Niura
Machado Bellavinha
Interstícios
da criação
A
mineira Niura Machado Bellavinha é uma das mais representativas
artistas brasileiras nascidas nos anos 1960. O que pode parecer um
elogio gratuito e exagerado tem a sua razão de ser. Nascida em 1963, década
que, para muitos, teria dado origem a uma geração politicamente
alienada pelos abusos do poder instituído
nos anos seguintes, ela mostra que soube fugir a esse estigma por uma
postura experimental em que consegue juntar o bem feito ao bonito.
A
tarefa é bem mais difícil do que parece num primeiro momento. Artistas
dessa década ficaram no bem feito, ou seja, se aprimoraram em diversas
técnicas sem perceber que não basta saber fazer sem o respeito ao estético,
ou seja, o respeito ao belo, no sentido daquilo que faz o observador
pensar, refletir e crescer intelectualmente.
Por
outro lado, há os artistas apenas do universo do bonito, aquilo que
agrada aos olhos, mas não consegue se realizar enquanto objeto de
reflexão estética e de pesquisa, num projeto definido que se renove
constantemente e não esteja voltado apenas para encontrar mercado nas
galerias e espaços culturais.
Niura,
na exposição Lusco-fusco, de 18 de abril a 20 de maio de 2006,
na Galeria Nara Roesler, em São Paulo, SP, prova que o bem feito e o
belo podem caminhar juntos. Suas pinturas em linho exploram as dimensões
do azul com rara sensibilidade e profundidade.
Não
se trata aqui, me parece, de buscar relações diretas com amanheceres
ou anoiteceres, embora eles sejam sugeridos, mas em observar atentamente
a gama de azuis que surge em cada pintura, a somatória deles rumo ao
preto e a ausência de tinta que deixa transparecer o linho da tela,
estabelecendo os brancos.
Tecido
nobre por excelência, associado no Oriente e na Grécia à proteção
dos males do mundo, o linho colabora para que as pinturas de Niura
tenham uma dimensão sagrada no sentido de serem observadas como portais
de um templo. A questão estética colocada não é um pretenso
misticismo, mas de convite para uma entrada silenciosa num mergulho nos
azuis.
A
artista ganha destaque por transformar a sua pesquisa plástica em
resultado majestoso, entendendo-se isso no sentido autêntico da
palavra, ou seja, na possibilidade de merecer reverência pela
grandiosidade apresentada. Atingir isso exige domínio técnico – e
nesse momento a sensibilidade artística atinge a técnica.
Portanto,
ao contrário de muitos artistas, que têm dentro de si a inquietação,
mas não conseguem transformá-la em recurso ou resultado plástico,
Niura atinge o objetivo de dar a sua visão dos azuis uma extensão
universal, qualidade maior da arte que não se contenta em ser uma
dimensão psicológica do ser, mas busca atingir, pelo processo de criação,
os arquétipos da humanidade.
O
desenvolvimento da pesquisa de tonalidades de azul, assim como a exploração
do espaço preenchido em relação com os vazios cria aquilo que se
costuma chamar de pintura de atmosferas, ou seja, são estabelecidos
climas de percepção. Cabe ao observador entrar nesse universo proposto
ou não.
Quem
aceita o convite sai certamente renovado, convicto de que Niura Machado
Bellavinha é uma artista consciente de seu fazer, dignificando a arte
como uma atividade que, nos interstícios da criação, une intuição
psicológica, pensamento construtivo e conhecimento técnico adquirido.
Oscar
D’Ambrosio, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade
Estadual Paulista (Unesp/São Paulo/Brasil), integra a Associação
Internacional de Críticos de Artes (Aica - Seção Brasil).