por Oscar D'Ambrosio


 

 


Niura Machado Bellavinha

 

Interstícios da criação

 

A mineira Niura Machado Bellavinha é uma das mais representativas artistas brasileiras nascidas nos anos 1960. O que pode parecer um elogio gratuito e exagerado tem a sua razão de ser. Nascida em 1963, década que, para muitos, teria dado origem a uma geração politicamente alienada pelos abusos do poder  instituído nos anos seguintes, ela mostra que soube fugir a esse estigma por uma postura experimental em que consegue juntar o bem feito ao bonito.

A tarefa é bem mais difícil do que parece num primeiro momento. Artistas dessa década ficaram no bem feito, ou seja, se aprimoraram em diversas técnicas sem perceber que não basta saber fazer sem o respeito ao estético, ou seja, o respeito ao belo, no sentido daquilo que faz o observador pensar, refletir e crescer intelectualmente.

Por outro lado, há os artistas apenas do universo do bonito, aquilo que agrada aos olhos, mas não consegue se realizar enquanto objeto de reflexão estética e de pesquisa, num projeto definido que se renove constantemente e não esteja voltado apenas para encontrar mercado nas galerias e espaços culturais.

Niura, na exposição Lusco-fusco, de 18 de abril a 20 de maio de 2006, na Galeria Nara Roesler, em São Paulo, SP, prova que o bem feito e o belo podem caminhar juntos. Suas pinturas em linho exploram as dimensões do azul com rara sensibilidade e profundidade.

Não se trata aqui, me parece, de buscar relações diretas com amanheceres ou anoiteceres, embora eles sejam sugeridos, mas em observar atentamente a gama de azuis que surge em cada pintura, a somatória deles rumo ao preto e a ausência de tinta que deixa transparecer o linho da tela, estabelecendo os brancos.

Tecido nobre por excelência, associado no Oriente e na Grécia à proteção dos males do mundo, o linho colabora para que as pinturas de Niura tenham uma dimensão sagrada no sentido de serem observadas como portais de um templo. A questão estética colocada não é um pretenso misticismo, mas de convite para uma entrada silenciosa num mergulho nos azuis.

A artista ganha destaque por transformar a sua pesquisa plástica em resultado majestoso, entendendo-se isso no sentido autêntico da palavra, ou seja, na possibilidade de merecer reverência pela grandiosidade apresentada. Atingir isso exige domínio técnico – e nesse momento a sensibilidade artística atinge a técnica.

Portanto, ao contrário de muitos artistas, que têm dentro de si a inquietação, mas não conseguem transformá-la em recurso ou resultado plástico, Niura atinge o objetivo de dar a sua visão dos azuis uma extensão universal, qualidade maior da arte que não se contenta em ser uma dimensão psicológica do ser, mas busca atingir, pelo processo de criação, os arquétipos da humanidade.

O desenvolvimento da pesquisa de tonalidades de azul, assim como a exploração do espaço preenchido em relação com os vazios cria aquilo que se costuma chamar de pintura de atmosferas, ou seja, são estabelecidos climas de percepção. Cabe ao observador entrar nesse universo proposto ou não.

Quem aceita o convite sai certamente renovado, convicto de que Niura Machado Bellavinha é uma artista consciente de seu fazer, dignificando a arte como uma atividade que, nos interstícios da criação, une intuição psicológica, pensamento construtivo e conhecimento técnico adquirido.

 

Oscar D’Ambrosio, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp/São Paulo/Brasil), integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica - Seção Brasil).

 

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Lusco-fusco 6

acrílica e óleo sobre linho
125 x 126 cm - 2005/2006

Niura Machado Bellavinha

 

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