de ouro, evidencia uma capacidade inventiva movida pela inquietação do grafiteiro que das ruas de Goiânia partiu para a Europa com pincéis nas mãos e muitas idéias na cabeça.

Elogiado pela historiadora de arte da Universidade de Athenas e membro do Comitê Nacional Grego da Unesco, Athena Schina, Nonatto já realizou exposições individuais em Goiânia, na Grécia e na Itália, utilizando-se principalmente de técnicas mistas a partir do uso de pastel, óleo, acrílico, esmalte sintético, lápis, colagem e mesmo papel reciclado de envelopes e de cartas recebidas de amigos quando estava fora do Brasil.

            Admirador das imagens mais sombrias do espanhol Goya, o artista concebe a arte como “fluir da sensibilidade coletiva” e, em seus diversos trabalhos, mantém uma coerência. Sabe, como poucos, ser autêntico com a própria obra. Os infinitos rostos que fotografa, pinta, re-trabalha e re-cria são uma expressão próxima do universo do homem das multidões de Poe.

            Para Nonatto, o ser humano, imerso na metrópole, busca a individualidade em si mesma e a perde no caminhar urbano. As viagens, com suas idas e vindas solitárias, aprofundam esse sentimento de solidão primeira a quem o homem está condenado. Morre e  

nasce só e, por isso, talvez a sua expressão mais verdadeira e, ao mesmo tempo, mais melancólica e existencialmente rica, seja o retrato 3x4.

Lá cada pessoa é, em princípio, igual aos outros, mas, como mostra o artista mineiro, pode ser totalmente diferente e único se desvendada a sua riqueza interior, algo que Nonatto faz com  irreverentes grafites, questionadores sapos e retratos anonimamente individuais das particularidades universais de cada ser humano.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 

 

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Série Portraits 
óleo sobre tela 140x150 cm - 1996

Nonatto


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